Dissertação de mestrado identifica efeitos favoráveis sobre investimentos e contas públicas, mas revela que ajustes previdenciários podem provocar retração da atividade econômica. Pesquisa também evidencia diferenças entre reduzir despesas e aumentar contribuições.
Por Redação Portal Archa
Uma reforma da Previdência pode reduzir a taxa real de juros, estimular investimentos privados e favorecer a entrada de capitais estrangeiros no Brasil. Entretanto, esses resultados não significam necessariamente crescimento econômico. Dependendo das medidas adotadas, o ajuste previdenciário também pode provocar retração da atividade produtiva e afetar a renda disponível das famílias.
Essa é uma das principais conclusões da dissertação Impactos de reformas da Previdência sobre a taxa de juros e a posição financeira externa do Brasil: uma abordagem DSGE, desenvolvida pelo economista Daniel Henrique Martins Biot, no Programa de Pós-Graduação em Economia da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG).
A pesquisa, orientada pelo professor Celso José Costa Júnior e aprovada em setembro de 2026, investiga os efeitos macroeconômicos de diferentes estratégias de reforma previdenciária.
Embora os resultados indiquem vantagens fiscais e financeiras associadas à redução das obrigações previdenciárias futuras, o estudo também demonstra que esses benefícios podem coexistir com efeitos negativos sobre a atividade econômica.
Juros menores não significam necessariamente crescimento econômico
Um dos resultados mais relevantes da dissertação está na relação entre o equilíbrio das contas previdenciárias e o comportamento da economia brasileira.
Segundo as simulações, a redução das despesas previdenciárias futuras melhora as expectativas sobre a sustentabilidade fiscal do governo. Com menor necessidade de financiamento público, a taxa real de juros tende a diminuir, criando condições mais favoráveis ao investimento privado.
O modelo também identifica aumento da atratividade dos investimentos domésticos e entrada líquida de capitais estrangeiros durante a transição.
Entretanto, a pesquisa revela uma aparente contradição: mesmo com juros menores e investimentos privados em expansão, o produto agregado apresenta retração ao longo do horizonte analisado.
Esse resultado está associado, no modelo, à redução dos gastos públicos e aos efeitos dos ajustes sobre a dinâmica da demanda e da produção.
A constatação demonstra que a melhora de determinados indicadores financeiros não representa, necessariamente, uma expansão generalizada da atividade econômica.
Redução dos benefícios e aumento das contribuições produzem efeitos diferentes
A dissertação compara diferentes mecanismos de ajuste previdenciário, incluindo a redução das obrigações futuras com benefícios e o aumento das contribuições de trabalhadores e empregadores.
Os resultados indicam que a redução das despesas previdenciárias apresenta efeitos mais expressivos sobre a consolidação fiscal e a diminuição da taxa real de juros.
Já o aumento das contribuições dos trabalhadores, embora amplie a arrecadação previdenciária, também reduz a renda disponível das famílias.
Nas simulações, esse mecanismo provoca retração do consumo doméstico e limita os incentivos à expansão dos investimentos privados.
A elevação das contribuições patronais, por sua vez, apresenta efeitos adicionais relativamente pequenos sobre o produto e o emprego, sem alterar substancialmente os mecanismos macroeconômicos identificados.
Assim, a pesquisa demonstra que diferentes estratégias de ajuste podem produzir consequências distintas, mesmo quando compartilham o objetivo de melhorar a sustentabilidade financeira do sistema previdenciário.
Pesquisa não propõe necessariamente cortar aposentadorias atuais
Uma ressalva metodológica importante aparece na interpretação da variável utilizada para representar a redução dos benefícios previdenciários.
O próprio pesquisador esclarece que essa redução não deve ser entendida literalmente como um corte nominal nas aposentadorias atualmente pagas.
Considerando as restrições institucionais e constitucionais brasileiras, a variável representa de maneira simplificada medidas como o aumento da idade mínima de aposentadoria, mudanças no tempo de contribuição e alterações nas regras de elegibilidade.
Essas medidas reduzem o valor esperado das obrigações previdenciárias futuras do governo.
A distinção é fundamental para evitar interpretações equivocadas: o estudo simula efeitos macroeconômicos associados à diminuição dos compromissos previdenciários futuros, não necessariamente à redução direta dos pagamentos recebidos pelos atuais aposentados.
Como o estudo foi realizado
Para investigar os efeitos das reformas, Biot utilizou um modelo de Equilíbrio Geral Dinâmico e Estocástico, conhecido pela sigla DSGE.
Essa metodologia permite representar as relações entre famílias, empresas, governo e setor externo, simulando como diferentes agentes econômicos respondem a mudanças nas políticas públicas.
O modelo desenvolvido considera uma pequena economia aberta, com trabalhadores e aposentados, e utiliza dados trimestrais da economia brasileira entre 2001 e 2019.
Foram examinados cenários que combinam redução dos benefícios previdenciários e aumento das contribuições, além de simulações que isolam os efeitos de cada medida.
A pesquisa também considera a contribuição previdenciária patronal para verificar sua influência adicional sobre a dinâmica econômica.
Os resultados, portanto, representam respostas estimadas dentro de uma estrutura teórica e estatística específica.
Não se trata de uma comprovação de que reformas previdenciárias necessariamente produzirão os mesmos efeitos na economia real.
E os impactos sociais da reforma?
Embora a dissertação apresente resultados relevantes sobre juros, investimentos, contas públicas e relações financeiras externas, suas conclusões não permitem determinar, isoladamente, se uma reforma previdenciária seria socialmente benéfica.
A redução das obrigações futuras do sistema pode melhorar indicadores fiscais, mas mudanças nas regras de aposentadoria também podem afetar de maneira diferente trabalhadores de distintas faixas de renda, ocupações e condições de trabalho.
O modelo utilizado não oferece uma avaliação suficientemente detalhada dessas desigualdades para concluir como os possíveis ganhos macroeconômicos seriam distribuídos entre os diferentes grupos sociais.
Da mesma forma, a identificação de efeitos positivos sobre o investimento privado não demonstra que esses ganhos compensariam eventuais custos associados ao adiamento da aposentadoria.
Essas questões exigem análises complementares, especialmente sobre distribuição de renda, proteção social e bem-estar.
O próprio autor reconhece a possibilidade de aperfeiçoar o modelo, recomendando que futuras pesquisas incorporem regras explícitas de elegibilidade, como restrições de idade, e diferenciem os regimes de previdência pública e privada.
Entre o equilíbrio fiscal e a proteção social
A discussão sobre reformas previdenciárias costuma ser apresentada a partir de duas preocupações centrais: garantir a sustentabilidade financeira do sistema e preservar sua função de proteção social.
A dissertação contribui principalmente para a compreensão da primeira dimensão, ao investigar como alterações previdenciárias repercutem sobre variáveis macroeconômicas.
Seus resultados sugerem que reformas baseadas na redução das obrigações previdenciárias futuras podem apresentar efeitos fiscais e financeiros mais expressivos do que ajustes fundamentados exclusivamente no aumento das contribuições.
Entretanto, a própria pesquisa demonstra que a melhora das condições de financiamento da economia pode coexistir com retração do produto agregado.
Essa combinação impede uma interpretação simplificada segundo a qual o ajuste previdenciário necessariamente produziria crescimento econômico.
Mais do que oferecer uma resposta definitiva sobre a conveniência de novas reformas, o estudo evidencia a complexidade de seus efeitos.
A decisão sobre modificar regras previdenciárias envolve não apenas a sustentabilidade das contas públicas, mas também escolhas distributivas e sociais que ultrapassam os indicadores examinados pelo modelo.
O principal resultado da pesquisa é que uma reforma pode melhorar determinadas condições macroeconômicas sem produzir benefícios uniformes para toda a economia — e sem que isso, por si só, demonstre ganhos de bem-estar para toda a população.
Fonte e referência científica
BIOT, Daniel Henrique Martins. Impactos de reformas da Previdência sobre a taxa de juros e a posição financeira externa do Brasil: uma abordagem DSGE. 2026. 70 f. Dissertação (Mestrado em Economia) — Universidade Estadual de Ponta Grossa, Ponta Grossa, 2026.
Orientador: Prof. Dr. Celso José Costa Júnior.
Data da defesa: 4 de setembro de 2026.
