Exclusão digital transforma tecnologia em novo mecanismo de desigualdade educacional no Brasil, aponta estudo

Pesquisa publicada em 2026 sustenta que ter internet não significa estar digitalmente incluído e alerta que inteligência artificial pode criar novas formas de segregação entre estudantes

Ter um celular conectado à internet já não é suficiente para considerar um estudante digitalmente incluído. A qualidade da conexão, o equipamento disponível, as competências digitais, a formação dos professores e até a forma como plataformas e sistemas de inteligência artificial utilizam os dados dos alunos passaram a integrar uma nova fronteira da desigualdade educacional brasileira.

Essa é a análise apresentada no artigo “Exclusão digital e desigualdade educacional: desafios para a democratização do acesso ao conhecimento na sociedade informacional brasileira”, publicado em agosto de 2026 na Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação (REASE).

Assinado por Oneide Macedo Feitosa da Silva, Marilene Quaresma dos Santos, Narda Vargas Munhoz de Castro e Débora Araújo Leal, o trabalho conclui que a exclusão digital não representa apenas mais uma consequência das desigualdades sociais: ela pode funcionar como mecanismo que reproduz e aprofunda essas diferenças dentro da própria educação.

Ter acesso à internet não significa ter as mesmas oportunidades

Um dos pontos mais interessantes do estudo está justamente na crítica à ideia de que a popularização dos smartphones teria resolvido o problema do acesso digital.

Segundo as autoras, a massificação dos celulares com franquias limitadas pode produzir uma falsa impressão de universalização.

Há uma diferença significativa entre um estudante que depende exclusivamente de um telefone e de dados móveis e outro que dispõe de computador, conexão residencial estável e recursos capazes de realizar pesquisas complexas, produzir trabalhos e permanecer por longos períodos em ambientes virtuais de aprendizagem.

Nesse sentido, a desigualdade deixa de ser apenas entre quem está ou não conectado.

Passa a existir também entre diferentes qualidades de conexão, equipamentos e possibilidades de utilização da tecnologia.

Escola pública pode reproduzir a desigualdade digital

O problema também aparece dentro das escolas.

O artigo destaca que instituições que atendem populações socialmente vulneráveis podem enfrentar redes instáveis, computadores obsoletos, número insuficiente de equipamentos e falta de suporte técnico.

Quando a infraestrutura não funciona adequadamente, até professores interessados em utilizar recursos digitais podem acabar retornando às práticas tradicionais.

As pesquisadoras argumentam ainda que simplesmente distribuir equipamentos ou cartões de dados de maneira pontual não resolve um problema estrutural.

Experiências anteriores de informatização escolar, como ProInfo e PROUCA, são discutidas justamente para mostrar os limites de políticas centradas na entrega de equipamentos quando não acompanhadas de manutenção, suporte técnico, conectividade e formação docente.

Professor também precisa estar incluído digitalmente

Outro eixo importante da pesquisa desloca o debate dos equipamentos para as pessoas.

Mesmo uma escola com boa conexão não necessariamente produzirá melhores experiências educacionais se professores e estudantes não tiverem condições de utilizar criticamente as tecnologias.

O artigo sustenta que parte da formação inicial e continuada dos docentes ainda apresenta dificuldades para incorporar as tecnologias às práticas pedagógicas.

Por isso, as autoras defendem mudanças nas licenciaturas e programas permanentes de formação em serviço, incluindo competências relacionadas à curadoria de conteúdos, ambientes virtuais de aprendizagem e produção de materiais digitais.

A tecnologia, nessa perspectiva, deixa de ser um acessório colocado dentro da sala de aula e passa a exigir mudanças na própria formação profissional.

Inteligência artificial cria uma nova camada de desigualdade

A pesquisa vai além da discussão tradicional sobre computadores e internet e incorpora um problema mais recente: a inteligência artificial na educação.

As autoras alertam que sistemas automatizados podem ampliar desigualdades caso sejam introduzidos em redes escolares que já apresentam diferenças profundas de infraestrutura e formação.

Um dos riscos discutidos envolve ferramentas capazes de analisar dados e prever o desempenho dos estudantes.

Algoritmos utilizados dessa maneira poderiam reproduzir padrões e vieses presentes nos próprios dados, criando classificações que prejudiquem estudantes pertencentes a grupos historicamente vulnerabilizados.

O artigo chama esse problema de possibilidade de um “determinismo acadêmico”, no qual classificações automatizadas podem influenciar antecipadamente as expectativas sobre o desempenho dos alunos.

Dados de crianças e adolescentes entram no debate

A chegada da IA também acrescenta outra questão: quem controla os dados produzidos pelos estudantes?

O trabalho defende maior transparência sobre as plataformas contratadas pelas redes públicas de ensino e sobre o tratamento das informações de crianças e adolescentes.

As pesquisadoras propõem auditorias periódicas dos sistemas utilizados pelas escolas, divulgação dos contratos firmados com empresas de tecnologia e participação de professores, estudantes, famílias, gestores e especialistas nas decisões sobre tecnologias educacionais.

O artigo relaciona esse debate à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e sustenta que a proteção da privacidade precisa ser incorporada desde a escolha e contratação das plataformas educacionais.

Brasil já possui políticas, mas implementação é desafio

A pesquisa reconhece avanços recentes na legislação brasileira.

Entre eles está a Política Nacional de Educação Digital, instituída pela Lei nº 14.533/2023, que articula inclusão e educação digital, capacitação e pesquisa.

Também é analisada a Estratégia Nacional de Escolas Conectadas, criada em 2023 para coordenar iniciativas de conectividade e estabelecer parâmetros que considerem as necessidades pedagógicas das unidades escolares.

O problema, segundo o estudo, está na transformação das normas em condições concretas de ensino.

Financiamento, articulação entre União, estados e municípios, infraestrutura e continuidade das políticas permanecem como obstáculos para a universalização do acesso digital qualificado.

Estudo propõe quatro frentes para enfrentar o problema

A partir da revisão bibliográfica e documental, as pesquisadoras propõem um modelo organizado em quatro pilares: infraestrutura digital robusta; formação docente permanente; redução das desigualdades territoriais e socioeconômicas; e governança tecnológica com proteção de dados e transparência.

Entre as medidas defendidas estão expansão da fibra óptica, Wi-Fi adequado à quantidade de usuários das escolas, manutenção permanente dos equipamentos, formação tecnológica integrada à carreira docente, subsídios à conectividade das famílias vulneráveis e maior controle sobre plataformas educacionais.

O estudo cita ainda experiências internacionais, como a Estônia e o Plano Ceibal, do Uruguai, para argumentar que políticas bem-sucedidas tendem a integrar equipamentos, conectividade, formação e governança em vez de tratar cada problema isoladamente.

Pesquisa é qualitativa e não mede impacto individual

Há uma limitação importante para interpretar os resultados.

O artigo é uma pesquisa qualitativa baseada em revisão bibliográfica e documental. Foram analisadas legislação, políticas públicas, literatura científica e documentos como a pesquisa TIC Educação 2023.

Portanto, o trabalho não realizou levantamento próprio com estudantes nem permite quantificar diretamente quanto a exclusão digital reduz o desempenho escolar individual.

As próprias autoras reconhecem essa limitação e apontam a necessidade de pesquisas empíricas e quantitativas futuras.

Ainda assim, a pesquisa ajuda a deslocar uma pergunta que durante anos orientou as políticas de inclusão digital.

O desafio já não é simplesmente saber quantas escolas e estudantes estão conectados. Em uma educação atravessada por plataformas digitais e, cada vez mais, pela inteligência artificial, torna-se necessário perguntar como estão conectados, com quais equipamentos, quais competências, sob quais regras e quem fica em desvantagem nesse processo.

Fonte: SILVA, Oneide Macedo Feitosa da et al. Exclusão digital e desigualdade educacional: desafios para a democratização do acesso ao conhecimento na sociedade informacional brasileira. Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação — REASE, São Paulo, v. 12, n. 8, 2026. DOI: 10.51891/rease.v12i8.29580.

Deixe um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

search previous next tag category expand menu location phone mail time cart zoom edit close