Revisão de pesquisas publicada por cientistas da UFRPE mostra que comunicação organizacional deixou de ser apenas instrumento burocrático para se tornar peça-chave da transparência, da participação cidadã e da modernização da administração pública.
A comunicação na administração pública brasileira está deixando de ocupar um papel meramente informativo para assumir posição estratégica na relação entre Estado e sociedade. Essa é a principal conclusão de um estudo desenvolvido por pesquisadoras da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), que analisou a produção científica recente sobre o tema e identificou uma mudança significativa na forma como governos planejam e executam suas estratégias de comunicação.
O levantamento, baseado em uma pesquisa de estado da arte, examinou 34 trabalhos científicos publicados entre 2020 e 2025, revelando que a comunicação organizacional vem sendo reconhecida como elemento fundamental para ampliar a transparência, fortalecer a legitimidade das instituições públicas e incentivar a participação da população nas decisões governamentais.
Da burocracia ao diálogo com o cidadão
Segundo as autoras, a administração pública passou por profundas transformações nas últimas décadas. Modelos tradicionalmente burocráticos deram lugar a abordagens inspiradas na Nova Gestão Pública, que priorizam eficiência, resultados e foco no cidadão.
Nesse contexto, a comunicação deixou de cumprir apenas funções protocolares para tornar-se uma ferramenta de gestão capaz de aproximar governos e sociedade, facilitando o acesso à informação, a prestação de contas e a construção de relações mais transparentes.
A pesquisa destaca que esse movimento foi fortalecido por importantes marcos legais brasileiros, entre eles:
- Constituição Federal de 1988;
- Lei de Acesso à Informação (LAI);
- Marco Civil da Internet.
Esses instrumentos consolidaram o direito do cidadão à informação pública e estimularam a adoção de práticas comunicacionais mais abertas e participativas.
Comunicação digital impulsiona a modernização
Outro aspecto destacado pelo estudo é o avanço das plataformas digitais utilizadas pelo setor público.
Experiências como o ComunicaBR e o Conecta Recife demonstram como tecnologias digitais podem ampliar o diálogo entre governo e população, tornando serviços públicos mais acessíveis e eficientes.
Para as pesquisadoras, entretanto, a transformação digital só produz resultados efetivos quando acompanhada de planejamento estratégico e inclusão digital, evitando que parcelas da população permaneçam excluídas do acesso às informações governamentais.
Planos de comunicação ainda precisam avançar
Apesar do crescimento da produção científica sobre o tema, o estudo aponta que muitas organizações públicas ainda não possuem Planos de Comunicação Organizacional estruturados.
Segundo as autoras, a implementação desses planos representa um passo importante para integrar ações de comunicação às estratégias institucionais, garantindo maior coerência entre políticas públicas, transparência administrativa e relacionamento com os cidadãos.
Além disso, a pesquisa ressalta que ampliar o acesso da população aos canais digitais continua sendo um desafio para que os benefícios da comunicação pública sejam efetivamente universalizados.
Comunicação como instrumento democrático
Os resultados indicam que a comunicação organizacional deixou de ser considerada uma atividade secundária dentro da administração pública.
Hoje, ela é vista como elemento essencial para:
- fortalecer a confiança nas instituições públicas;
- ampliar a participação cidadã;
- aumentar a transparência governamental;
- melhorar a eficiência administrativa;
- consolidar práticas democráticas.
Na avaliação das pesquisadoras, investir em estratégias comunicacionais bem estruturadas pode contribuir significativamente para aproximar governos da sociedade e melhorar a qualidade da gestão pública.
Fonte: FEITOZA, Joyce Meyrelle Soares; CEOLIN, Alessandra Carla. Comunicação na Administração Pública: mapeamento de abordagens e tendências. Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), 2025.
