Crise estrutural do SUS compromete atendimento humanizado em serviços de urgência, aponta revisão científica

Estudo analisou 42 pesquisas publicadas entre 2021 e 2025 e conclui que o subfinanciamento, a precarização do trabalho e a gestão fragmentada estão na origem da desumanização do atendimento em pronto-socorros e emergências.

A humanização do atendimento é um dos princípios fundamentais do Sistema Único de Saúde (SUS), mas sua concretização enfrenta obstáculos que vão muito além da atuação dos profissionais de saúde. Essa é a principal conclusão de uma revisão crítica da literatura publicada na Revista DCS, que investigou como a crise estrutural do SUS influencia os processos de humanização e desumanização nos serviços de urgência e emergência.

O estudo, desenvolvido por pesquisadores de universidades do Pará, Rio Grande do Sul e Paraná, analisou 42 pesquisas científicas e identificou que problemas como subfinanciamento crônico, déficit de profissionais, precarização das condições de trabalho e gestão fragmentada afetam diretamente a qualidade do cuidado prestado à população.

A desumanização começa antes do atendimento

Segundo os autores, o atendimento desumanizado não deve ser interpretado como resultado exclusivo de falhas individuais dos profissionais.

A pesquisa argumenta que ele é consequência de problemas estruturais que pressionam diariamente os serviços de urgência, obrigando equipes a trabalhar sob sobrecarga, escassez de leitos, falta de insumos e elevada demanda de pacientes.

Nesse contexto, procedimentos técnicos acabam prevalecendo sobre a escuta qualificada, o acolhimento e a construção de vínculos entre profissionais e usuários.

Os principais fatores da crise

Entre os 42 estudos analisados, 38 apontaram o subfinanciamento crônico como o principal fator responsável pelas dificuldades enfrentadas pelos serviços de urgência e emergência.

A revisão também identificou outros elementos recorrentes:

  • precarização das condições de trabalho;
  • déficit de leitos e equipamentos;
  • gestão fragmentada;
  • pressão crescente por produtividade;
  • insuficiência de profissionais de saúde.

Um gráfico apresentado pelos autores mostra que o subfinanciamento foi mencionado em aproximadamente 95% das pesquisas analisadas, seguido pela precarização do trabalho (88%) e pelo déficit de insumos e leitos (76%).

Profissionais também adoecem

A revisão destaca que a crise não afeta apenas os pacientes.

Entre os profissionais de saúde, especialmente os trabalhadores da enfermagem, aparecem com frequência:

  • esgotamento físico;
  • burnout;
  • ansiedade;
  • sofrimento moral;
  • perda do sentido do trabalho.

Segundo os pesquisadores, essas condições reduzem a capacidade das equipes de oferecer um atendimento centrado nas necessidades humanas dos pacientes, criando um ciclo em que a precarização do trabalho contribui para a precarização do cuidado.

Pacientes sofrem impactos que vão além da doença

Para os usuários do SUS, a desumanização também produz consequências importantes.

O estudo aponta que atendimentos marcados pela ausência de acolhimento, fragilidade na comunicação e violência institucional aumentam sentimentos de insegurança, desconfiança e sofrimento emocional, além de dificultarem a adesão aos tratamentos.

Os autores observam ainda que populações em situação de vulnerabilidade social são as mais afetadas por essas práticas.

A enfermagem aparece como protagonista

Apesar das dificuldades, a revisão identifica a enfermagem como uma categoria estratégica para fortalecer práticas humanizadas.

Por sua presença contínua junto aos pacientes, enfermeiros e técnicos ocupam posição privilegiada para promover acolhimento, escuta qualificada e construção de vínculos, desde que disponham de condições adequadas de trabalho e apoio institucional.

Caminhos para superar a desumanização

Entre as estratégias mais frequentemente apontadas pelas pesquisas analisadas estão:

  • fortalecimento do Acolhimento com Classificação de Risco (ACCR);
  • educação permanente das equipes;
  • trabalho interdisciplinar;
  • espaços institucionais de escuta para os profissionais;
  • valorização da enfermagem;
  • ampliação da participação social na gestão do SUS.

Os autores ressaltam que iniciativas isoladas de humanização tendem a produzir resultados limitados se não forem acompanhadas por mudanças estruturais relacionadas ao financiamento, à gestão e à valorização dos trabalhadores da saúde.

Humanizar exige transformar o sistema

Como conclusão, a pesquisa afirma que a humanização não deve ser entendida como um complemento do cuidado, mas como condição essencial para garantir o direito à saúde.

Na avaliação dos pesquisadores, superar os processos de desumanização exige enfrentar as causas estruturais da crise do SUS por meio de financiamento adequado, fortalecimento da gestão pública, melhores condições de trabalho e participação da sociedade na formulação das políticas de saúde.


Referência

SOUSA, Amauri Mesquita de et al. Crise estrutural e (des)humanização do cuidado em urgência e emergência no SUS: uma revisão crítica da literatura. Revista DCS, v. 23, n. 92, 2026. DOI: 10.54899/dcs.v23i92.6171.

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