Entrevista Especial: Antes da inteligência artificial, havia um poeta

Projeto de Antonio Archangelo ultrapassa meio milhão de visualizações transformando poemas, composições esquecidas e experiências biográficas em uma constelação de heterônimos musicais produzidos com apoio de IA. Mas a história começa em 1998, num mural de escola pública.

Por Helena Valverde

Em algum lugar entre um poema escrito por um adolescente no interior de São Paulo, uma fita cassete gravada dentro da casa de um amigo, um videoclipe feito com bonecos Playmobil, 453 poemas espalhados pela internet, livros independentes, jornais escolares e uma plataforma de inteligência artificial existe uma pergunta que Antonio Archangelo parece perseguir há 28 anos:

Quantas vozes cabem dentro de um autor?

Em setembro de 2026, uma resposta provisória poderia ser: muitas.

Rafael & Kawan cantam sertanejo. Cidadão Kane mergulha no grunge. Mora Lee transforma poesia em MPB. King Xoteiro procura o Nordeste. Boo Sullivan experimenta música eletrônica. Angwea entra no metal. Calígula ocupa o funk. Ponto de Volta retorna ao pagode romântico. Untim faz hip-hop político. Nothanxs ressuscita um punk rock que ficou preso no começo do século. Sem Nau escolhe o ska. Xomano procura o axé. Viko mira o pop internacional. João Marcelo se aproxima da bossa nova e da primeira fase de Jorge Ben Jor.

São nomes diferentes, repertórios diferentes e identidades sonoras diferentes.

Por trás deles, entretanto, está o mesmo autor.

Esse ecossistema, organizado sob a Uivante Records e produzido atualmente com participação de ferramentas de inteligência artificial, acaba de atravessar uma marca significativa para uma experiência independente: aproximadamente 533,5 mil visualizações e 31,6 mil curtidas no TikTok, distribuídas por cerca de 3,1 mil vídeos. Nas plataformas de streaming, os projetos somam 11,3 mil reproduções, 6,3 mil ouvintes e 99 salvamentos.

O número permite uma manchete.

A história por trás dele exige voltar quase três décadas.

1998: antes do algoritmo, o mural

Antonio Archangelo situa o começo dessa genealogia em 1998, na Escola Estadual João Batista Leme.

Foi durante as aulas de Língua Portuguesa da professora Vera Peão que começou a escrever poemas. Ao lado do colega Edson Bolis, criou algo que os dois adolescentes batizaram, sem modéstia, de Movimento Literário do Século XXI.

A tecnologia de publicação disponível era outra: papel e mural.

Os poemas eram colados nas paredes da escola.

Vista de 2026, a cena possui uma ironia difícil de ignorar. O homem que hoje distribui personagens musicais pelas plataformas digitais começou fazendo exatamente aquilo que as redes sociais fariam depois em escala planetária: publicando para uma comunidade, esperando leitura, reação e circulação.

A internet ampliaria rapidamente esse território.

Archangelo passou a publicar poemas em sites especializados, entre eles A Garganta da Serpente. E já ali apareceu uma prática que ajuda a compreender o que aconteceria décadas depois.

Ele não utilizava apenas um nome.

Apollo Hermes Vico, Antonio Archangelo e Antonio Andrade apareceram como diferentes assinaturas de sua produção.

A multiplicação autoral, portanto, não nasceu com a inteligência artificial.

Fitas K7 e guitarras

A música também entrou cedo nessa história.

Ainda no final dos anos 1990, Archangelo fundou com Giovanni Miranda, Rafael Beltrame e Rogério “Perereca” a R.A.R.U.S. — Revolucionando Altamente o Rock Urbano na Sociedade.

Vieram mais de uma dezena de músicas, composições e arranjos. Não havia estúdio profissional. O arquivo possível eram gravações de ensaios feitas em fita cassete na casa de Rafael Beltrame.

Em 2000, uma passagem pela Black Roses, banda cover de Guns N’ Roses, aproximou Archangelo de estudos de composição e técnicas musicais.

Depois veio a Nothanxs.

Ao lado do amigo de infância Sergio Antonio Michelin Junior, o Serj Delunes, de Rafael Beltrame, agora Shell Obbus, e de Felipe Andrade Teixeira, Flip Kalvin, Archangelo começou a concentrar cada vez mais atenção na construção de arranjos.

A banda chegou ao estúdio.

Em Rio Claro, interior paulista, gravou o EP “Alguém”, com três canções de autoria de Serj e Antonio. Restaram também registros amadores de experiências batizadas de “Atakamas JukeBoxx”, “Bolovo Songs” e “She I Dont Like My Punk Songs”.

Algumas dessas músicas desapareceriam do circuito por mais de duas décadas.

Não da memória do compositor.

2004: nasce o Delunes

Em 20 de abril de 2004, a Nothanxs sofreu uma transformação.

O grupo passou a se chamar Delunes — referência a “Clair de lune”, de Claude Debussy — e decidiu concentrar a produção em repertório autoral em português.

Quatro anos depois aconteceu algo que, naquela internet anterior ao TikTok e ao streaming dominante, podia ser chamado sem exagero de viralização.

“Eu Não Acredito em Final Feliz” ganhou um videoclipe realizado em stop motion com bonecos Playmobil.

Era 2008.

O vídeo circulou pelo YouTube, encontrou público em diferentes regiões do Brasil e levou o Delunes a espaços como MTV e Multishow.

A experiência colocou Archangelo diante de uma primeira versão do fenômeno que voltaria a encontrar quase vinte anos depois: uma obra independente escapando do círculo imediato de seus autores porque uma plataforma digital alterou radicalmente sua capacidade de circulação.

Em 2011, o Delunes assinou contrato com a Blast Stage Records.

Sob direção artística de André Kostta, veio o EP “Las Vegas”, lançado oficialmente em 20 de junho de 2013 e ligado à Sony Music ATV Publishing. A formação daquele período já incluía Ricardo José Oliveira, Ti Oliveira, nos vocais, e Lucas no baixo.

O estúdio profissional também produziu outro aprendizado.

Archangelo começou a compreender de dentro processos de produção e edição musical. Como compositor e produtor, adotou a alcunha Boo Sullivan, nome utilizado também em sua associação à União Brasileira de Compositores.

Boo Sullivan reapareceria muitos anos depois.

O Delunes, não.

A banda encerrou seu ciclo entre 2016 e 2017.

Enquanto isso, 453 poemas

A música nunca foi a única linha dessa história.

Em 25 de novembro de 2008, no mesmo período em que o Delunes experimentava sua expansão digital, Archangelo inaugurou na plataforma Blogspot o Poesias Nonsense.

O blog tornou-se uma espécie de depósito arqueológico de sua escrita.

Em 2026, contabilizava 453 poemas e 104.574 visualizações.

Parte desse arquivo migrou posteriormente para os livros.

Em maio de 2019, a Editora Buriti publicou “Ápeiron: Poesias Nonsense”, reunindo textos produzidos entre 1998 e 2018.

No mesmo ano foi lançado “Homeomerias: Poesias Nonsense”.

Em setembro veio “Nheengatu: Poesias Nonsense”. A edição digital foi lançada em 19 de setembro de 2019; a versão impressa, no dia seguinte, 20 de setembro.

Em 21 de novembro daquele ano, “Palácios Cinzas: Volume I” marcou a expansão da produção para além dos volumes exclusivamente poéticos.

“Ataraxia: Poesias Nonsense” seria lançado em 9 de novembro de 2020.

A essa altura, poemas de Archangelo também começavam a circular em coletâneas nacionais publicadas por diferentes editoras.

A trajetória poderia ter seguido simplesmente pela literatura.

Mas entrou uma escola no caminho.

2020: quando autoria vira método

Em 13 de maio de 2020, Archangelo criou o Método Camões.

Em 2021 surgiu a Rede Camões de Jornais Escolares, uma estrutura de sites criada para permitir que estudantes publicassem textos e experimentassem formas de autoria digital.

É nesse universo que aparece originalmente a Uivante Records.

Antes de abrigar os heterônimos de seu criador, ela foi concebida como plataforma para publicação de músicas produzidas no contexto da Rede Camões.

Outras experiências apareceram: os podcasts “Poemas Uivantes para Seres Falantes” e “Jornal do Camões”, a Companhia de Teatro Experimental I-Juca Pirama e releituras musicais de poemas clássicos produzidas com celular e assinadas por Archangelo como DJ AA.

Em 29 de março de 2021, foi lançado “Sociedade dos Poetas Uivantes: Uma Alternativa de Multiletramentos em Língua Portuguesa”.

A criação artística começava a encontrar a pesquisa educacional.

Foucault entra em cena

Em 2022, Archangelo ingressou no Programa de Pós-Graduação em Educação Escolar da Faculdade de Ciências e Letras da Universidade Estadual Paulista, a FCLAr/UNESP.

Passou também a integrar o GESTELD — Grupo de Estudos em Educação, Sexualidade, Tecnologias, Linguagens e Discursos.

Michel Foucault tornou-se uma referência central.

Cuidado de si, tecnologias de si, discurso e processos de constituição do sujeito passaram a fornecer novas lentes para uma experiência que, curiosamente, já vinha sendo praticada havia anos.

Depois, o diálogo com Gilles Deleuze e Félix Guattari ampliaria esse repertório conceitual.

A pergunta sobre os muitos nomes de um autor começava, assim, a ganhar outra espessura.

Não se tratava apenas de inventar pseudônimos.

Tratava-se de experimentar modos diferentes de existência autoral.

2024: chega a inteligência artificial

A IA entrou formalmente nesse laboratório em 2024.

Archangelo começou a incorporá-la às experiências do Método Camões e utilizou o Suno em atividades educacionais realizadas com uma turma de primeiro ano. A experiência posteriormente tornou-se objeto de trabalho acadêmico em sua especialização em Educação Digital para os Anos Iniciais.

No aniversário do autor, em 24 de abril de 2024, foi lançado “Poemas: Sociedade dos Poetas Uivantes”, livro produzido colaborativamente com estudantes ligados ao Método Camões e à Rede Camões.

Em 8 de julho surgiu outra experiência.

“Vou Reclamar”, poema do estudante Kauhan Sabino, transformou-se no single de estreia dos Arautos da Hipocrisia.

A fronteira entre texto, música, educação e tecnologia tornava-se cada vez menos nítida.

Em 16 de outubro de 2024, Archangelo lançou pela Editorial Casa “Manual da Guerrilha Alienada”, obra na qual o diálogo de sua poesia com conceitos foucaultianos se torna mais evidente.

Mas seria Cuiabá o cenário da próxima transformação.

Uma gravadora para pessoas que não existem

Em agosto de 2025, já vivendo na capital mato-grossense, Archangelo começou a sistematizar a Uivante Records para abrigar uma nova experiência.

A ideia era radicalmente simples: se um mesmo autor escrevia em linguagens e gêneros tão diferentes, por que obrigar tudo a pertencer ao mesmo intérprete?

A inteligência artificial tornou economicamente possível algo que, em um modelo convencional, exigiria dezenas de músicos, cantores, produtores, horas de estúdio e recursos financeiros consideráveis.

Surgiu uma população musical.

Não apenas músicas.

Personagens.

Rafael & Kawan

Rafael & Kawan ocupam o sertanejo.

Com 66 músicas e dois álbuns completos — “Paixão Cuiabana” e “Ao Vivo da Praça da Mandioca” —, a dupla registra 64,9 mil visualizações e 7,2 mil curtidas no TikTok. No streaming, são aproximadamente 2,7 mil reproduções e 1,6 mil ouvintes.

Cidadão Kane

Cidadão Kane olha para o rock e, particularmente, para o grunge dos anos 1990.

O projeto possui 34 canções e o álbum “LollaTex”.

Sua existência também funciona como máquina do tempo: parte do repertório recupera composições feitas durante a época do Delunes que haviam sido descartadas ou permanecido sem destino.

São 13,3 mil visualizações no TikTok e aproximadamente 2,3 mil reproduções nas plataformas de streaming.

Mora Lee

Se Cidadão Kane recupera o arquivo musical, Mora Lee invade o arquivo literário.

O projeto de MPB foi criado para dar voz aos poemas acumulados durante anos no Poesias Nonsense.

São 40 canções e dois álbuns, “Sangue Rubro” e “Alma Preta”.

Mora Lee registra 26,4 mil visualizações no TikTok e cerca de 1,7 mil reproduções em streaming.

É provavelmente aqui que a definição “literário-musical” aplicada à Uivante se torna mais literal: poemas escritos para serem lidos passam, décadas depois, a existir como canções.

King Xoteiro

King Xoteiro ocupa outro território.

Com 33 músicas, o personagem mergulha em sonoridades relacionadas à cultura nordestina. Seus vídeos somam 16,8 mil visualizações e 1,3 mil curtidas no TikTok.

Boo Sullivan

Então reaparece um fantasma da antiga carreira musical.

Boo Sullivan não foi inventado pela IA.

É o nome artístico que Archangelo já utilizava como compositor e produtor em sua trajetória profissional.

Na Uivante, Sullivan ganha corpo próprio e assume a música eletrônica. Entre os trabalhos está o álbum “Véu de Ísis”.

A identidade que antes nomeava o produtor transforma-se, portanto, em artista produzido por ele.

Angwea

Angwea ocupa o metal.

Com referências sonoras que passam por Sepultura e uma proposta de temática indigenista, lançou oito músicas reunidas no álbum “Sangue Latino”.

Os vídeos relacionados ao projeto acumulam 24,3 mil visualizações e aproximadamente mil curtidas.

Calígula

Calígula é MC.

O personagem concentra as experiências de Archangelo com o funk e já possui cinco singles.

No TikTok, soma 12,7 mil visualizações.

Ponto de Volta

O maior número individual de visualizações entre os projetos informados pela Uivante pertence, curiosamente, ao pagode.

Ponto de Volta recupera a estética romântica dos anos 1990.

São 29 músicas e um álbum chamado “Paula Juliana”.

Seus 55 vídeos contabilizam aproximadamente 150,3 mil visualizações no TikTok.

É quase um terço das visualizações de todo o ecossistema.

Untim

Untim escolheu o hip-hop como instrumento de crítica política.

Os três primeiros singles abordam especialmente o imperialismo norte-americano e o trumpismo.

Mesmo com catálogo reduzido, o projeto registra 45,9 mil visualizações e 4,2 mil curtidas no TikTok.

Nothanxs

Talvez nenhum dos personagens explique tão bem a relação entre memória e IA quanto Nothanxs.

Porque Nothanxs já existiu.

É o nome da banda formada no começo dos anos 2000.

Mais de duas décadas depois, Archangelo recuperou o projeto para finalmente produzir músicas daquele período que não haviam sido gravadas, além de novas composições de punk rock e hardcore em inglês.

O que a fita cassete não conseguiu preservar adequadamente, a tecnologia generativa agora ajuda a reconstruir como experiência sonora.

A nova fase possui seis singles, 13 mil visualizações no TikTok e mais de uma centena de reproduções em streaming.

Sem Nau

Sem Nau tornou-se um dos maiores arquivos musicais dessa experiência.

A banda de ska rock possui 64 canções e três álbuns: “Canções para Ouvir após a Meia-Noite”, “Migalhas” e “Azul”.

O primeiro estabelece uma conexão direta entre música e literatura: foi lançado em associação com “Para Nunca Esquecer de Mim”, livro de Archangelo publicado em 26 de fevereiro de 2026 e atravessado pela leitura de “Os sofrimentos do jovem Werther”, de Goethe.

Sem Nau acumula 58,9 mil visualizações e 5,5 mil curtidas no TikTok, além de aproximadamente 2,6 mil reproduções e 1,1 mil ouvintes nas plataformas de streaming.

Xomano

Xomano é a incursão pelo axé baiano.

É um dos projetos mais recentes, com dois singles lançados, e seus números ainda são pequenos quando comparados aos personagens mais consolidados.

Essa diferença também revela algo importante sobre o meio milhão: não existe uma audiência distribuída uniformemente. Há projetos que encontraram públicos rapidamente e outros ainda em estágio experimental.

Viko

Viko olha para fora do Brasil.

Seu universo é o pop internacional com influências das décadas de 1980 e 1990.

Com apenas cinco canções e o álbum “You Could Be Mine”, alcançou 39,5 mil visualizações e 3,9 mil curtidas no TikTok.

João Marcelo

João Marcelo segue no sentido contrário.

Sua matéria é a bossa nova e a MPB, com referência particular à primeira fase de Jorge Ben Jor.

Possui somente três singles.

Mas seus números apresentam uma curiosidade: enquanto registra apenas 37 visualizações nos vídeos contabilizados, soma 681 reproduções e 623 ouvintes em streaming.

É uma pequena demonstração de que cada personagem pode encontrar seu público por caminhos diferentes.

E, no princípio, os Arautos

Os Arautos da Hipocrisia ocupam um lugar particular nessa cartografia.

Sua origem está diretamente relacionada à dimensão educacional da Uivante: “Vou Reclamar”, lançado em julho de 2024, nasceu de um poema do estudante Kauhan Sabino.

É uma lembrança de que o selo não nasceu originalmente para fabricar uma discografia pessoal de Archangelo.

Nasceu dentro de um método educacional preocupado com autoria.

A biblioteca começa a cantar

Talvez seja insuficiente chamar tudo isso simplesmente de produção musical com inteligência artificial.

A IA explica como parte dessas músicas consegue adquirir voz, instrumentação e acabamento.

Não explica de onde vieram os textos.

Não explica os poemas escritos desde 1998.

Não explica as fitas cassete.

Não explica Nothanxs.

Não explica o Delunes.

Não explica Boo Sullivan.

Não explica os 453 poemas do Poesias Nonsense.

Tampouco explica por que um compositor decide que determinada letra precisa virar pagode e outra precisa existir como metal, sertanejo ou ska.

É nesse ponto que a experiência começa a tocar uma das discussões culturais mais importantes abertas pelas tecnologias generativas: quando uma máquina participa intensamente da materialização de uma obra, onde exatamente está o autor?

No caso da Uivante, a resposta parece menos simples do que procurar quem canta.

Literatura depois de Foucault

Há ainda outra camada.

Em 2026, enquanto a Uivante se expandia, Archangelo continuava publicando livros.

Depois de “Para Nunca Esquecer de Mim”, vieram “Esperançar – Versos Tortos”, em 7 de março, e “Memórias de um Idiota Apaixonado”, também em março.

A literatura, portanto, não foi substituída pela música produzida com IA.

Os dois arquivos começaram a contaminar um ao outro.

Poemas tornam-se letras. Livros ganham trilhas e discos associados. Personagens musicais recebem repertórios provenientes de momentos diferentes da vida do autor. Composições abandonadas retornam. Textos escritos décadas antes recebem vozes que seus primeiros suportes jamais poderiam oferecer.

O arquivo deixa de ser apenas biblioteca.

Começa a cantar.

533.500

O meio milhão importa.

Mas talvez não pelas razões mais óbvias.

São 533,5 mil visualizações no TikTok. Cerca de 31,6 mil curtidas. Aproximadamente 11,3 mil reproduções em streaming. Mais de 6 mil ouvintes.

Não são números capazes de competir com a indústria musical de massa. Também não precisam ser.

A escala relevante aqui é outra.

Trata-se de uma experiência independente que distribuiu dezenas de composições entre identidades musicais diferentes e encontrou centenas de milhares de visualizações sem transformar o nome civil de seu criador no centro obrigatório de cada obra.

Isso aproxima a experiência de uma antiga tradição literária — a heteronímia — e, simultaneamente, coloca diante dela um problema completamente contemporâneo.

Um heterônimo literário precisava de biografia, estilo e linguagem para ganhar existência.

O que acontece quando ele também pode ganhar voz?

E quando pode cantar?

E quando pode lançar discos?

E quando algoritmos começam a distribuí-lo para pessoas que talvez nunca saibam quem está por trás dele?

Do mural ao algoritmo

Há uma linha quase perfeita — embora certamente não planejada — ligando os extremos dessa história.

Em 1998, um adolescente colocava seus poemas no mural de uma escola para que outras pessoas pudessem lê-los.

Em 2026, um autor utiliza sistemas generativos e plataformas algorítmicas para colocar essas e outras palavras diante de centenas de milhares de telas.

Entre uma ponta e outra vieram pseudônimos, bandas, fitas K7, sites literários, blogs, livros, gravadoras, videoclipes, jornais escolares, podcasts, pesquisa acadêmica, streaming e inteligência artificial.

O suporte mudou muitas vezes.

A obsessão pela autoria, aparentemente, não.

Talvez por isso a pergunta mais interessante sobre as 533,5 mil visualizações da Uivante Records não seja quantas pessoas ouvirão a próxima música.

É descobrir até onde Antonio Archangelo pretende levar a multiplicação de si mesmo.


ENTREVISTA | AS MUITAS VOZES DE ANTONIO ARCHANGELO

“Talvez eu esteja tentando descobrir quantos sujeitos cabem dentro de um autor”

Depois de ultrapassar meio milhão de visualizações com o ecossistema de heterônimos musicais da Uivante Records, Antonio Archangelo revisita quase três décadas de produção artística e intelectual. Nesta conversa, fala sobre os primeiros poemas escritos em 1998, bandas, literatura, educação, Foucault, inteligência artificial e uma experiência que começa a transformar seu próprio arquivo em matéria para novas obras.

Helena Valverde: Quero começar antes da Uivante, antes da inteligência artificial e até antes dos livros. Volte para 1998. O que aquele adolescente que colocava poemas no mural da Escola Estadual João Batista Leme procurava quando escrevia?

Antonio Archangelo — Talvez procurasse exatamente o que continuo procurando hoje: uma maneira de fazer a palavra sair de mim e encontrar alguém.

É curioso olhar para trás porque, em 1998, evidentemente eu não possuía o vocabulário teórico que tenho hoje. Não pensava em autoria, subjetivação, discurso, tecnologias de si ou multiletramentos. Eu escrevia. E queria que aquilo circulasse.

Nas aulas de Língua Portuguesa da professora Vera Peão, escrever deixou de ser apenas uma obrigação escolar. Com Edson Bolis, criamos pretensiosamente o Movimento Literário do Século XXI. O nome hoje me diverte, mas havia alguma coisa muito séria naquela pretensão adolescente: nós acreditávamos que nossos textos mereciam existir fora do caderno. Chegamos a ir a uma palestra do Pasquale Cipro Neto para pedir apoio [risos].

Então colocávamos poemas no mural da escola.

Hoje publico livros, músicas, jornais, artigos, vídeos. Tenho personagens musicais circulando em plataformas que alcançam pessoas que jamais conhecerei. Mas, olhando retrospectivamente, talvez o princípio seja o mesmo daquele mural: escrever, publicar e esperar que alguma coisa aconteça quando a palavra encontra o outro.

A tecnologia mudou. A inquietação permaneceu.


Helena Valverde: Apollo Hermes Vico, Antonio Andrade, Antonio Archangelo, DJ AA, Boo Sullivan e agora uma população inteira de artistas. Por que um único nome nunca foi suficiente?

Antonio Archangelo — Porque talvez eu nunca tenha acreditado verdadeiramente na ideia de um sujeito completamente uno.

Muito antes de estudar Foucault eu já experimentava isso intuitivamente. Apollo Hermes Vico podia escrever determinadas coisas. Antonio Andrade podia escrever outras. Boo Sullivan apareceu no universo musical. DJ AA surgiu numa experiência pedagógica. Agora Rafael & Kawan, Mora Lee, Cidadão Kane, Sem Nau, Ponto de Volta, Angwea e os demais projetos levam essa experiência muito mais longe.

Mas há uma diferença importante entre esconder-se atrás de um pseudônimo e produzir uma identidade artística.

O pseudônimo substitui o nome.

O heterônimo, para mim, começa quando o nome passa a produzir possibilidades.

Mora Lee não é simplesmente “Antonio Archangelo cantando MPB com outro nome”. Há poemas meus que pertencem àquele universo e não ao de Rafael & Kawan. Uma composição de Cidadão Kane exige outro gesto estético. Angwea comporta determinada violência sonora. Ponto de Volta comporta uma sentimentalidade que seria absurda em Untim.

Então os heterônimos funcionam quase como territórios.

Não estou tentando esconder quem escreveu. Ao contrário: estou fragmentando deliberadamente a assinatura para investigar quantas formas aquela autoria consegue assumir.

Depois de Foucault, evidentemente passei a enxergar isso de outra maneira. O sujeito deixou de me parecer uma essência que precisa ser descoberta e passou a interessar como alguma coisa que também é produzida.

Talvez os heterônimos sejam justamente isso: pequenos laboratórios de produção de sujeitos.


Helena Valverde: Existe um arquivo musical anterior à literatura publicada: R.A.R.U.S., Nothanxs, Delunes, fitas K7, ensaios, músicas que nunca chegaram ao público. O que significa recuperar isso agora?

Antonio Archangelo — Significa enfrentar o fato de que uma parte da nossa vida desaparece porque a tecnologia que tínhamos naquele momento não conseguia materializar aquilo que imaginávamos.

Na época da R.A.R.U.S., nós gravávamos ensaios em fita K7. Com Nothanxs vieram outras experiências, algumas gravações, o EP “Alguém”. Depois o Delunes alcançou outro patamar de produção. Entramos em estúdio, tivemos direção artística, gravadora, distribuição, videoclipe circulando nacionalmente.

Mas havia uma quantidade enorme de coisas que ficava pelo caminho.

Uma composição podia existir na minha cabeça, numa folha, numa gravação ruim de ensaio, mas não existiam dinheiro, músicos, estúdio ou condições materiais para transformá-la naquilo que imaginávamos.

É por isso que considero particularmente interessante recriar Nothanxs agora.

A IA não está inventando meu passado.

Ela está permitindo que eu volte a um arquivo incompleto e pergunte: o que poderia ter acontecido com isso?

É quase uma arqueologia sonora.

Há algo muito estranho em escutar no presente uma ideia que ficou silenciosa durante mais de vinte anos. A tecnologia não devolve o passado — isso seria impossível —, mas permite produzir uma nova relação com ele.


Helena Valverde: “Eu Não Acredito em Final Feliz” levou o Delunes ao YouTube, MTV, Multishow e a uma audiência nacional. O que aquele primeiro fenômeno digital ensinou a você?

Antonio Archangelo — Ensinou uma coisa que continua me perseguindo: produzir não significa circular.

Você pode fazer uma música extraordinária que ninguém ouvirá.

Pode escrever um livro extraordinário que ficará numa caixa.

Pode publicar um poema extraordinário que desaparecerá numa timeline.

Quando “Eu Não Acredito em Final Feliz” começou a circular, percebi concretamente a força que um dispositivo de distribuição possui sobre uma obra.

E isso aconteceu antes de eu estudar academicamente essas questões.

Hoje consigo olhar para aquela experiência e perceber que o YouTube não era simplesmente um lugar neutro onde colocávamos um vídeo. Ele modificava as possibilidades de circulação, produzia públicos, estabelecia relações entre desconhecidos e interferia na própria existência social da obra.

Talvez por isso eu tenha uma obsessão tão grande por publicação.

Não me interessa produzir para a gaveta.

Não porque toda obra precise ser famosa, mas porque considero que existe alguma coisa fundamental no encontro.

Uma obra que nunca encontra ninguém permanece numa espécie de suspensão.


Helena Valverde: O Poesias Nonsense chegou a 453 poemas. Se você organizasse esses textos pelas pessoas que foi enquanto escrevia, quantos Antonios encontraria?

Antonio Archangelo — Muitos. E alguns provavelmente brigariam entre si.

Esse talvez seja o aspecto mais interessante de manter um arquivo por tanto tempo.

Quando você lê um poema escrito muitos anos atrás, existe uma experiência quase desconcertante: reconhece a sua linguagem e, simultaneamente, percebe que aquele sujeito já não existe exatamente daquela maneira.

Por isso não gosto muito da ideia de olhar para minha produção como uma linha de aperfeiçoamento, como se o Antonio de hoje fosse uma versão “melhor” daquele de 1998.

São posições diferentes.

Há desejos diferentes, relações diferentes, conhecimentos diferentes, dores diferentes, formas diferentes de compreender o mundo.

O blog acabou se tornando, sem que eu planejasse, um arquivo dessas transformações.

E agora acontece uma coisa ainda mais curiosa: Mora Lee começa a voltar para esse arquivo e transformar poemas antigos em músicas.

Então um texto escrito por um Antonio de outra época encontra uma tecnologia de 2026, passa por decisões do Antonio atual e recebe uma voz que nunca existiu biologicamente.

Quem é o autor dessa experiência?

A pergunta me interessa mais do que uma resposta definitiva.


Helena Valverde: Em 2020, sua experiência com autoria entra na escola com o Método Camões. O que os estudantes modificaram no escritor que você era?

Antonio Archangelo — Quase tudo, porque a autoria deixou de ser apenas uma experiência minha.

Quando você escreve, está preocupado com sua própria relação com a linguagem. Quando você cria condições para que outra pessoa escreva e publique, aparece um problema completamente diferente: quais condições fazem alguém perceber que possui alguma coisa a dizer?

A Rede Camões nasceu dessa inquietação.

Eu não queria simplesmente que o estudante produzisse um texto para o professor corrigir, atribuir uma nota e devolver.

Queria publicação.

Queria leitor.

Queria circulação.

Queria comentário.

Queria que aquele estudante experimentasse a condição de autor.

Isso muda completamente a relação pedagógica.

E também me modificou porque comecei a perceber que aquilo que eu fazia desde o mural de 1998 poderia ser pensado pedagogicamente.

O Método Camões nasce, em alguma medida, quando minha biografia de produtor de textos encontra minha prática de professor.

Depois a pesquisa me ofereceria instrumentos para problematizar tudo isso.


Helena Valverde: E então aparece Foucault. Ele explicou algo que você já fazia ou modificou sua criação?

Antonio Archangelo — As duas coisas.

Foucault me deu palavras para desconfiar de coisas que eu anteriormente percebia apenas intuitivamente.

A principal mudança talvez tenha sido deixar de perguntar “quem eu realmente sou?” e passar a considerar mais interessante perguntar “como estou me constituindo como sujeito?”.

Isso parece uma diferença pequena, mas muda tudo.

Se existe um eu verdadeiro escondido em algum lugar, minha tarefa seria descobri-lo.

Se o sujeito é historicamente constituído por práticas, discursos, relações de poder e também por trabalhos que realiza sobre si, então minha relação comigo mesmo deixa de ser uma investigação policial em busca de uma essência.

Ela pode se tornar prática.

Criação.

Transformação.

O cuidado de si me interessa justamente porque não é o narcisismo contemporâneo de repetir que precisamos nos amar.

É trabalho sobre si.

E isso atravessou minha escrita.

Depois, Deleuze e Guattari me ajudaram a pensar ainda mais radicalmente relações, agenciamentos, multiplicidades.

Por isso seria simplista dizer que criei os heterônimos “por causa de Foucault”.

Eles são anteriores.

Mas certamente não os compreendo hoje da mesma maneira que compreenderia antes dessas leituras.


Helena Valverde: Quando a inteligência artificial entrou nisso, em 2024, o que realmente mudou?

Antonio Archangelo — Mudou a escala do possível.

E acho importante dizer isso porque existe uma narrativa muito pobre segundo a qual você aperta um botão e a inteligência artificial “faz uma música”.

Minha experiência não começou num prompt.

Ela chegou à IA carregando décadas de textos, letras, músicas, referências, experiências de banda, conhecimento de arranjo, produção musical, literatura, educação e pesquisa.

O que a IA fez foi diminuir brutalmente a distância entre imaginar e materializar.

Antes, se eu imaginasse uma canção com determinado tipo de voz, instrumentação ou gênero, precisava reunir músicos, ensaiar, pagar estúdio, gravar, editar, mixar.

Isso estabelece uma barreira econômica enorme.

Hoje consigo experimentar.

E experimentar é a palavra importante.

Posso ouvir uma possibilidade, rejeitá-la, alterar a estrutura, modificar a letra, mudar instruções, tentar novamente.

Não considero a máquina autora soberana disso.

Também seria intelectualmente desonesto fingir que ela é apenas um lápis.

Existe agência tecnológica naquele processo.

O que me interessa é justamente investigar essa zona.


Helena Valverde: Então me diga quem são essas pessoas. Qual heterônimo consegue dizer aquilo que Antonio Archangelo não consegue?

Antonio Archangelo — Acho que cada um deles libera alguma região.

Rafael & Kawan permitem uma relação direta com o sertanejo, com a narrativa amorosa e popular. Cidadão Kane conversa com minha formação rock e com coisas que ficaram do Delunes. Mora Lee talvez seja uma das experiências mais literárias porque transforma meu arquivo poético em MPB. King Xoteiro abre uma relação com sonoridades nordestinas. Boo Sullivan carrega minha memória como produtor e compositor e hoje encontra a música eletrônica.

Angwea permite peso, conflito e uma dimensão política que pede metal. Calígula experimenta o funk. Ponto de Volta acessa uma sentimentalidade romântica e popular do pagode dos anos 1990. Untim pode ser frontalmente político. Nothanxs conversa literalmente com meu passado. Sem Nau talvez seja um dos lugares em que literatura, biografia e música mais se misturam. Xomano experimenta o axé. Viko permite um pop internacional que dificilmente faria sentido sob outro projeto. João Marcelo vai para outra delicadeza, outra temporalidade, outra relação com a canção brasileira.

Não vejo isso como fantasia de possuir múltiplas personalidades.

É exatamente o contrário.

É uma organização consciente da multiplicidade estética.


Helena Valverde: Isso seria uma heteronímia da era algorítmica?

Antonio Archangelo — É uma hipótese que me interessa muito.

E eu teria enorme cuidado para não banalizar Fernando Pessoa.

A heteronímia pessoana possui uma complexidade literária, filosófica e histórica própria.

Mas existe uma transformação tecnológica objetiva que merece ser investigada.

Durante muito tempo, um escritor poderia inventar outro autor, fornecer-lhe biografia, estilo, pensamento, vocabulário.

Agora podemos acrescentar timbre.

Podemos acrescentar interpretação.

Instrumentação.

Imagem.

Discografia.

Distribuição algorítmica.

Um heterônimo pode chegar a milhares de pessoas cantando.

Isso produz uma situação cultural nova.

Não sei ainda se o melhor nome é heteronímia algorítmica, heteronímia digital, autoria expandida ou outra coisa.

Talvez justamente por estar vivendo o processo eu ainda não deva fechá-lo conceitualmente.

Primeiro quero observá-lo.


Helena Valverde: Mas aí chegamos ao problema espinhoso: se a IA canta, toca e participa do arranjo, o que é seu?

Antonio Archangelo — A primeira resposta precisa ser: depende da obra.

Esse é justamente o erro de discutir produção com IA como se todos os processos fossem iguais.

Há músicas cujo texto nasceu recentemente. Há poemas escritos muitos anos antes da existência de IA. Há composições provenientes das bandas. Há ideias de arranjos que carrego da experiência musical anterior. Há decisões editoriais e estéticas contemporâneas.

Meu trabalho está na concepção, no texto, na seleção, na direção estética, nas escolhas, nas recusas, na organização dos repertórios, na construção dos personagens e no processo reiterativo até chegar ao resultado que decido publicar.

Mas não quero apagar a participação tecnológica.

Se eu fizesse isso, estaria justamente produzindo um discurso falso sobre minha própria obra.

A questão interessante para mim não é provar que a máquina “não fez nada”.

É perguntar o que significa autoria quando humanos e sistemas técnicos participam de maneiras diferentes da produção de um objeto cultural.

Isso me interessa como artista e como pesquisador.


Helena Valverde: E quando essa tecnologia entra na educação? “Vou Reclamar”, dos Arautos da Hipocrisia, nasceu de um poema de um estudante. Onde estão os limites éticos?

Antonio Archangelo — Aí o cuidado precisa ser ainda maior.

Porque existe uma relação de poder.

Professor e estudante não estão em posições simétricas.

Portanto, autoria, reconhecimento, consentimento e finalidade pedagógica não podem ser tratados como detalhes.

A Uivante nasceu no contexto da Rede Camões justamente para ampliar possibilidades de autoria discente, não para retirar autoria dos estudantes.

Se um texto produzido por um aluno se transforma em outra coisa — música, vídeo, podcast —, a origem daquela produção precisa permanecer reconhecível.

A tecnologia deveria ampliar a potência autoral do estudante, não sequestrá-la.

Essa talvez seja uma das fronteiras que mais me interessam: usar IA para fazer com que uma criança ou um jovem consiga experimentar possibilidades de expressão que anteriormente dependeriam de estruturas às quais ele talvez nunca tivesse acesso.

Mas isso só é emancipatório se não transformarmos a voz do estudante em matéria-prima invisível para a produção de outra pessoa.


Helena Valverde: Estamos em 2046. Alguém encontra esta entrevista. O que você gostaria que essa pessoa entendesse sobre tudo isso?

Antonio Archangelo — Gostaria que ela não começasse pela inteligência artificial.

Gostaria que voltasse para 1998.

Para o mural.

Porque talvez essa seja a melhor maneira de compreender tudo.

Eu comecei colocando poemas numa parede para que alguém pudesse lê-los.

Depois vieram sites literários, pseudônimos, bandas, fita K7, Nothanxs, Delunes, YouTube, blog, livros, escola, Método Camões, Rede Camões, podcasts, pesquisa, Foucault, inteligência artificial, streaming e heterônimos.

As tecnologias mudaram.

Talvez daqui a vinte anos o Suno e as ferramentas que usamos hoje pareçam primitivas.

Não me incomoda.

Porque não quero que a tecnologia seja a obra.

A tecnologia é parte das condições históricas pelas quais a obra consegue existir.

Se alguém encontrar tudo isso em 2046, gostaria que percebesse uma tentativa insistente de não aceitar que autoria seja apenas colocar um nome sobre um objeto.

Talvez eu esteja construindo um arquivo de mim.

Talvez uma literatura expandida.

Talvez uma discografia impossível.

Talvez o Método Camões tenha escapado da escola e se transformado também numa forma de experimentar a mim mesmo.

Ainda não sei.

Mas existe uma imagem de que gosto.

Em 1998, eu precisava de um pedaço de papel e de um mural para publicar.

Em 2026, alguns daqueles poemas podem receber uma voz, tornar-se música e atravessar um algoritmo até chegar a alguém que não sabe absolutamente nada sobre mim.

Entre essas duas cenas existem 28 anos.

E, de alguma maneira, continuo fazendo a mesma coisa:

escrevendo alguma coisa e colocando-a no mundo para descobrir o que ela pode se tornar.

LINHA DO TEMPO | OS LIVROS DE ANTONIO ARCHANGELO

2019 — Ápeiron: Poesias Nonsense
Publicado pela Editora Buriti em maio de 2019, foi o primeiro livro de Antonio Archangelo lançado por meio de contrato com uma editora. A obra reuniu poemas escritos entre 1998 e 2018, muitos deles anteriormente publicados no blog Poesias Nonsense.

2019 — Homeomerias: Poesias Nonsense
Lançado em 2019, deu continuidade ao projeto poético de Ápeiron, incorporando especialmente textos produzidos entre 2018 e 2019.

19 e 20 de setembro de 2019 — Nheengatu: Poesias Nonsense
O terceiro movimento dessa sequência chegou primeiro ao formato digital: o eBook Kindle foi lançado em 19 de setembro de 2019. A edição impressa foi disponibilizada no dia seguinte, 20 de setembro.

21 de novembro de 2019 — Palácios Cinzas: Volume I
Primeiro título da trajetória bibliográfica de Archangelo a romper com uma produção formada exclusivamente por poemas. A obra abriu outra frente em sua experiência literária, posteriormente retomada pelo autor.

9 de novembro de 2020 — Ataraxia: Poesias Nonsense
Novo volume do projeto Poesias Nonsense, dando continuidade à transposição para livros de uma experiência poética que havia se desenvolvido durante anos na internet.

29 de março de 2021 — Sociedade dos Poetas Uivantes: Uma Alternativa de Multiletramentos em Língua Portuguesa
A produção bibliográfica encontra definitivamente a educação. O livro registra uma experiência relacionada à autoria, aos multiletramentos e às práticas que dariam sustentação ao ecossistema do Método Camões e da Rede Camões de Jornais Escolares.

24 de abril de 2024 — Poemas: Sociedade dos Poetas Uivantes
Lançado no aniversário de Antonio Archangelo, o livro é uma produção colaborativa construída com estudantes vinculados às experiências do Método Camões e da Rede Camões.

2024 — Memórias de Alagoas
Obra memorialística relacionada à passagem de Archangelo por Maceió, onde viveu durante seis meses, e por Campo Grande, em Mato Grosso do Sul, período já marcado por sua inserção profissional na administração pública.

16 de outubro de 2024 — Manual da Guerrilha Alienada
Publicado pela Editorial Casa, representa um ponto importante na transformação da produção poética do autor: conceitos relacionados ao pensamento foucaultiano passam a atravessar mais explicitamente sua criação literária.

26 de fevereiro de 2026 — Para Nunca Esquecer de Mim
Escrito no período em que Archangelo já vivia em Cuiabá e atravessado pela leitura de Os sofrimentos do jovem Werther, de Goethe, o livro inaugura uma fase particularmente intensa de produção literária em 2026. Sua experiência transborda também para a música: o álbum Canções para Ouvir após a Meia-Noite, do heterônimo Sem Nau, foi concebido em associação com a obra.

7 de março de 2026 — Esperançar – Versos Tortos
Publicado poucos dias depois de Para Nunca Esquecer de Mim, integra a produção poética mais recente do autor.

Março de 2026 — Memórias de um Idiota Apaixonado
Também lançado em março, amplia a vertente memorialística, afetiva e literária presente na produção daquele período.

ARQUIVO | OS MUITOS NOMES DE ANTONIO ARCHANGELO

Muito antes de a inteligência artificial permitir que um personagem inventado ganhasse voz, instrumentação e discografia, Antonio Archangelo já experimentava diferentes assinaturas e identidades autorais. Pseudônimos literários, nomes artísticos, personas pedagógicas, bandas e, finalmente, heterônimos musicais formam uma genealogia que atravessa quase três décadas.

Nem todos, entretanto, são heterônimos no sentido estrito. Alguns são pseudônimos; outros, nomes artísticos, personas ou identidades coletivas. A distinção ajuda justamente a compreender como a experiência foi se tornando mais complexa.

Apollo Hermes Vico — pseudônimo literário

Uma das primeiras identidades utilizadas por Archangelo na publicação de poemas na internet, ainda no período dos sites especializados em literatura. Pertence à fase anterior ao blog Poesias Nonsense e demonstra que a experimentação com diferentes assinaturas já existia no início de sua trajetória digital.

Antonio Andrade — pseudônimo literário

Outra assinatura empregada nas primeiras publicações poéticas na internet. Assim como Apollo Hermes Vico, antecede em décadas o atual ecossistema da Uivante Records.

Antonio Archangelo — nome autoral

A assinatura que acabou se consolidando na produção literária, jornalística, artística e editorial. É o nome que aparece em grande parte dos livros e que funciona hoje como identidade autoral pública.

DJ AA — persona artístico-pedagógica

Identidade utilizada nas experiências desenvolvidas no contexto da Rede Camões e do Método Camões. Como DJ AA, Archangelo produziu com celular releituras de poemas clássicos destinadas às experiências educacionais com os estudantes.

Boo Sullivan — nome artístico que se torna heterônimo

É provavelmente a identidade mais interessante para demonstrar a passagem entre as diferentes fases.

Boo Sullivan nasceu antes da atual explosão generativa como nome artístico utilizado por Archangelo em sua atuação como compositor e produtor musical, inclusive no período relacionado à profissionalização de sua produção musical.

Décadas depois, dentro da Uivante Records, Boo Sullivan deixa de designar apenas o produtor e passa a possuir produção musical própria, especialmente eletrônica, incluindo o álbum Véu de Ísis.

O pseudônimo, portanto, praticamente se emancipa de sua função inicial e torna-se personagem artístico.


A CONSTELAÇÃO UIVANTE

A partir de agosto de 2025, em Cuiabá, a experiência muda de escala. Com a sistematização da Uivante Records e o emprego de inteligência artificial na produção musical, Archangelo passa a construir identidades deliberadamente separadas por universo estético.

Rafael & Kawan

Dupla sertaneja. 66 músicas e os álbuns Paixão Cuiabana e Ao Vivo da Praça da Mandioca.

Cidadão Kane

Rock e grunge dos anos 1990. Também recupera composições provenientes da época do Delunes. 34 músicas e o álbum LollaTex.

Mora Lee

MPB e poesia. Criada especialmente para devolver em forma musical parte do arquivo do Poesias Nonsense. 40 canções e os álbuns Sangue Rubro e Alma Preta.

King Xoteiro

Identidade relacionada às sonoridades e referências culturais nordestinas. 33 canções.

Boo Sullivan

Música eletrônica. Reconfiguração contemporânea do antigo nome artístico de compositor e produtor. Álbum Véu de Ísis.

Angwea

Metal, com referências que passam pelo Sepultura e temática de caráter indigenista. Oito músicas e o álbum Sangue Latino.

Calígula

MC destinado às experiências com funk. Cinco singles.

Ponto de Volta

Pagode romântico, especialmente relacionado à estética dos anos 1990. 29 músicas e o álbum Paula Juliana.

Untim

Hip-hop político e crítico, particularmente voltado à crítica do imperialismo norte-americano e do trumpismo. Três singles.

Nothanxs

Punk rock e hardcore em inglês. É simultaneamente projeto atual e recuperação do nome da banda existente no início dos anos 2000. A IA possibilita revisitar composições que não chegaram a ser adequadamente registradas naquela época. Seis singles na fase contemporânea.

Sem Nau

Ska rock e um dos núcleos mais extensos do catálogo. 64 músicas e três álbuns: Canções para Ouvir após a Meia-Noite, Migalhas e Azul.

Xomano

Axé e sonoridades relacionadas à música baiana. Dois singles.

Viko

Pop internacional com referências principalmente às décadas de 1980 e 1990. Cinco canções e o álbum You Could Be Mine.

João Marcelo

Bossa nova e MPB, com diálogo especialmente com a primeira fase de Jorge Ben Jor. Três singles.


IDENTIDADES COLETIVAS QUE TAMBÉM COMPÕEM A GENEALOGIA

R.A.R.U.S. — Revolucionando Altamente o Rock Urbano na Sociedade (a partir de 1998)
Primeira experiência de banda documentada no percurso, formada com Giovanni Miranda, Rafael Beltrame e Rogério “Perereca”. É o começo da experiência de Archangelo com composição e arranjos.

Black Roses (c. 2000)
Banda cover de Guns N’ Roses. Importante principalmente como etapa de aprofundamento em composição e técnica musical.

Nothanxs (início dos anos 2000)
Formada com Serj Delunes, Shell Obbus e Flip Kalvin. Representa uma fase importante de composição e arranjos e posteriormente se torna algo raríssimo dentro dessa genealogia: um projeto coletivo histórico que é ressuscitado como identidade musical na era da IA.

Delunes (2004–c. 2016/2017)
Nasce da transformação da Nothanxs em 20 de abril de 2004. É a experiência musical profissional mais importante da fase anterior à Uivante, chegando à circulação nacional, MTV, Multishow, Blast Stage Records e ao EP Las Vegas.

Arautos da Hipocrisia (2024–)
Projeto surgido no ecossistema educacional da Uivante/Rede Camões. O single Vou Reclamar, lançado em 8 de julho de 2024, deriva de poema do estudante Kauhan Sabino. Por envolver autoria discente, deve permanecer claramente distinguido dos heterônimos pessoais de Archangelo.


O MAPA DAS IDENTIDADES

IdentidadeNaturezaCampo
Apollo Hermes VicoPseudônimoLiteratura/poesia
Antonio AndradePseudônimoLiteratura/poesia
Antonio ArchangeloNome autoralLiteratura, arte e comunicação
DJ AAPersona artístico-pedagógicaEducação/música
Boo SullivanNome artístico → heterônimoProdução/música eletrônica
Rafael & KawanHeterônimo/projetoSertanejo
Cidadão KaneHeterônimo/projetoRock/grunge
Mora LeeHeterônimo/projetoMPB/poesia
King XoteiroHeterônimo/projetoMúsica nordestina
AngweaHeterônimo/projetoMetal
CalígulaHeterônimo/projetoFunk
Ponto de VoltaHeterônimo/projetoPagode
UntimHeterônimo/projetoHip-hop
Nothanxs*Projeto histórico recriadoPunk/hardcore
Sem NauHeterônimo/projetoSka rock
XomanoHeterônimo/projetoAxé
VikoHeterônimo/projetoPop internacional
João MarceloHeterônimo/projetoBossa nova/MPB

*Nothanxs ocupa uma categoria híbrida porque deriva de uma banda real anterior à atual experiência de heteronímia.

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