Oficina na Escola Estadual Indígena Jula Paré reuniu professores para elaborar materiais alinhados à cultura, à língua e aos saberes do povo Balatiponé
Rui Matos | Seduc-MT
A Secretaria de Estado de Educação de Mato Grosso (Seduc-MT), por meio da Unidade de Coordenação do Projeto Aprendizado Digital, Inclusivo e Sustentável (PADIS-MT), acompanhou, na última quarta-feira (24.6), a Oficina de Elaboração dos Cadernos do Acompanhamento Personalizado da Aprendizagem (APA) Indígena, realizada na Escola Estadual Indígena Jula Paré, na Aldeia Umutina, em Barra do Bugres.
A atividade foi organizada pela Coordenadoria de Educação Escolar Indígena (COEI/SUEI) e reuniu professores indígenas, gestores escolares, representantes da COEI, do Conselho de Educação Escolar Indígena de Mato Grosso (CEEI-MT) e da Diretoria Regional de Educação de Tangará da Serra (DRE/TGA).
O encontro teve como foco a produção de materiais pedagógicos voltados à recomposição das aprendizagens, considerando a realidade cultural, linguística e territorial do povo Balatiponé.
A proposta do APA Indígena nasceu a partir do trabalho do professor técnico-pedagógico da COEI, Joelson dos Santos Pereira, e do coordenador da COEI, Lucas de Albuquerque Oliveira.
A iniciativa parte da compreensão de que as ações de recomposição das aprendizagens precisam respeitar as especificidades socioculturais e pedagógicas das comunidades indígenas, sem reproduzir modelos prontos elaborados para outros contextos.
Na prática, os cadernos serão elaborados pelos próprios professores indígenas, com conteúdos relacionados à história, à língua, ao território, às práticas culturais, aos conhecimentos tradicionais e às formas de aprendizagem presentes nas comunidades. A proposta é que o material chegue à sala de aula com referências reconhecidas pelos estudantes e pelas famílias.
A ação integra o conjunto de iniciativas do PADIS voltadas ao fortalecimento da aprendizagem, à inclusão e à equidade na rede estadual. O trabalho tem como referência a metodologia Teaching at the Right Level (TaRL), apoiada pelo Banco Mundial, que orienta a identificação do nível real de aprendizagem dos estudantes para a organização de intervenções pedagógicas mais adequadas.
No caso da Educação Escolar Indígena, porém, a metodologia passa por uma construção própria. O APA mantém elementos como avaliação diagnóstica, agrupamento por níveis de aprendizagem e atividades direcionadas, mas os conteúdos são elaborados a partir do cotidiano dos alunos.
Durante a oficina, foram discutidas possibilidades de uso de narrativas tradicionais, grafismos, fauna, flora, organização comunitária, práticas de revitalização linguística e conhecimentos transmitidos entre gerações.
Os participantes defenderam que o material não fosse apenas uma adaptação ou tradução de conteúdos urbanos. Para os professores, a produção dos cadernos precisa nascer do diálogo com a comunidade, de modo que a alfabetização e a recomposição das aprendizagens ocorram com base em referências próximas à vida dos estudantes.
A oficina também reforçou o protagonismo dos educadores indígenas na construção do conhecimento escolar. Ao elaborarem seus próprios materiais, os professores contribuem para que a escola valorize a identidade do povo Balatiponé e fortaleça o vínculo entre a aprendizagem, a memória e o pertencimento.
Ao longo dos debates, também foram apontados desafios à consolidação da iniciativa. Entre eles estão o planejamento da produção dos materiais antes do início do ano letivo, a definição dos fluxos de revisão, editoração, publicação e distribuição dos cadernos, além da ampliação dos recursos pedagógicos para as salas do APA.
Outro ponto destacado foi a participação comunitária em todas as etapas do processo. Professores sugeriram que estudantes com habilidades artísticas pudessem colaborar com ilustrações, grafismos e outros elementos visuais, ampliando o caráter coletivo do material e aproximando ainda mais os cadernos da identidade da comunidade.
Para a equipe técnica do PADIS, a experiência desenvolvida na Escola Estadual Indígena Jula Paré mostra que é possível unir políticas de recomposição das aprendizagens à valorização da diversidade cultural.
A construção dos Cadernos APA Indígena representa um avanço ao combinar estratégias pedagógicas baseadas em evidências com materiais produzidos a partir dos saberes, das vivências e das identidades dos próprios povos indígenas.
A iniciativa também reforça o papel da Educação Escolar Indígena como espaço de aprendizagem intercultural, no qual o currículo dialoga com a realidade dos estudantes e contribui para a preservação do patrimônio cultural das comunidades.
Sobre o PADIS-MT
O Projeto Aprendizagem Digital, Inclusiva e Sustentável (PADIS-MT) integra a política EducAção 10 Anos e é desenvolvido pela Secretaria de Estado de Educação de Mato Grosso, com apoio do Banco Mundial. A iniciativa busca fortalecer a aprendizagem, a inclusão, a inovação pedagógica e a gestão orientada por resultados na rede estadual de ensino, articulando tecnologia, formação de profissionais da educação e políticas baseadas em evidências.
