Educomunicação emerge como estratégia de resistência contra invisibilização indígena no Novo Ensino Médio

A implementação do Novo Ensino Médio Indígena (NEMI) na Amazônia tem evidenciado um problema estrutural já conhecido, mas pouco enfrentado: a escola continua sendo um espaço de silenciamento das identidades indígenas. É o que aponta estudo desenvolvido na Universidade Federal do Amazonas (UFAM), que analisa a experiência da Escola Estadual Indígena Povo Hexkaryana.

A pesquisa revela um descompasso evidente entre o que está previsto nas políticas educacionais e o que de fato acontece no cotidiano escolar. Embora o NEMI proponha uma educação intercultural, na prática persistem fragilidades comunicacionais, ausência de materiais didáticos em línguas indígenas e lacunas na formação docente — elementos que acabam reforçando a invisibilização dos saberes tradicionais.

O estudo mostra que a comunicação, longe de ser apenas um instrumento técnico, ocupa um papel político central nesse processo. Quando falha — ou quando é estruturada a partir de uma lógica dominante — ela não apenas transmite conteúdos: ela define quais conhecimentos são legitimados e quais são apagados.

Nesse cenário, a educomunicação aparece como estratégia de resistência. Ancorada em uma perspectiva crítica, ela propõe transformar a escola em um espaço de produção de sentidos, onde estudantes indígenas possam exercer autoria, fortalecer suas identidades etnolinguísticas e disputar narrativas dentro do ambiente educacional.

A análise, baseada em estudo de caso e abordagem qualitativa, evidencia que o problema não é apenas pedagógico, mas estrutural. A ausência de políticas efetivas de valorização das línguas indígenas e a reprodução de modelos curriculares padronizados acabam produzindo um efeito de assimilação cultural — aquele velho projeto de “incluir apagando”.

Ao tensionar o campo da comunicação dentro da escola, o trabalho aponta que resistir à invisibilização passa necessariamente por disputar os fluxos simbólicos: quem fala, em que língua, sobre o quê — e com que legitimidade.

No fundo, o que está em jogo não é só currículo, mas poder.

E a conclusão é quase um chamado: sem incorporar práticas educomunicativas críticas, o Novo Ensino Médio Indígena corre o risco de repetir, com nova roupagem, velhas estruturas de colonialidade no interior da escola.


Referência

ALBUQUERQUE, Sabrina Pinheiro Barbosa; RODRIGUES, Renan Albuquerque. Educomunicação e NEMI: uma proposta de resistência frente à invisibilização indígena na escola Hexkaryana. Revista e-Curriculum, São Paulo, v. 24, 2026. DOI: http://dx.doi.org/10.23925/1809-3876.2026v24e67632.


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