Desemprego em mínima histórica não elimina precariedade do trabalho no Brasil, argumenta economista

Artigo aponta que queda do desemprego convive com informalidade, empregos de baixo valor agregado, desindustrialização e restrições ao investimento; autor questiona sustentabilidade do atual modelo macroeconômico

O Brasil chegou ao terceiro trimestre de 2025 com taxa de desemprego de 5,6%, a menor da série histórica, enquanto a taxa composta de subutilização da força de trabalho caiu para 13,9%, também em nível inédito. Os números parecem indicar um mercado de trabalho excepcionalmente forte.

Mas, para o economista Marcelo Soares de Carvalho, professor do Departamento de Economia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), esses indicadores não contam toda a história.

No artigo “Subdesenvolvimento, mercado de trabalho e gestão macroeconômica: anotações sobre a conjuntura brasileira”, Carvalho argumenta que a redução do desemprego aberto ocorre sobre uma estrutura produtiva ainda marcada por desindustrialização, baixa capacidade de geração de empregos de maior produtividade, informalidade e dependência externa.

A conclusão central é incômoda: uma economia pode produzir mais empregos e, ainda assim, continuar incapaz de oferecer ocupações de qualidade em escala suficiente para transformar estruturalmente as condições de vida da população.

Menos desemprego, mas que tipo de emprego?

Segundo o artigo, boa parte dos postos criados recentemente está concentrada em comércio e serviços não especializados, setores que, em média, apresentam menor valor agregado e remunerações inferiores às de atividades industriais mais complexas.

A agropecuária, embora tenha ampliado sua importância econômica e nas exportações brasileiras, também possui capacidade relativamente limitada de absorção de mão de obra quando comparada à indústria e a alguns segmentos de serviços.

Para Carvalho, isso ajuda a explicar por que a queda do desemprego não se converte automaticamente em uma transformação mais profunda nas condições materiais da população.

O artigo recupera uma tradição de pensamento econômico associada a Raúl Prebisch, Celso Furtado e Michał Kalecki para sustentar que, em economias periféricas, a qualidade do emprego depende diretamente da estrutura produtiva.

Em outras palavras: não basta perguntar quantas pessoas estão trabalhando; é necessário perguntar onde trabalham, quanto produzem, quanto recebem e que tipo de proteção acompanha esses empregos.

Quase 60% dos domicílios permaneciam nas faixas inferiores de renda

Outro dado utilizado pelo autor reforça o contraste entre os bons indicadores agregados e as condições sociais.

Com base em dados sistematizados pelo Ipea para o terceiro trimestre de 2025, o artigo registra que, somados os domicílios sem rendimentos declarados, os classificados como de renda muito baixa e aqueles de renda baixa — até R$ 2.471,09 de renda domiciliar em valores de 2020 —, o grupo correspondia a 59,5% dos domicílios brasileiros.

Ao mesmo tempo, a proporção de pessoas abaixo da linha internacional de pobreza caiu de 6,07% em 2020 para 3,51% em 2024.

Para Carvalho, os dois movimentos não são contraditórios. A redução da pobreza é relevante, mas não significa que a economia tenha criado uma estrutura capaz de garantir, por meio do mercado de trabalho, renda elevada e estabilidade para a maioria da população.

A desindustrialização aparece no centro do problema

O artigo dedica boa parte da análise à trajetória da industrialização brasileira.

Segundo Carvalho, o Brasil foi o país latino-americano que mais avançou na construção de uma estrutura industrial complexa ao longo do século XX. Esse processo aumentou a capacidade de absorção de trabalhadores, ampliou cadeias produtivas e permitiu empregos de maior produtividade.

A inflexão teria ocorrido especialmente a partir da crise da dívida externa dos anos 1980 e se aprofundado nos anos 1990, com abertura comercial, valorização cambial, juros elevados e liberalização financeira.

O resultado, na interpretação do autor, foi uma combinação de desindustrialização e reprimarização da pauta exportadora.

Esse movimento importa para o mercado de trabalho porque atividades industriais possuem maior capacidade de criar cadeias de fornecedores, serviços especializados e empregos associados a níveis superiores de produtividade.

Juros altos também entram na equação

A análise não se limita ao emprego.

Carvalho questiona a sustentabilidade do chamado tripé macroeconômico, formado pelo regime de metas de inflação, câmbio flutuante e regras de controle fiscal.

Segundo o artigo, a manutenção de juros elevados produz efeitos que vão além do combate à inflação. Ela desestimula investimentos produtivos, aumenta o custo da dívida pública e reforça a atração de capitais financeiros estrangeiros.

O autor relaciona essa política à própria fragilidade externa brasileira.

O país continua dependente de importações de manufaturados e de capital externo. Ao mesmo tempo, remete juros e lucros ao exterior, criando uma dinâmica em que novas entradas de capital também produzem compromissos futuros de saída de recursos.

Investimento público permanece baixo

Outro ponto destacado é a queda da capacidade de investimento do Estado.

Com dados do Observatório de Política Fiscal do IBRE/FGV, o artigo registra que o investimento público líquido de depreciação foi negativo entre 2016 e 2021 e permaneceu abaixo de 1,5% do PIB desde 2010.

Para Carvalho, esse comportamento reduz a capacidade do Estado de induzir novos investimentos privados, financiar infraestrutura e apoiar mudanças na estrutura produtiva.

Ao mesmo tempo, o pagamento de juros da dívida pública continuaria exercendo forte pressão sobre o orçamento.

Na interpretação apresentada, esse arranjo cria um paradoxo: busca-se equilíbrio fiscal por meio da contenção de despesas, mas a própria redução do investimento público limita o crescimento econômico que poderia ampliar receitas e melhorar as contas públicas.

Governo atual melhorou indicadores, mas enfrenta limites estruturais

O artigo reconhece resultados positivos da atual gestão federal.

Carvalho menciona desempenho razoável do PIB, queda do desemprego, desaceleração da inflação e recuperação de políticas públicas, além da redução dos indicadores de pobreza.

Entretanto, argumenta que o governo eleito em 2022 atua dentro de restrições significativas.

Entre elas estão o novo arcabouço fiscal, o peso dos juros, a permanência dos efeitos da reforma trabalhista de 2017, a elevada informalidade e a crescente parcela do orçamento comprometida por emendas parlamentares.

Nesse ambiente, iniciativas como a nova política industrial teriam menor espaço para produzir mudanças estruturais.

Baixo desemprego pode esconder uma velha fragilidade brasileira

A discussão proposta pelo artigo, portanto, vai além da conjuntura imediata.

Para Carvalho, o problema brasileiro não seria simplesmente criar qualquer posto de trabalho, mas desenvolver uma estrutura produtiva capaz de absorver trabalhadores em atividades com maior produtividade, melhores salários e vínculos mais protegidos.

Essa é uma diferença fundamental.

Uma pessoa pode deixar oficialmente o desemprego ao conseguir uma ocupação informal, temporária ou de baixa remuneração. O indicador melhora, mas sua condição econômica pode continuar frágil.

É justamente essa característica que o autor relaciona ao conceito histórico de subdesenvolvimento.

Autor defende novo projeto de desenvolvimento

Na conclusão, Carvalho sustenta que a superação desse quadro exigiria um novo projeto nacional de desenvolvimento baseado no fortalecimento da indústria e na criação de atividades de maior valor agregado.

A proposta deveria, segundo ele, combinar três características: autonomia tecnológica e financeira, inclusão social e sustentabilidade ambiental.

Também envolveria mudanças na política macroeconômica, fortalecimento da proteção ao trabalho, maior controle sobre fluxos financeiros e retomada do investimento produtivo.

O economista reconhece, porém, que o obstáculo não é apenas técnico. Um projeto dessa dimensão exigiria uma coalizão política e social capaz de sustentá-lo.

O artigo termina relacionando essa disputa ao próprio orçamento público e às formas de mobilização social, citando inclusive movimentos recentes pelo fim da escala de trabalho 6×1.

Assim, a principal provocação deixada pela análise é simples, embora desconfortável: o Brasil pode comemorar um desemprego historicamente baixo sem necessariamente ter resolvido o problema histórico de oferecer trabalho de qualidade à maioria de sua população.

Fonte: CARVALHO, Marcelo Soares de. Subdesenvolvimento, mercado de trabalho e gestão macroeconômica: anotações sobre a conjuntura brasileira. Professor do Departamento de Economia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), 2026.

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