Pais expõem filhos nas redes sem perceber os riscos, alerta estudo sobre Instagram

Pesquisa jurídica aponta que a superexposição de crianças e adolescentes nas redes sociais pode comprometer privacidade, desenvolvimento emocional e até ampliar riscos de exploração digital

Fotos do primeiro dia de aula, vídeos engraçados, registros de festas, viagens e momentos cotidianos. O compartilhamento de imagens de filhos nas redes sociais tornou-se prática comum para milhões de famílias brasileiras. Mas até que ponto essa exposição é inofensiva? Um estudo desenvolvido na Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO) alerta que a chamada cultura do sharenting — termo usado para definir o compartilhamento excessivo de informações sobre crianças por seus responsáveis — pode gerar impactos profundos na vida dos menores.

Intitulada “A Exposição de Crianças e de Adolescentes no Instagram: desafios da mediação e do controle por responsáveis legais no ambiente digital”, a pesquisa da acadêmica Débora Lara da Silva analisa os riscos jurídicos, sociais e psicológicos da presença infantil nas plataformas digitais, especialmente no Instagram.

Segundo o estudo, o problema não está apenas no conteúdo publicado, mas na própria lógica das redes sociais, estruturadas para ampliar alcance, engajamento e permanência dos usuários, independentemente da idade ou vulnerabilidade de quem aparece nas publicações.

A infância virou conteúdo?

A pesquisa aponta que a arquitetura algorítmica das plataformas digitais favorece a circulação massiva de imagens e informações pessoais, criando um ambiente em que fotografias de crianças podem ser replicadas, compartilhadas e armazenadas indefinidamente por terceiros.

O estudo destaca que muitos pais acreditam estar apenas registrando momentos familiares, mas acabam criando uma identidade digital permanente para os filhos antes mesmo que eles tenham idade suficiente para compreender ou consentir com essa exposição.

Além disso, conteúdos infantis podem ser impulsionados pelos algoritmos para públicos desconhecidos, ampliando riscos relacionados à exploração da imagem, cyberbullying e até à atuação de criminosos digitais.

O papel dos algoritmos

Um dos pontos centrais da pesquisa é a crítica ao funcionamento das plataformas.

Segundo a autora, Instagram e outras redes sociais operam com sistemas automatizados projetados para maximizar engajamento, sem distinção efetiva entre usuários adultos e menores de idade. Isso faz com que conteúdos envolvendo crianças sejam tratados da mesma forma que qualquer outro material capaz de gerar interação.

Na prática, quanto maior o engajamento, maior a distribuição do conteúdo. E essa lógica pode transformar imagens infantis em ativos digitais amplamente disseminados, muitas vezes fora do controle das próprias famílias.

O que diz a legislação brasileira

A pesquisa lembra que a proteção da infância no ambiente digital possui respaldo em diversos instrumentos legais.

Entre eles estão:

  • Constituição Federal;
  • Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA);
  • Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD);
  • Marco Civil da Internet;
  • Estatuto Digital da Criança e do Adolescente, que entrou em vigor em 2026.

O estudo ressalta que o direito à imagem, à privacidade e à dignidade das crianças não pode ser relativizado nem mesmo pelos próprios responsáveis legais. A autoridade parental, segundo a pesquisa, deve ser exercida em consonância com o princípio do melhor interesse da criança.

Educação digital e responsabilidade compartilhada

A autora argumenta que a proteção efetiva da infância digital depende de uma atuação conjunta entre famílias, Estado, escolas, plataformas tecnológicas e sociedade civil.

Entre as estratégias defendidas estão:

  • Educação digital desde a infância;
  • Orientação parental qualificada;
  • Campanhas de conscientização;
  • Fiscalização das plataformas;
  • Regulamentação de algoritmos e mecanismos de recomendação;
  • Fortalecimento da atuação de órgãos de proteção à infância.

Mais do que controlar o uso das redes sociais, o estudo sugere uma mudança cultural: compreender que o direito à privacidade também pertence às crianças e que a exposição digital pode produzir consequências que ultrapassam a infância e acompanham os indivíduos ao longo da vida.

O desafio da infância na era dos algoritmos

A pesquisa conclui que a proteção integral prevista na legislação brasileira precisa ser reinterpretada à luz das novas tecnologias. Em um ambiente digital orientado por métricas de engajamento e monetização, a infância passou a enfrentar riscos inéditos, exigindo respostas jurídicas, educacionais e éticas igualmente inovadoras.

A discussão, portanto, vai além das redes sociais: trata-se de definir quais limites a sociedade está disposta a estabelecer entre a liberdade de compartilhar e o direito das crianças de crescerem sem ter cada etapa de suas vidas transformada em conteúdo permanente na internet.


Fonte

SILVA, Débora Lara da. A Exposição de Crianças e de Adolescentes no Instagram: desafios da mediação e do controle por responsáveis legais no ambiente digital. Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO), 2026.

Deixe um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

search previous next tag category expand menu location phone mail time cart zoom edit close