“Apagão das canetas” ameaça acesso a medicamentos no SUS, aponta dissertação sobre gestão farmacêutica municipal

O medo de decidir pode estar comprometendo silenciosamente o funcionamento da saúde pública brasileira.

Essa é a principal conclusão da dissertação “A crise da decisão na assistência farmacêutica municipal e a cultura do medo: desafios jurídicos e caminhos possíveis”, desenvolvida por Felipe Caribé de Andrade no Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP).

O estudo investiga como o chamado “apagão das canetas” — expressão utilizada para descrever a paralisia decisória de gestores públicos por medo de responsabilização — vem afetando diretamente a efetividade da assistência farmacêutica municipal e, consequentemente, o próprio acesso da população a medicamentos essenciais no Sistema Único de Saúde (SUS).

Segundo a pesquisa, gestores municipais vivem hoje uma espécie de encruzilhada institucional:
de um lado, precisam garantir o direito constitucional à saúde; de outro, enfrentam um ambiente jurídico marcado por insegurança, excesso de burocracia, controle punitivista e temor constante de responsabilização pessoal.

O resultado, afirma o autor, é uma administração frequentemente paralisada.

A dissertação sustenta que o medo de punições por órgãos de controle, ações judiciais ou interpretações divergentes da legislação leva muitos gestores a evitarem decisões mais complexas, inovadoras ou fora dos fluxos burocráticos tradicionais.

Na prática, isso pode gerar:

  • atraso em compras de medicamentos;
  • dificuldade de implementação de políticas locais;
  • omissões administrativas;
  • aumento da judicialização;
  • perpetuação de problemas estruturais;
  • e manutenção do chamado “status quo burocrático”.

O estudo concentra sua análise especialmente na assistência farmacêutica municipal, considerada pelo pesquisador um dos setores mais vulneráveis aos efeitos da paralisia decisória.

Isso porque a gestão de medicamentos envolve:

  • licitações complexas;
  • responsabilidade sanitária;
  • logística especializada;
  • controle rigoroso;
  • análise técnica;
  • fiscalização intensa;
  • decisões rápidas diante de demandas urgentes da população.

A dissertação argumenta que o modelo atual de controle frequentemente valoriza mais o formalismo burocrático do que os resultados concretos das políticas públicas.

Nesse cenário, segundo o autor, muitos administradores acabam preferindo não agir a correr riscos institucionais.

“O custo percebido da decisão é superior ao da omissão”, resume o trabalho ao discutir a lógica contemporânea da gestão pública defensiva.

O estudo também critica a fragmentação institucional presente na administração pública municipal.

Entre os problemas identificados estão:

  • ausência de processos decisórios padronizados;
  • falta de análise de risco;
  • carência de instâncias colegiadas;
  • baixa integração entre setores;
  • ausência de protocolos claros;
  • dificuldade de registro técnico das decisões.

Segundo a pesquisa, esse ambiente produz insegurança contínua e amplia o receio de responsabilização individual dos gestores.

O trabalho utiliza como eixo jurídico central as alterações promovidas pela Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro (LINDB) por meio da Lei nº 13.655/2018.

Para o autor, a nova redação da LINDB introduziu princípios capazes de reconstruir a segurança decisória na Administração Pública ao exigir que decisões administrativas, judiciais e de controle considerem:

  • consequências práticas;
  • realidade institucional;
  • impacto social;
  • viabilidade operacional;
  • contexto concreto das políticas públicas.

A dissertação também defende maior adoção de:

  • governança baseada em evidências;
  • análise de consequências;
  • pragmatismo jurídico;
  • gestão por risco;
  • decisões colegiadas;
  • registro estruturado de justificativas;
  • inovação institucional.

Como proposta prática, o pesquisador desenvolveu um produto técnico voltado à gestão municipal:
uma matriz de análise e qualificação decisória destinada a auxiliar administradores públicos na tomada de decisões relacionadas à assistência farmacêutica.

A ferramenta busca criar critérios mais objetivos para decisões administrativas, reduzindo incertezas e fortalecendo a previsibilidade institucional.

O estudo ainda chama atenção para outro efeito preocupante da paralisia administrativa:
a chamada “delegação do direito do administrado ao administrado”.

Segundo o autor, quando o Estado deixa de decidir adequadamente, a população acaba sendo empurrada para caminhos como:

  • judicialização da saúde;
  • ações individuais;
  • disputas judiciais por medicamentos;
  • pressão sobre o Judiciário;
  • desigualdade no acesso aos tratamentos.

Ao longo do texto, a dissertação faz uma defesa explícita de uma Administração Pública mais:

  • racional;
  • pragmática;
  • responsiva;
  • orientada a resultados;
  • comprometida com efetividade social.

Porque, no fim, o estudo sugere algo inquietante:
o problema da saúde pública brasileira talvez não esteja apenas na falta de recursos.

Mas também no medo institucionalizado de decidir.

Referência:

ANDRADE, Felipe Caribé de. A crise da decisão na assistência farmacêutica municipal e a cultura do medo: desafios jurídicos e caminhos possíveis. Dissertação (Mestrado Profissional em Direito) — Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), Brasília, 2025. Orientação: Ramiro Nóbrega Sant’Ana.

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