Na Corinto Antiga, santuário de cura também ajudava a organizar e vigiar a cidade, aponta estudo

Pesquisa publicada pelo Museu de Arqueologia e Etnologia da USP mostra que localização do santuário de Asclépio articulava saúde, educação, poder político e controle da circulação entre os séculos V e IV a.C.

Na Corinto da Grécia clássica, um lugar destinado à cura dos doentes também pode ter desempenhado uma função política: organizar espaços, educar cidadãos e manter determinadas pessoas sob vigilância das elites que governavam a cidade.

Essa é a interpretação apresentada pela pesquisadora Mariana Figueiredo Virgolino, pós-doutoranda do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (USP), no artigo “Vigiar e curar: uma análise sobre a localização do asklepieion coríntio (séculos V-IV a.C.)”, publicado em 2026 na Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia.

O estudo propõe olhar para a localização do asklepieion — santuário dedicado a Asclépio, divindade associada à medicina e à cura — não como uma escolha meramente prática. Sua posição na paisagem urbana revelaria uma concepção em que saúde, política, religião, educação e organização da cidade estavam profundamente relacionadas.

Curar o corpo não era suficiente

Um dos pontos centrais da pesquisa é que a noção de saúde na Grécia Antiga ultrapassava aquilo que hoje poderíamos entender simplesmente como ausência de doença.

A autora mostra como a ideia de hygieia estava relacionada à harmonia. Essa concepção aparece tanto no pensamento médico quanto na filosofia e poderia envolver equilíbrio do corpo, cultivo da mente e funcionamento adequado da própria comunidade.

Nesse contexto, ginásios não eram apenas lugares para exercícios físicos. Também funcionavam como espaços de educação, discussões filosóficas e retóricas e sociabilidade, especialmente entre integrantes das elites.

É justamente a relação espacial entre diferentes edifícios que se torna uma das pistas da pesquisa.

O asklepieion de Corinto ficava próximo ao ginásio, ao teatro, às muralhas e a estruturas de abastecimento de água. Para a autora, esse conjunto pode ser compreendido como um complexo no qual corpo, mente, lazer, educação e saúde se encontravam.

Água era fundamental para o tratamento

A localização também possuía razões práticas.

Os rituais realizados nos santuários de Asclépio envolviam procedimentos como banhos, aspersões e purgações, tornando a disponibilidade de água particularmente importante.

E Corinto possuía uma situação privilegiada.

A cerca de 150 metros do santuário estava a chamada Fonte das Lâmpadas, complexo formado por uma fonte e uma casa de banho subterrâneas. A partir da segunda metade do século IV a.C., o próprio asklepieion passou a contar com uma fonte alimentada por cinco reservatórios e uma sala destinada a banhos.

Segundo o artigo, nenhum outro asklepieion escavado até agora apresentou disponibilidade de água comparável à encontrada em Corinto.

De pequeno santuário a complexo monumental

A arqueologia também revela uma transformação significativa do espaço.

Nos séculos VI e V a.C., o santuário possuía estrutura relativamente modesta. Na segunda metade do século IV a.C., entretanto, passou por uma grande remodelação e tornou-se um complexo dividido em dois níveis.

No terraço superior estavam templo, altar, pátio, ábaton — espaço relacionado às práticas de cura — e uma sala destinada à limpeza dos frequentadores. No nível inferior havia três salas de banquete, outro pátio e a fonte abastecida pelos cinco reservatórios.

As plantas arqueológicas reproduzidas no artigo mostram justamente essa mudança de escala e organização do santuário entre os séculos V e IV a.C.

Para Virgolino, a monumentalização não deve ser interpretada apenas pela função religiosa. Grandes construções também materializavam riqueza e poder, transmitindo aos moradores e visitantes a imagem de uma Corinto próspera, ordenada e saudável.

Santuário ficava perto da muralha — e isso importa

É aqui que aparece o aspecto mais provocador da pesquisa.

O asklepieion estava dentro da cidade, mas próximo às muralhas, em uma região periférica em relação ao núcleo político. Sua posição facilitava o acesso de pessoas provenientes do campo e daqueles que chegavam pelo porto de Lechaion, sem exigir necessariamente que atravessassem o centro urbano.

Ao mesmo tempo, essa localização mantinha os enfermos afastados da ágora, espaço central da vida política.

A autora interpreta essa disposição como compatível com uma concepção oligárquica da cidade.

Na conclusão do artigo, argumenta que situar o local de tratamento dos doentes nos limites urbanos ajudaria a evitar sua circulação pela ágora e reforçaria simbolicamente a praça pública como espaço dos chamados “belos e bons”, integrantes privilegiados da comunidade política.

Cura e vigilância podiam ocupar o mesmo espaço

A proximidade com as muralhas acrescentava outro elemento: vigilância.

A região estava sujeita ao patrulhamento relacionado às defesas da cidade. O santuário também ficava próximo ao ginásio, frequentado sobretudo por homens pertencentes aos grupos politicamente privilegiados.

Assim, segundo a interpretação proposta pela pesquisadora, o mesmo espaço que possibilitava práticas de cuidado também favorecia o controle da circulação.

O título “Vigiar e curar”, portanto, sintetiza justamente essa ambivalência.

A cidade oferecia estruturas para cuidar do corpo e da mente, mas a organização desses espaços também expressava relações sociais e políticas.

Teatro também fazia parte da ideia de saúde

A aproximadamente 350 metros do asklepieion estava o teatro de Corinto.

A proximidade é relevante porque a experiência teatral também era relacionada, no pensamento grego, à educação e à katharsis — purificação ou liberação de determinadas emoções.

O artigo lembra que essa aproximação entre arte e cura não era exclusiva de Corinto. Em Epidauro, outro importante centro dedicado a Asclépio, festividades religiosas reuniam competições atléticas, musicais e teatrais.

Em Corinto, portanto, ginásio, teatro, fontes, casas de banho e santuário formariam uma paisagem na qual diferentes dimensões da saúde se articulavam.

Arquitetura também comunica poder

A pesquisa utiliza a arqueologia para mostrar que edifícios não são apenas cenários onde a história acontece.

A maneira como uma cidade distribui templos, praças, espaços esportivos, áreas de cura, muralhas e vias de circulação pode revelar valores, hierarquias e formas de exercício do poder.

No caso de Corinto, a autora conclui que o ideal de saúde envolvia o corpo atlético cultivado no ginásio, o tratamento do corpo enfermo no asklepieion, o cultivo da mente e das emoções associado ao teatro e aos debates e o descanso proporcionado pelas fontes e casas de banho.

Mas havia outra dimensão nessa busca pela harmonia: o cuidado de si coexistia com o controle político dos espaços e das pessoas que podiam circular por eles.

Mais de dois mil anos depois, a arqueologia de Corinto ajuda, assim, a revelar algo que permanece relevante para compreender as cidades: a localização de hospitais, praças, escolas, áreas de lazer ou equipamentos públicos nunca é completamente neutra. A organização do espaço pode expressar tanto concepções de cuidado quanto relações de poder.

Fonte: VIRGOLINO, Mariana Figueiredo. Vigiar e curar: uma análise sobre a localização do asklepieion coríntio (séculos V-IV a.C.). Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, n. 46, p. 103-116, 2026. Pesquisa de pós-doutorado financiada pela FAPESP, processo nº 2023/07315-9.

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