Pesquisa identifica que dificuldades de comunicação, preconceito e falta de preparo intercultural ainda limitam o acesso de milhares de imigrantes aos serviços públicos de saúde, apesar da garantia constitucional de atendimento universal.
O Sistema Único de Saúde (SUS) é reconhecido internacionalmente por garantir atendimento universal e gratuito a todas as pessoas que vivem no Brasil. Na prática, porém, esse direito ainda encontra obstáculos quando o paciente é um imigrante. Uma revisão científica publicada na Revista Brasileira de Tecnologias Sociais mostra que barreiras linguísticas, preconceitos e a ausência de formação específica dos profissionais continuam dificultando o acesso dessa população aos serviços de saúde.
Realizado por pesquisadores da Universidade do Extremo Sul Catarinense (UNESC), o estudo revisou 18 pesquisas nacionais publicadas entre 2020 e 2025 para identificar quais são os principais desafios enfrentados por imigrantes e refugiados no SUS e quais estratégias podem tornar o atendimento mais inclusivo.
O idioma ainda é o maior obstáculo
Entre todos os problemas identificados, a barreira linguística apareceu como o principal desafio. Em mais de 70% dos estudos analisados, a dificuldade de comunicação entre profissionais e pacientes comprometeu desde a compreensão dos sintomas até o seguimento correto dos tratamentos.
Segundo os pesquisadores, a falta de intérpretes e de políticas linguísticas dentro das unidades de saúde pode levar a diagnósticos equivocados, dificuldades para explicar procedimentos médicos e até ao abandono do tratamento.
Preconceito e falta de preparo também afastam pacientes
A pesquisa mostra que o problema não se resume ao idioma.
Diversos estudos relataram episódios de preconceito institucional, desconhecimento das diferentes culturas e ausência de formação dos profissionais para lidar com populações migrantes. Em alguns casos, imigrantes foram vistos como “pacientes difíceis”, enquanto outros relataram insegurança ao procurar atendimento por medo de discriminação ou de terem seus documentos questionados.
Além disso, fatores como moradia precária, dificuldades financeiras, falta de endereço fixo e pouca informação sobre os próprios direitos tornam ainda mais complexo o acesso aos serviços públicos de saúde.
SUS precisa olhar para as diferenças culturais
O estudo defende que tratar todos de maneira igual nem sempre significa oferecer atendimento justo.
Os autores argumentam que fatores como nacionalidade, idioma, gênero, raça e condição socioeconômica influenciam diretamente a experiência dos imigrantes dentro do sistema de saúde. Por isso, propõem protocolos de acolhimento intercultural, treinamento permanente das equipes e maior utilização de ferramentas de tradução durante o atendimento.
Outra recomendação considerada inovadora é ampliar a participação de imigrantes como agentes comunitários de saúde, fortalecendo o vínculo entre as comunidades migrantes e as unidades do SUS.
PET-Saúde pode ser peça-chave na transformação
Os pesquisadores destacam que o Programa de Educação pelo Trabalho para a Saúde (PET-Saúde/Equidade) pode desempenhar papel estratégico na formação de profissionais mais preparados para atuar em contextos multiculturais.
A proposta inclui inserir temas relacionados à migração, refúgio, competência cultural e direitos humanos na formação universitária, além de incentivar experiências práticas em regiões que concentram maior número de imigrantes.
Um desafio que cresce com a migração
O estudo lembra que o Brasil registrava, até o final de 2024, mais de 1,8 milhão de registros ativos de migrantes, refugiados e solicitantes de refúgio. Esse cenário amplia a necessidade de adaptar os serviços públicos para uma realidade cada vez mais diversa e multicultural.
Na avaliação dos autores, garantir o acesso universal previsto na legislação brasileira exige ir além da abertura formal dos serviços. É necessário investir em formação profissional, infraestrutura de comunicação, políticas públicas específicas e combate às desigualdades estruturais para que o direito à saúde seja efetivamente assegurado a todos, independentemente de sua origem.
