Em meio ao avanço de políticas de educação intercultural, um estudo recente propõe uma virada de chave: a escola indígena não deve escolher entre português e língua materna — deve operar no entre, no trânsito, no fluxo. É nesse território que entra a translinguagem, apontada como ferramenta estratégica para fortalecer leitura, escrita e identidade cultural entre povos indígenas.
A pesquisa, desenvolvida na Universidade Federal do Norte do Tocantins (UFNT), parte de um diagnóstico conhecido, mas pouco enfrentado: a escola historicamente funcionou como espaço de apagamento linguístico. Da catequese à “civilização”, o ensino formal operou muitas vezes como máquina de substituição cultural. Agora, a proposta é outra — não apagar, mas articular.
A translinguagem aparece justamente como essa tecnologia pedagógica do encontro. Diferente do bilinguismo tradicional — que costuma separar rigidamente as línguas —, ela permite que estudantes usem simultaneamente seus repertórios linguísticos. Não se trata de alternar idiomas, mas de misturá-los com intencionalidade, sentido e pertencimento.
Na prática, isso muda tudo.
A sala de aula deixa de ser um espaço de correção linguística para se tornar um espaço de produção cultural.
O estudo mostra que essa abordagem contribui diretamente para três dimensões centrais:
- valorização dos saberes indígenas
- fortalecimento da identidade cultural
- preservação das línguas originárias
E aqui está o ponto forte: não é só sobre linguagem — é sobre poder simbólico. Quem define qual língua vale? Quem legitima o conhecimento? A translinguagem tensiona justamente essa hierarquia.
Outro achado relevante é que a educação escolar indígena já é, na prática, multilíngue. Em muitos contextos, estudantes transitam entre língua materna e português no cotidiano. A escola, portanto, não cria o bilinguismo — ela pode, no máximo, ignorá-lo… ou potencializá-lo.
E quando potencializa, os efeitos aparecem:
atividades como tradução de narrativas tradicionais, debates bilíngues e produção textual híbrida ampliam o repertório linguístico e criam pontes entre cultura local e conhecimento escolar.
Mas nem tudo são flores (até porque política pública nunca é simples).
O estudo aponta desafios bem concretos:
- formação insuficiente de professores para trabalhar com translinguagem
- escassez de materiais didáticos bilíngues
- modelos de avaliação que ignoram a complexidade linguística dos alunos
Ou seja, temos a teoria avançando mais rápido que o sistema. Clássico.
Outro ponto potente: a pesquisa reforça que a escola indígena não pode ser pensada isoladamente. O aprendizado também acontece na comunidade, nos rituais, na oralidade, na memória coletiva. A escola, nesse sentido, não é o centro — é mais um nodo da rede de saberes.
No fim, a conclusão é quase um manifesto:
não existe educação indígena de qualidade sem respeito à língua.
E não existe respeito à língua sem espaço real para ela existir na escola.
A translinguagem, portanto, não é só uma metodologia — é uma disputa de projeto educativo.
Entre uma escola que traduz o mundo para o aluno…
e uma escola que permite ao aluno traduzir o mundo a partir de si.
Referência
MOREIRA, Sabrina Mendes; ALBUQUERQUE, Francisco Edviges. Educação escolar indígena sob a perspectiva da translinguagem. Revista Cocar, Belém, v. 24, n. 42, p. 1-15, 2026.
