Pesquisa brasileira sobre autoria digital na escola pública será apresentada em congresso internacional no México

Trabalho de Antonio Archangelo discute como autoria, multiletramentos e circulação das produções estudantis podem modificar as condições de participação dos alunos no ambiente escolar

Uma experiência desenvolvida na educação pública brasileira chegará ao debate acadêmico internacional no fim de setembro. Pesquisa sobre autoria digital, multiletramentos e circulação das produções de estudantes será apresentada no VI Congreso Internacional “Desafíos y Propuestas en la Enseñanza de la Lengua/Lenguaje”, realizado entre os dias 28 e 30 de setembro de 2026.

O trabalho “Autoria digital, multiletramentos e transformação social em rede: uma análise autoetnográfica do Método Camões na educação pública brasileira” será apresentado pelo professor e pesquisador Antonio Flavio Archangelo Junior, da Universidade Estadual Paulista (UNESP/GESTELD).

A comunicação está programada para 29 de setembro, das 15h15 às 16h, na sessão “Competencia comunicativa y multimodalidad”. Na mesma sessão, o programa prevê uma pesquisa sobre transposição semiótica entre literatura e adaptações cinematográficas como instrumento para o ensino da competência comunicativa.

Da produção escolar à autoria digital

O trabalho brasileiro leva ao congresso uma questão que ganhou ainda mais importância com a expansão das tecnologias digitais e, mais recentemente, da inteligência artificial: qual é o lugar da autoria do estudante em uma escola na qual textos, imagens, vídeos e outras linguagens podem circular muito além da sala de aula?

A pesquisa parte da experiência da Rede Camões e do Método Camões e discute práticas de autoria digital, multiletramentos e circulação das produções estudantis.

Em vez de atribuir à tecnologia, isoladamente, capacidade de transformar a educação, a investigação concentra-se nas condições de mediação pedagógica que permitem ao estudante produzir e colocar seus discursos em circulação.

A perspectiva aproxima-se dos resultados da tese de doutorado de Archangelo, concluída em Educação Escolar pela UNESP, que identificou ampliação das possibilidades de autoria, interlocução, multimodalidade e circulação pública nas práticas analisadas.

O ponto central é uma mudança aparentemente simples, mas pedagogicamente relevante: o estudante pode deixar de escrever exclusivamente para cumprir uma atividade destinada ao professor e passar a produzir para interlocutores que ultrapassam os limites tradicionais da sala de aula.

Pesquisa brasileira encontra debate internacional sobre escrita digital

A posição do trabalho dentro da programação também chama atenção.

Pouco antes da sessão em que a pesquisa brasileira será apresentada, o professor Jorge Murillo Medrano, da Universidad de Costa Rica, ministrará a conferência “De la redacción escolar a las prácticas digitales de escritura: desafíos para la educación secundaria y universitaria”.

A proximidade temática coloca a experiência brasileira diretamente em diálogo com uma questão internacional: a passagem da redação escolar tradicional para práticas digitais de escrita.

O congresso dedica ainda outros espaços às transformações provocadas pelas tecnologias. Logo na abertura, em 28 de setembro, Gabriel Pérez Salazar, da Universidad Autónoma de Coahuila, apresentará uma conferência sobre competências críticas para utilização de inteligência artificial generativa e grandes modelos de linguagem a partir da alfabetização digital.

No dia 30, a programação inclui trabalhos sobre inteligência artificial como mediadora didática para o desenvolvimento de competência comunicativa intercultural e sobre implicações éticas da IA na tradução e no ensino de inglês. Também haverá uma conferência dedicada especificamente à multimodalidade no ensino da linguagem.

Escola pública brasileira entra na conversa sobre o futuro da escrita

Nesse cenário, a apresentação da experiência brasileira ganha uma dimensão que ultrapassa a divulgação do Método Camões.

Ela coloca práticas construídas dentro da escola pública brasileira em interlocução com pesquisadores que estão discutindo como escrita, linguagem, multimodalidade e inteligência artificial reorganizam as formas de ensinar e aprender.

E há uma diferença importante nessa abordagem: digitalizar uma atividade escolar não significa necessariamente criar autoria.

A discussão proposta pelo trabalho está relacionada às condições pedagógicas que permitem aos estudantes produzir discursos, utilizar diferentes linguagens, encontrar interlocutores e fazer suas produções circularem socialmente.

É justamente nesse ponto que uma experiência localizada em escolas públicas brasileiras encontra um problema educacional internacional: em uma época em que máquinas também produzem textos, como garantir que a escola continue criando espaços para que estudantes tenham algo próprio a dizer?

O VI Congreso Internacional “Desafíos y Propuestas en la Enseñanza de la Lengua/Lenguaje” ocorre entre 28 e 30 de setembro de 2026. A apresentação de Antonio Flavio Archangelo Junior está prevista para 29 de setembro, das 15h15 às 16h, na sessão “Competencia comunicativa y multimodalidad”.

Fonte: Programa Preliminar do VI Congreso Internacional “Desafíos y Propuestas en la Enseñanza de la Lengua/Lenguaje”.

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