Pesquisa brasileira defende que a concentração de riqueza exerce influência mais decisiva sobre governos e políticas públicas do que as disputas entre liberalismo, neoliberalismo e Estado de Bem-Estar Social.
Durante décadas, os debates sobre desenvolvimento econômico foram dominados pela disputa entre Estado e mercado, direita e esquerda, liberalismo e intervencionismo. Mas uma nova pesquisa propõe uma mudança radical nessa forma de enxergar a política contemporânea: o verdadeiro centro do poder talvez esteja na plutocracia — o governo exercido, direta ou indiretamente, pelos muito ricos.
Essa é a principal conclusão do artigo “Plutocracia como racionalidade de poder: uma análise do neoliberalismo e do Estado de Bem-Estar Social e o desenvolvimento”, desenvolvido pelas pesquisadoras Maria Paula Forteza Dias e Marisa Rossignoli. O estudo sustenta que a concentração do poder econômico explica melhor as desigualdades atuais e os limites da democracia do que as tradicionais correntes da economia política.
O debate pode estar olhando para o lugar errado
A pesquisa parte de uma provocação: será que os problemas sociais contemporâneos decorrem realmente do neoliberalismo ou da redução do papel do Estado? Para as autoras, essa explicação tornou-se insuficiente diante das transformações ocorridas nas últimas décadas.
Segundo o estudo, governos de diferentes orientações ideológicas frequentemente produzem resultados semelhantes quando grandes grupos econômicos conseguem exercer influência sobre decisões políticas, jurídicas e regulatórias. A hipótese central é que o verdadeiro fator estruturante está na concentração de poder econômico e não necessariamente no modelo econômico adotado por cada país.
O que é plutocracia?
O artigo define a plutocracia como uma estrutura em que indivíduos ou grupos extremamente ricos passam a influenciar decisões públicas por meio de seu poder financeiro, mesmo sem ocupar cargos políticos.
Essa influência pode ocorrer por diferentes mecanismos, como financiamento político, atuação de grupos de interesse, controle de setores estratégicos da economia, concentração dos meios de comunicação e capacidade de interferir na formulação de políticas públicas. Para as pesquisadoras, trata-se de um fenômeno presente em democracias, regimes intervencionistas e economias liberais, independentemente da ideologia oficialmente adotada.
De Foucault a Byung-Chul Han
A pesquisa dialoga com alguns dos principais pensadores contemporâneos para discutir como o poder econômico influencia a vida social.
Entre os autores analisados estão Michel Foucault, com os conceitos de biopolítica e governamentalidade; Achille Mbembe, ao discutir necropolítica; Byung-Chul Han, ao abordar a sociedade do cansaço; Zygmunt Bauman, com suas reflexões sobre a modernidade; e Amartya Sen, ao relacionar desenvolvimento e liberdade. O estudo também incorpora contribuições de economistas e intelectuais de diferentes perspectivas ideológicas, como Adam Smith, John Maynard Keynes, Roberto Campos e Eduardo Giannetti, buscando ampliar o debate para além das divisões tradicionais entre Estado e mercado.
Democracias mais vulneráveis
As autoras argumentam que, quando o poder econômico se concentra excessivamente, cresce também sua capacidade de influenciar instituições democráticas.
Nesse cenário, leis, políticas públicas e decisões governamentais podem passar a refletir interesses de grupos econômicos altamente organizados, reduzindo a capacidade das instituições de responder às demandas da sociedade em seu conjunto. O estudo sustenta que esse processo ajuda a explicar a persistência das desigualdades, mesmo em países com diferentes modelos de organização econômica.
Desenvolvimento exige limitar a captura do Estado
Na conclusão, a pesquisa afirma que o enfrentamento das desigualdades não depende apenas da escolha entre maior ou menor intervenção estatal.
O desafio, segundo as autoras, consiste em criar mecanismos institucionais capazes de impedir que a riqueza concentrada se transforme em poder político permanente. Para elas, somente instituições fortes, transparentes e capazes de limitar a captura do Estado por interesses econômicos poderão favorecer um modelo de desenvolvimento mais democrático, inclusivo e sustentável.
Mais do que propor uma nova leitura sobre o neoliberalismo, o estudo convida a repensar quem realmente exerce influência nas decisões que moldam as sociedades contemporâneas — deslocando o foco do debate ideológico para a estrutura de poder construída em torno da concentração da riqueza.
