Estudo de psicóloga cearense relaciona saúde mental, racismo estrutural e o mito da “mulher negra forte”, defendendo uma escuta clínica mais atenta às especificidades das experiências negras
Um artigo científico recém-produzido pela psicóloga e pesquisadora Elise Nonato dos Santos propõe uma reflexão pouco explorada na literatura psicológica brasileira: a relação entre codependência emocional, racismo estrutural e os papéis historicamente atribuídos às mulheres negras. Intitulado “Cuidar sem se abandonar: codependência e o mito da mulher negra forte”, o trabalho utiliza uma abordagem autoetnográfica para analisar como processos históricos e sociais influenciam a forma como muitas mulheres negras constroem seus vínculos afetivos e exercem o cuidado.
A autora parte da hipótese de que a codependência emocional não pode ser compreendida apenas como um fenômeno individual ou psicológico. Segundo ela, as experiências de mulheres negras são atravessadas por uma herança histórica que as posiciona como cuidadoras permanentes, frequentemente às custas da própria saúde física e emocional. O artigo argumenta que o chamado “mito da mulher negra forte” contribui para naturalizar o sofrimento silencioso e dificultar o reconhecimento das próprias necessidades.
Ao longo do texto, Elise articula experiências pessoais, observações clínicas e referências teóricas de autoras como bell hooks e Melody Beattie. A pesquisa destaca que grande parte da literatura internacional sobre codependência foi produzida a partir de contextos sociais predominantemente brancos, o que pode invisibilizar especificidades vividas por mulheres negras.
O cuidado como herança histórica
Um dos principais argumentos do estudo é que a expectativa social de que mulheres negras sejam resilientes, cuidadoras e emocionalmente disponíveis possui raízes profundas na escravidão e nas estruturas raciais que marcaram a formação das sociedades americanas. A autora sugere que esse legado continua presente nas relações familiares, amorosas e profissionais contemporâneas.
O artigo também chama atenção para padrões observados na prática clínica, como a tendência ao autoabandono, a dificuldade de estabelecer limites e a responsabilização excessiva pelos problemas de outras pessoas. Segundo a autora, esses comportamentos aparecem frequentemente associados a histórias familiares marcadas pela sobrecarga feminina e pela ausência de espaços legítimos para o cuidado de si.
Psicoterapia e fortalecimento identitário
Entre as conclusões, o estudo aponta que a psicoterapia pode desempenhar papel importante na reconstrução da autoestima e na criação de vínculos mais saudáveis. Contudo, defende que o atendimento psicológico seja sensível às questões raciais e reconheça os impactos históricos do racismo sobre a subjetividade das mulheres negras.
Além da clínica individual, a autora valoriza experiências coletivas de fortalecimento identitário, como grupos terapêuticos, redes de apoio, produções culturais negras, rodas de conversa, eventos comunitários e espaços de valorização da ancestralidade. Esses ambientes, segundo a pesquisa, ajudam a fortalecer o senso de pertencimento e contribuem para formas mais saudáveis de relacionamento consigo mesma e com os outros.
Uma discussão que ultrapassa a psicologia
Mais do que uma análise clínica, o artigo propõe uma reflexão social e política sobre quem cuida, quem é cuidado e quais grupos historicamente tiveram suas dores invisibilizadas. Ao defender uma abordagem racializada da codependência emocional, a pesquisa amplia o debate sobre saúde mental e contribui para uma compreensão mais complexa das desigualdades que atravessam os afetos, os vínculos e o cuidado na sociedade brasileira.
Fonte
SANTOS, Elise Nonato dos. Cuidar sem se abandonar: codependência e o mito da mulher negra forte. Revista Científica Interdisciplinar Os Saberes da Amazônia, v. 1, n. 1, 2026.
