Ailton Krenak desmonta a modernidade com metáforas que transformam filosofia em resistência indígena

O filósofo e líder indígena Ailton Krenak utiliza metáforas como instrumentos de combate epistemológico contra a lógica da modernidade ocidental. Essa é a principal conclusão do artigo “Reflexões sobre o discurso metafórico de Ailton Krenak”, publicado na área de Linguística & Letras e Artes, que analisa como suas imagens simbólicas reorganizam a percepção sobre humanidade, natureza, capitalismo e existência.

O estudo, assinado por Carlos Antônio Magalhães Guedelha, Ariana Barreto do Nascimento, Francineide Bento de Lima, Keyla Regina Pontes Nogueira e Nelcelia Macena Guimarães, parte da teoria da metáfora conceitual de George Lakoff e Mark Johnson para mostrar que, em Krenak, as metáforas não funcionam apenas como recurso literário, mas como dispositivos filosóficos e políticos capazes de questionar a racionalidade dominante.

Segundo o artigo, obras como Ideias para adiar o fim do mundo, A vida não é útil e Futuro ancestral articulam uma cosmopercepção indígena baseada na interdependência entre humanidade e natureza. Em vez da separação moderna entre sujeito e ambiente, Krenak propõe uma visão relacional da vida, em que rios, florestas, territórios e seres humanos formam um mesmo organismo existencial.

Uma das metáforas mais contundentes analisadas pelos pesquisadores é “A HUMANIDADE É UM CLUBE EXCLUSIVO”. Nela, Krenak compara a ideia moderna de humanidade a um condomínio fechado, no qual poucos são reconhecidos como plenamente humanos, enquanto indígenas, ribeirinhos, quilombolas e a própria natureza permanecem historicamente do lado de fora.

Outra imagem poderosa é “A HUMANIDADE É UM GRANDE LIQUIDIFICADOR”. Para Krenak, a modernização arrancou populações inteiras de seus territórios e as lançou nas periferias urbanas, triturando culturas, ancestralidades e identidades em nome da produção de mão de obra e da homogeneização social.

O texto destaca ainda a famosa metáfora dos “PARAQUEDAS COLORIDOS”, em que a arte, a imaginação e a criatividade aparecem como formas de resistir ao colapso civilizatório. Em vez de negar a queda do mundo moderno, Krenak propõe reinventar a maneira de atravessá-la. Música, poesia, dança e pensamento crítico tornam-se instrumentos de sobrevivência simbólica diante do esgotamento ambiental e existencial contemporâneo.

O capitalismo surge no estudo associado à metáfora do câncer. Segundo os autores, Krenak compara a expansão capitalista a uma metástase que ocupa o planeta inteiro e infiltra-se nos afetos, nos desejos e nos modos de vida, destruindo o próprio corpo da Terra do qual depende para sobreviver.

Já as cidades aparecem como “implantes no corpo da Terra”, uma das imagens mais radicais da obra krenakiana. Nessa formulação, a urbanização moderna deixa de ser vista como símbolo de progresso e passa a representar uma prótese invasiva sobre um organismo vivo. Quando rios são canalizados, florestas destruídas e o solo impermeabilizado, o que se produz não é desenvolvimento, mas ferimento ecológico.

O artigo também explora a metáfora da “MENTALIDADE DE CATACUMBA”, usada por Krenak para criticar cidades que enterram córregos sob concreto e transformam a natureza em obstáculo urbanístico. Para o filósofo indígena, o urbanismo moderno prefere esconder a vida selvagem a conviver com ela.

Os pesquisadores argumentam que o discurso metafórico de Krenak produz uma espécie de “reencantamento do mundo”, rompendo com a lógica utilitarista que transforma tudo em mercadoria. Nesse sentido, suas metáforas operam como formas de resistência epistêmica e de reconstrução ética da relação entre humanidade e planeta.

Mais do que interpretar metáforas, o estudo sugere que Krenak disputa o próprio sentido da realidade. Em um tempo dominado por algoritmos, produtividade e aceleração permanente, suas imagens funcionam quase como sabotagens poéticas contra a normalização do colapso.

Talvez por isso sua filosofia incomode tanto: porque ela lembra que a Terra não é cenário, recurso ou mercadoria. É corpo. E corpo ferido também reage.

Referência

GUEDELHA, Carlos Antônio Magalhães et al. Reflexões sobre o discurso metafórico de Ailton Krenak. Linguística & Letras e Artes, 25 mar. 2026. DOI: 10.70773/revistatopicos/774491673.

Deixe um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

search previous next tag category expand menu location phone mail time cart zoom edit close