PrEP no SUS transforma prevenção ao HIV, mas adesão ainda enfrenta barreiras, revela estudo

Pesquisa qualitativa acompanhou usuários durante os primeiros três meses de uso da profilaxia pré-exposição e mostra que o atendimento humanizado do SUS fortalece a prevenção, embora dificuldades de acesso, estigma e organização dos serviços ainda comprometam a continuidade do tratamento.

Estou feliz e apavorado com o atendimento eficaz do SUS.” A frase, dita por um participante da pesquisa, sintetiza o principal achado de um estudo publicado na Revista Gaúcha de Enfermagem, que investigou as experiências de pessoas que iniciaram a Profilaxia Pré-Exposição ao HIV (PrEP) em um Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA) de uma capital do Sul do Brasil.

A pesquisa acompanhou 28 usuários durante os três primeiros meses de tratamento e identificou que, embora a PrEP represente uma importante estratégia de prevenção ao HIV oferecida gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS), sua efetividade depende não apenas da medicação, mas também da qualidade do atendimento, do acolhimento e da organização dos serviços de saúde.

A PrEP oferece proteção, mas também tranquilidade

Os participantes relataram que a principal motivação para iniciar a PrEP foi aumentar a proteção em situações de vulnerabilidade, como relações sexuais desprotegidas, relacionamentos sorodiferentes, trabalho sexual ou dificuldades no uso consistente de preservativos.

Mais do que uma proteção biomédica, a profilaxia proporcionou redução da ansiedade e maior sensação de segurança.

Diversos entrevistados afirmaram que passaram a viver sua sexualidade com menos medo da infecção pelo HIV, sem abandonar, necessariamente, outras formas de prevenção.

Atendimento humanizado foi um dos maiores diferenciais

Um dos aspectos mais valorizados pelos usuários foi a experiência vivida no serviço público.

Os relatos destacam acolhimento, respeito, facilidade para realizar exames periódicos e acompanhamento contínuo como fatores fundamentais para manter o tratamento.

Para muitos participantes, a qualidade do atendimento surpreendeu positivamente, modificando a percepção sobre o próprio SUS.

Informação ainda chega por amigos e internet

Apesar da expansão da PrEP no Brasil, o estudo mostra que sua divulgação ainda ocorre principalmente por meios informais.

As principais fontes de informação identificadas foram:

  • amigos;
  • internet;
  • parceiros sexuais;
  • profissionais de saúde;
  • serviços especializados.

Poucos entrevistados relataram ter conhecido a estratégia por campanhas públicas ou ações de divulgação do sistema de saúde, indicando que a comunicação institucional ainda é limitada.

Barreiras dificultam a continuidade do tratamento

Embora a maioria tenha permanecido utilizando a medicação após três meses, a pesquisa identificou diversos obstáculos que dificultam a adesão.

Entre eles estão:

  • horários restritos de funcionamento dos serviços;
  • dificuldades para agendamento;
  • informações desencontradas entre profissionais;
  • necessidade do uso diário da medicação;
  • estigma relacionado ao HIV e à própria PrEP;
  • mudanças no contexto de vida dos usuários.

A análise mostrou que a interrupção do tratamento nem sempre representa abandono definitivo.

Em alguns casos, ela ocorreu por mudança de cidade, orientação médica temporária, redução do risco de exposição ou dificuldades organizacionais dos próprios serviços.

A prevenção ainda não alcança todos igualmente

Outro ponto importante identificado pelos pesquisadores diz respeito ao perfil dos usuários atendidos.

A maior parte dos participantes era composta por homens cisgênero, brancos, com elevada escolaridade e orientação homossexual.

Os autores alertam que grupos historicamente mais vulneráveis ao HIV — como mulheres negras, populações periféricas e parte das pessoas trans — ainda encontram maiores dificuldades de acesso aos serviços de prevenção.

Segundo a pesquisa, ampliar a divulgação da PrEP com linguagem acessível e combater o estigma continuam sendo desafios fundamentais para tornar a política pública mais equitativa.

Humanização faz diferença na adesão

Além da medicação, o estudo demonstra que fatores como escuta qualificada, vínculo entre profissionais e usuários e acompanhamento longitudinal exercem papel decisivo para que as pessoas permaneçam utilizando a profilaxia.

Os pesquisadores defendem que a prevenção do HIV deve considerar não apenas aspectos biomédicos, mas também fatores sociais, culturais e emocionais que influenciam as decisões individuais sobre o cuidado em saúde.

SUS amplia a prevenção, mas desafios permanecem

Como conclusão, os autores afirmam que a oferta gratuita da PrEP representa um importante avanço das políticas públicas brasileiras de enfrentamento ao HIV.

No entanto, ressaltam que ampliar horários de atendimento, fortalecer campanhas educativas, reduzir o estigma e facilitar o acesso aos serviços são medidas essenciais para que a estratégia alcance um número maior de pessoas e produza impactos ainda mais expressivos na prevenção da infecção.


Referência

RAMOS, Deise Taurino et al. “Estou feliz e apavorado com o atendimento eficaz do SUS”: início da profilaxia pré-exposição. Revista Gaúcha de Enfermagem, v. 47, 2026. DOI: 10.1590/1983-1447.2026.20250139.

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