Estudo questiona se plataformas digitais estão substituindo o trabalho pedagógico nas escolas paulistas

Pesquisa sustenta que avaliações em larga escala e sistemas digitais ampliaram o controle sobre professores e mudaram a lógica da educação pública em São Paulo.

A expansão das plataformas digitais e das avaliações padronizadas nas escolas estaduais de São Paulo pode estar produzindo uma transformação silenciosa no trabalho docente. Em vez de fortalecer o processo de ensino e aprendizagem, essas ferramentas estariam consolidando um modelo baseado em indicadores, metas e monitoramento permanente.

Essa é a principal conclusão da resenha crítica publicada na revista Educação em Revista, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que analisa a evolução das políticas de avaliação do Estado de São Paulo desde a criação do Sistema de Avaliação do Rendimento Escolar do Estado de São Paulo (Saresp), em 1996, até a atual Prova Paulista e os painéis digitais de acompanhamento da Secretaria da Educação.


Da aprendizagem aos indicadores

Segundo o estudo, a avaliação escolar deixou de cumprir prioritariamente uma função pedagógica para assumir um papel de gestão de desempenho.

Os autores argumentam que exames externos passaram a orientar decisões administrativas, bonificações e políticas públicas, deslocando o foco da aprendizagem para o alcance de resultados estatísticos.

Essa mudança, segundo a autora, representa a consolidação de uma lógica gerencial inspirada em modelos de eficiência e produtividade.


A tecnologia resolve — ou controla?

Um dos pontos centrais da análise é a crítica ao chamado “neoliberalismo digital”, conceito utilizado para descrever a crescente utilização de plataformas digitais, algoritmos e sistemas de monitoramento na gestão da educação.

Na prática, a pesquisa afirma que ferramentas como a Prova Paulista e painéis de Business Intelligence (BI) permitem acompanhar, em tempo real, o desempenho de escolas, professores e estudantes, reforçando mecanismos de controle institucional.


A realidade das escolas

A autora também recupera uma pesquisa qualitativa realizada em Bragança Paulista que evidencia um contraste entre o discurso oficial de inovação tecnológica e a infraestrutura disponível nas escolas.

Foram relatados problemas como:

  • internet instável;
  • Chromebooks com telas pequenas;
  • baterias comprometidas;
  • falta de tomadas;
  • dificuldades técnicas durante a aplicação das avaliações.

Segundo o estudo, essas limitações podem comprometer a própria confiabilidade dos resultados produzidos pelas avaliações digitais.


Professores sob vigilância

A pesquisa sustenta que o uso intensivo de indicadores pode alterar profundamente o papel do professor.

Em vez de atuar com autonomia para planejar o ensino conforme a realidade de cada turma, o docente passa a responder continuamente a metas, rankings e indicadores de desempenho.

A autora aproxima esse fenômeno das discussões sobre o chamado Estado Avaliador, no qual a gestão pública passa a regular a educação por meio de métricas e sistemas de responsabilização.


A crítica não é à tecnologia

O estudo ressalta que a discussão não rejeita o uso de tecnologias educacionais.

A crítica recai sobre a inversão de prioridades: quando plataformas digitais deixam de apoiar o trabalho pedagógico e passam a determinar o ritmo da escola, o risco é reduzir a educação a um processo de gerenciamento de dados.

Nesse cenário, a avaliação deixa de ser instrumento de aprendizagem para tornar-se mecanismo permanente de controle institucional.


Democracia dentro da escola

Nas considerações finais, a autora afirma que a crescente padronização curricular, associada ao monitoramento digital, pode limitar a autonomia docente e reduzir espaços de debate pedagógico.

Para ela, recuperar a função democrática da escola exige recolocar professores e comunidades escolares no centro das decisões sobre currículo, avaliação e práticas educativas.

Fonte da pesquisa

SOUZA, Elaine Constant Pereira de. A engenharia de controle: uma análise crítica da política de avaliação e do neoliberalismo digital na educação paulista. Educação em Revista, Belo Horizonte, v. 42, e65705, 2026. DOI: 10.1590/0102-469865705.

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