Tese analisou experiência desenvolvida em escolas públicas e identificou que práticas com jornais, literatura e diferentes linguagens ampliaram possibilidades de autoria, interlocução e expressão dos alunos
Quando o estudante escreve não apenas para entregar uma atividade ao professor, mas para ser lido por outras pessoas, sua posição dentro da própria prática escolar pode mudar. Uma pesquisa de doutorado da Universidade Estadual Paulista (UNESP) identificou que práticas pedagógicas baseadas em autoria, diferentes linguagens e circulação pública das produções ampliaram possibilidades de autoria, interlocução e expressão dos estudantes.
O achado integra a tese “‘Rede Camões’: uma autoetnografia crítica do cuidado de si nos processos de escolarização no ensino de Língua Portuguesa”, de Antonio Flavio Archangelo Junior, orientada pela professora Maria Regina Momesso no Programa de Pós-Graduação em Educação Escolar da Faculdade de Ciências e Letras da UNESP, em Araraquara.
A pesquisa analisou uma experiência desenvolvida entre 2020 e 2024 em escolas públicas estaduais, sobretudo em regiões periféricas de Rio Claro (SP). O trabalho começou em meio às condições impostas pela pandemia de Covid-19 e posteriormente foi sistematizado na Rede Camões de Jornais Escolares e no Método Camões.
Escrever para além do professor
Um dos principais resultados da investigação está na mudança das possibilidades de participação dos estudantes quando suas produções deixam de permanecer restritas à relação tradicional entre aluno, atividade e professor.
O corpus analisado reúne produções jornalísticas, autobiográficas, literárias, multimodais e digitais.
Segundo a tese, as práticas estudadas ampliaram possibilidades de autoria, interlocução, multimodalidade e circulação pública das produções estudantis.
Na prática, a pesquisa aponta para uma questão central do ensino de Língua Portuguesa: a existência de interlocutores e espaços de circulação pode alterar as condições em que o estudante produz seu discurso.
O aluno não escreve necessariamente apenas para demonstrar ao professor que aprendeu determinado conteúdo. Ele encontra possibilidades de assumir uma posição autoral e produzir algo que pode circular e ser lido, visto ou ouvido por outras pessoas.
Pesquisa encontra aproximações entre escrita e “cuidado de si”
A investigação encontrou ainda outro fenômeno.
Em determinadas produções analisadas, a escrita e a elaboração discursiva das próprias experiências dos estudantes permitiram aproximações com práticas de “cuidado de si”, conceito trabalhado pelo filósofo Michel Foucault.
Nessa perspectiva, escrever pode ultrapassar a dimensão meramente instrumental da linguagem. Ao elaborar discursivamente uma experiência, o sujeito também pode encontrar ocasiões para refletir sobre si mesmo, sobre suas relações e sobre o mundo.
A tese conclui que, sob determinadas condições de mediação pedagógica, práticas autorais e multimodais podem “ampliar posições de enunciação dos estudantes” e criar oportunidades de reflexão sobre si, sobre o outro e sobre o mundo.
Isso não significa, entretanto, que qualquer postagem, texto ou produção digital realizada por um aluno produza automaticamente esse processo.
Nem toda autoria digital transforma o sujeito
Esse é, inclusive, um dos limites estabelecidos pelo próprio estudo.
A pesquisa evita afirmar que toda autoria digital possa ser considerada uma tecnologia de si. Também não estabelece uma relação automática de causa e efeito entre a utilização do Método Camões e a formação de estudantes críticos.
A distinção é importante porque impede que os resultados de uma experiência situada sejam apresentados como uma fórmula pedagógica universal.
O estudo trabalha com uma investigação qualitativa e autoetnográfica. Portanto, seus resultados dizem respeito às materialidades e experiências efetivamente analisadas.
Visualização não é aprendizagem
Outra conclusão metodologicamente importante da tese diz respeito às métricas digitais.
A Rede Camões produziu um volume expressivo de conteúdos e circulação na internet ao longo da experiência. Entretanto, a pesquisa faz uma distinção fundamental: números de publicações, acessos, visitantes, comentários ou outras formas de interação não podem ser tratados automaticamente como indicadores de aprendizagem ou de transformação subjetiva.
Na tese, esses dados servem para dimensionar a extensão e a circulação da experiência.
A aprendizagem e os processos relacionados à autoria e ao cuidado de si exigem outro tipo de análise.
A ressalva ganha relevância em um momento em que escolas incorporam cada vez mais plataformas, ambientes virtuais e indicadores digitais às práticas pedagógicas. Ter alcance não significa, por si só, aprender mais.
Pesquisa nasceu dentro da escola pública
Para chegar aos resultados, Archangelo Junior adotou a autoetnografia crítica, metodologia na qual a própria experiência vivida pelo pesquisador integra o campo investigado.
Foram articulados registros reflexivos, documentos institucionais, produções autorais dos estudantes e indicadores de produção e circulação digital.
A análise dialogou com os conceitos de cuidado de si e tecnologias de si em Michel Foucault, além de estudos sobre multiletramentos, cibercultura, educomunicação e crítica à colonialidade.
O resultado desloca uma pergunta recorrente sobre tecnologia na educação.
Mais do que perguntar simplesmente se celulares, plataformas, vídeos, jornais ou redes digitais melhoram a aprendizagem, a pesquisa sugere observar quais condições pedagógicas permitem que essas linguagens ofereçam ao estudante novas possibilidades de autoria e participação discursiva.
Nesse sentido, o achado da tese não está na tecnologia isoladamente.
Está na mediação pedagógica e na possibilidade de transformar o estudante de destinatário de tarefas escolares em sujeito que também produz discursos destinados a circular socialmente.
Sobre a pesquisa
Título: “‘Rede Camões’: uma autoetnografia crítica do cuidado de si nos processos de escolarização no ensino de Língua Portuguesa”
Autor: Antonio Flavio Archangelo Junior
Orientadora: Maria Regina Momesso
Programa: Educação Escolar – FCLAR
Instituição: Universidade Estadual Paulista (UNESP)
Ano: 2026
Tipo: Tese de doutorado
Acesso: aberto
Referência: ARCHANGELO JUNIOR, A. “Rede Camões”: uma autoetnografia crítica do cuidado de si nos processos de escolarização no ensino de Língua Portuguesa. 2026. 97 p. Tese (Doutorado) – Universidade Estadual Paulista (UNESP), Faculdade de Ciências e Letras, Araraquara, 2026.
Fonte: Repositório Institucional da Universidade Estadual Paulista (UNESP).
