Educação antirracista nasce da aldeia: experiência Guarani Mbyá desafia estereótipos e fortalece identidade indígena

Uma experiência desenvolvida por estudantes da primeira Licenciatura Mbyá Guarani em Educação Intercultural Indígena da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) demonstra como a escola pode se tornar um espaço de fortalecimento cultural, valorização identitária e enfrentamento ao racismo. O relato foi apresentado durante o Encontro das Licenciaturas da Região Sul (VENLIC Sul) e reúne reflexões construídas a partir de atividades realizadas na comunidade indígena Jataity, em Viamão, no Rio Grande do Sul.

O trabalho foi desenvolvido pelos pesquisadores Orluck Jaiko Benites, Tania Miorando e Jacilene Aguiar Silva e teve como foco o componente curricular Educação para as Relações Étnico-Raciais da Licenciatura Intercultural Indígena da UFSM. A proposta buscou articular conhecimentos acadêmicos e saberes tradicionais do povo Guarani Mbyá para fortalecer práticas pedagógicas antirracistas e combater o apagamento histórico dos povos indígenas.

Segundo os autores, a educação indígena não pode ser compreendida apenas como um processo escolar. Entre os Guarani Mbyá, a formação das novas gerações acontece também no território, na convivência familiar, nos rituais, na espiritualidade, nos cantos, nas histórias, na relação com a natureza e na vida comunitária. A escola, nesse contexto, deve atuar como um espaço complementar, fortalecendo e não substituindo os conhecimentos tradicionais.

As atividades ocorreram na Escola Estadual Indígena Karai Arandu e envolveram rodas de conversa, exibição de vídeos, debates, utilização de imagens e manifestações culturais realizadas tanto em língua Guarani quanto em português. A metodologia adotada privilegiou a circularidade dos saberes, princípio central das pedagogias indígenas, permitindo a participação de estudantes, professores indígenas e docentes não indígenas.

Durante as discussões, os participantes refletiram sobre temas como racismo estrutural, racismo epistêmico, preconceito, identidade cultural e valorização dos conhecimentos indígenas. O trabalho revelou que muitos estudantes identificavam práticas discriminatórias presentes em brincadeiras e discursos aparentemente cotidianos, frequentemente baseados em estereótipos sobre os povos originários. A partir dos debates, essas situações passaram a ser problematizadas coletivamente.

O estudo destaca que a educação antirracista não deve ser restrita a datas comemorativas ou atividades pontuais. Trata-se de uma obrigação legal prevista na Lei nº 11.645/2008, que determina o ensino da história e da cultura indígena em todas as escolas brasileiras. Os autores defendem que sua efetivação exige mudanças profundas nos currículos e nas formas de produzir conhecimento, reconhecendo saberes historicamente marginalizados pelas perspectivas eurocêntricas predominantes na educação nacional.

A pesquisa dialoga com autores como Nilma Lino Gomes, Gersem Baniwa e Ailton Krenak. Entre as reflexões apresentadas, destaca-se a crítica ao modelo histórico de escolarização imposto aos povos indígenas antes da Constituição de 1988. Durante décadas, a escola foi utilizada como instrumento de assimilação cultural, buscando substituir línguas, tradições e modos de vida indígenas por valores externos. O reconhecimento constitucional dos direitos indígenas abriu espaço para uma nova concepção de educação baseada na valorização da diversidade cultural e na autonomia dos povos originários.

Os resultados observados na comunidade indicaram fortalecimento da identidade Guarani Mbyá, maior valorização da língua e dos conhecimentos tradicionais e ampliação das discussões sobre direitos indígenas e combate ao racismo. Os estudantes também tiveram contato com trajetórias de lideranças indígenas e com debates sobre território, resistência cultural e protagonismo político, compreendendo que os povos indígenas não pertencem ao passado, mas continuam produzindo conhecimento e transformando a sociedade brasileira.

Outro aspecto destacado pelos autores é a importância do regime de alternância adotado pela licenciatura, que articula períodos de formação na universidade com atividades desenvolvidas nas comunidades indígenas. Esse modelo permite que os conteúdos estudados sejam ressignificados a partir da realidade vivida nas aldeias, fortalecendo práticas pedagógicas contextualizadas e interculturais.

Para os pesquisadores, a Licenciatura Mbyá Guarani em Educação Intercultural Indígena representa uma conquista política, pedagógica e epistemológica. Além de formar professores comprometidos com suas comunidades, o curso contribui para ampliar a presença da história e da cultura indígena nos processos educativos e para consolidar uma educação escolar indígena específica, diferenciada, bilíngue, intercultural e antirracista.

Referência

BENITES, Orluck Jaiko; MIORANDO, Tania; SILVA, Jacilene Aguiar. Perspectiva Guarani Mbyá de educação para o fortalecimento da educação antirracista. Anais do VENLIC Sul – Encontro das Licenciaturas da Região Sul, 2026.

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