Pesquisa publicada na revista Ciência & Saúde Coletiva revela que reclamações e reivindicações nas plataformas digitais passaram a influenciar decisões de gestores municipais, mas alerta para o enfraquecimento dos espaços coletivos de participação e os riscos da individualização das demandas por saúde.
Por Redação Portal Archa
Uma reclamação publicada no Facebook pode chegar mais rapidamente a um secretário municipal de Saúde do que uma manifestação registrada pelos canais oficiais do Sistema Único de Saúde (SUS). Essa transformação na relação entre cidadãos e gestores públicos está modificando as formas de participação social e os processos de tomada de decisão na saúde brasileira.
É o que revela um estudo publicado em 2026 na revista científica Ciência & Saúde Coletiva, assinado pelos pesquisadores Rodrigo Meirelles e Aurea Maria Zöllner Ianni, vinculados à Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP).
Intitulado Redes sociais digitais e participação social no Sistema Único de Saúde (SUS) brasileiro: reflexões sobre transformações sociopolíticas e desafios contemporâneos na saúde, o artigo analisa como as plataformas digitais criaram novas possibilidades de manifestação política fora dos espaços institucionais tradicionalmente responsáveis pela participação popular.
A pesquisa aponta uma contradição central: as redes sociais ampliam as possibilidades de manifestação direta dos cidadãos, mas também podem enfraquecer mecanismos coletivos de deliberação democrática e favorecer respostas individualizadas às demandas de saúde.
Pesquisa ouviu gestores de cinco municípios paulistas
O estudo foi desenvolvido a partir de entrevistas semiestruturadas com cinco gestores municipais de saúde da região do Grande ABC paulista.
Participaram representantes dos municípios de Diadema, Mauá, Ribeirão Pires, Santo André e São Caetano do Sul.
As entrevistas foram realizadas entre setembro de 2019 e fevereiro de 2020, antes da pandemia de COVID-19, e envolveram dois secretários municipais de Saúde, um secretário adjunto e dois assessores técnicos.
A análise qualitativa buscou compreender como as manifestações dos cidadãos nas plataformas digitais interferem na gestão dos serviços públicos e na condução das políticas municipais de saúde.
Os pesquisadores identificaram três dimensões principais: o papel das redes sociais como espaços de participação, as características das interações entre cidadãos e gestores e os efeitos dessas relações sobre a administração pública.
Reclamações nas redes podem substituir os canais oficiais
Um dos aspectos mais expressivos da pesquisa é a mudança na forma como os cidadãos apresentam suas demandas aos gestores.
Tradicionalmente, manifestações relacionadas ao funcionamento dos serviços de saúde são encaminhadas por canais institucionais, como ouvidorias, conselhos de saúde e outros mecanismos de participação.
Nas redes sociais, entretanto, as reivindicações podem ser publicadas diretamente, sem a intermediação dessas estruturas.
Um dos gestores entrevistados relatou que cidadãos passaram a utilizar o Facebook para solicitar providências relacionadas à transferência de familiares internados, em vez de recorrer à ouvidoria.
Segundo o depoimento, a exposição pública da situação pode produzir repercussão imediata e pressionar a administração municipal a responder rapidamente.
Essa dinâmica altera a relação entre o tempo administrativo e o tempo das reivindicações populares.
Enquanto os procedimentos institucionais seguem fluxos próprios de registro, análise e resposta, as plataformas digitais operam sob a expectativa de manifestação e atendimento praticamente imediatos.
Gestores passaram a monitorar redes sociais constantemente
A pesquisa também identificou mudanças na rotina de trabalho dos gestores municipais.
Segundo os entrevistados, acompanhar publicações nas plataformas digitais tornou-se uma atividade relevante para identificar problemas nos serviços de saúde e avaliar a percepção dos cidadãos sobre a administração.
Em um dos depoimentos, um gestor relatou consultar o Facebook durante a madrugada para verificar a existência de reclamações sobre serviços municipais.
Outro afirmou que determinadas situações chegam ao conhecimento da administração primeiro pelas redes sociais.
As plataformas passaram, assim, a funcionar como uma espécie de termômetro da satisfação dos usuários.
Entretanto, essa exposição permanente também cria pressões sobre os responsáveis pela gestão pública.
A necessidade de responder rapidamente às manifestações pode deslocar parte da atenção administrativa para situações individuais de grande repercussão digital, independentemente de sua representatividade em relação às necessidades coletivas da população.
Fake news e exposição pública preocupam gestores
A circulação de informações falsas ou imprecisas também aparece como uma preocupação recorrente nas entrevistas.
Os gestores relataram dificuldades relacionadas à divulgação de conteúdos cuja veracidade não foi previamente confirmada, especialmente quando envolvem denúncias sobre o funcionamento dos serviços públicos.
Segundo a pesquisa, essas manifestações podem afetar a confiança da população na administração municipal, exigindo procedimentos de verificação e esclarecimento.
Em resposta, setores de comunicação das secretarias de Saúde passaram a acompanhar publicações, investigar situações específicas e elaborar respostas individualizadas.
O estudo demonstra, portanto, que as redes sociais não apenas oferecem novos canais de manifestação, mas também modificam a organização do trabalho administrativo e as estratégias de comunicação governamental.
A democracia na saúde está se tornando individualizada?
Essa é uma das questões centrais levantadas pelos pesquisadores.
A participação social no SUS foi historicamente estruturada a partir de princípios associados à Reforma Sanitária Brasileira, especialmente a construção coletiva das políticas públicas e a atuação de conselhos e conferências de saúde.
Nesses espaços, representantes da sociedade civil, trabalhadores, gestores e outros atores discutem prioridades e participam dos processos de formulação e acompanhamento das políticas públicas.
As redes sociais introduzem uma dinâmica diferente.
Em vez de reivindicações construídas coletivamente, predominam manifestações individuais relacionadas às experiências particulares dos usuários com os serviços de saúde.
Uma pessoa pode denunciar a demora em uma consulta, reclamar da ausência de medicamentos ou expor dificuldades enfrentadas durante um atendimento.
Essas manifestações são legítimas e podem revelar falhas importantes do sistema.
O problema, segundo a interpretação desenvolvida no artigo, aparece quando a repercussão individual passa a influenciar decisões administrativas sem necessariamente considerar as necessidades coletivas, as desigualdades sociais ou os critérios públicos de definição de prioridades.
A visibilidade de uma reclamação não significa, necessariamente, que ela represente a necessidade mais urgente de determinada população.
Essa é uma das implicações da pesquisa para o debate sobre democracia e gestão pública.
Participação digital pode enfraquecer conselhos de saúde?
Os pesquisadores argumentam que a expansão das manifestações individuais nas plataformas digitais pode contribuir para a fragilização dos espaços institucionais de participação.
Isso não significa que os conselhos municipais de saúde tenham perdido sua função legal ou que as redes sociais tenham formalmente substituído essas instituições.
O estudo identifica, sobretudo, uma mudança nas práticas políticas e nas relações entre cidadãos e gestores.
As plataformas permitem manifestações diretas e ampliam a capacidade de exposição pública de problemas, mas não reproduzem necessariamente os procedimentos de representação, negociação e deliberação coletiva característicos dos conselhos.
Há também uma questão estrutural: as regras de funcionamento das plataformas são estabelecidas por empresas privadas, e não pelas instituições democráticas responsáveis pela organização das políticas públicas.
Dessa maneira, parte das interações entre Estado e sociedade passa a ocorrer em ambientes comerciais cujas normas de funcionamento não estão diretamente subordinadas aos mecanismos tradicionais de participação do SUS.
Direito à saúde ou disputa por atendimento individual?
Outro aspecto importante da pesquisa está relacionado à forma como o direito à saúde é compreendido e reivindicado.
Os autores argumentam que a ampliação do acesso aos serviços médico-assistenciais também consolidou uma relação marcada pelo consumo individualizado de consultas, procedimentos, medicamentos e tecnologias.
Nas plataformas digitais, essa característica pode se intensificar.
As necessidades de saúde passam a ser apresentadas publicamente a partir de experiências particulares, frequentemente acompanhadas de exigências de respostas imediatas.
A consequência, segundo os pesquisadores, é uma tensão entre a satisfação de demandas individuais e a construção de políticas orientadas por necessidades coletivas.
Isso não significa desconsiderar a importância das reclamações individuais.
Pelo contrário: denúncias e relatos podem revelar problemas reais, ampliar a fiscalização social e contribuir para a melhoria dos serviços.
A questão é compreender como incorporar essas manifestações à gestão pública sem comprometer os princípios de universalidade, equidade e participação coletiva que fundamentam o SUS.
Estudo identifica crise e reinvenção da participação democrática
A conclusão dos pesquisadores não é simplesmente favorável ou contrária ao uso das redes sociais na saúde.
O artigo sustenta que as plataformas digitais produzem simultaneamente uma crise e uma possibilidade de reinvenção da democracia participativa.
De um lado, permitem que cidadãos se manifestem diretamente, exponham problemas e influenciem a administração pública sem depender exclusivamente das estruturas tradicionais de representação.
De outro, favorecem a fragmentação das demandas e podem reduzir a centralidade das organizações coletivas na definição das prioridades de saúde.
Os autores interpretam esse fenômeno como parte de transformações sociais mais amplas, nas quais as tecnologias digitais modificam as relações de poder, os processos de comunicação e as formas de exercício da cidadania.
A participação digital, portanto, não deve ser compreendida apenas como uma ferramenta tecnológica, mas como uma transformação sociopolítica que exige novas reflexões sobre o funcionamento das instituições democráticas.
Resultados precisam ser interpretados considerando o período pesquisado
Embora publicado em 2026, o estudo utiliza entrevistas realizadas antes da pandemia de COVID-19.
Essa delimitação é importante porque a crise sanitária acelerou a utilização de tecnologias digitais e transformou as relações entre cidadãos, profissionais de saúde e instituições públicas.
Os próprios autores reconhecem que os resultados não abrangem integralmente as mudanças ocorridas após a pandemia.
Outra limitação está na abrangência territorial e no perfil dos entrevistados: a pesquisa considera cinco gestores de municípios do Grande ABC, sem incorporar diretamente as percepções de usuários, trabalhadores da saúde e representantes de movimentos sociais.
Assim, os resultados oferecem uma interpretação qualitativa de experiências específicas, não uma medida estatística da participação digital em todos os municípios brasileiros.
O desafio de conciliar participação digital e democracia coletiva
A principal contribuição da pesquisa está em demonstrar que a transformação digital da saúde pública não se limita à informatização de serviços ou à adoção de novas ferramentas de comunicação.
Ela também modifica as relações políticas que sustentam a organização do SUS.
As redes sociais criam possibilidades de fiscalização, denúncia e aproximação entre cidadãos e gestores, mas também introduzem desafios relacionados à exposição pública, à circulação de informações falsas e à individualização das reivindicações.
Para a gestão pública, a questão que emerge é como reconhecer a importância dessas manifestações sem permitir que a repercussão nas plataformas digitais se torne o principal critério de definição das prioridades administrativas.
O desafio não está em escolher entre participação digital e participação institucional, mas em compreender como ambas podem coexistir sem enfraquecer a dimensão coletiva do direito à saúde.
A pesquisa de Meirelles e Ianni evidencia que o futuro da participação social no SUS dependerá não apenas das tecnologias disponíveis, mas também da capacidade das instituições públicas de preservar e renovar os mecanismos democráticos de construção das políticas de saúde.
Fonte e referência científica
MEIRELLES, Rodrigo; IANNI, Aurea Maria Zöllner. Redes sociais digitais e participação social no Sistema Único de Saúde (SUS) brasileiro: reflexões sobre transformações sociopolíticas e desafios contemporâneos na saúde. Ciência & Saúde Coletiva, v. 31, n. 9, 2026.
DOI: https://doi.org/10.1590/1413-81232026319.07372024
Instituição: Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP).
