Ainda Me Pergunto por Rose Archangelo

Ainda me pergunto como seriam as ruas de Rio Claro se a cidade fosse governada por uma mulher.

Não é uma pergunta eleitoral.

É uma pergunta sobre perspectiva.

Ainda me pergunto se nossas prioridades seriam diferentes. Se olharíamos para os mesmos problemas da mesma forma. Se as decisões continuariam sendo tomadas pelos mesmos caminhos ou se novas perguntas surgiriam antes das respostas.

Faço essa reflexão em um momento curioso da história.

As mulheres são maioria da população brasileira. São também maioria do eleitorado. Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral, representam 52,47% dos eleitores do país, mais de 81 milhões de cidadãs aptas a votar. Somos maioria nas urnas.

Mas quando observamos os espaços de poder, a realidade muda.

Nas eleições municipais de 2024, apesar do crescimento da participação feminina, apenas 17,92% dos eleitos foram mulheres. Entre os prefeitos, elas representam cerca de 13% do total. Em outras palavras: a maioria da população continua sendo governada por uma minoria de representantes femininas.

Existe algo de contraditório nisso.

Talvez porque o problema nunca tenha sido a falta de mulheres capacitadas para governar.

As mulheres administram lares, empresas, escolas, hospitais, universidades, organizações sociais e repartições públicas. Estão presentes nos espaços onde a vida cotidiana realmente acontece.

Mesmo assim, a política institucional continua sendo um dos ambientes mais resistentes à igualdade de representação.

A prova disso é que, ainda hoje, o país precisa combater práticas como as candidaturas femininas fictícias, criadas apenas para cumprir formalmente a legislação eleitoral. Em 2024, mais de 700 municípios apresentaram irregularidades relacionadas ao cumprimento das cotas de gênero. Não estamos falando apenas de ausência de mulheres. Estamos falando de um sistema que muitas vezes ainda tenta transformá-las em números para preencher tabelas.

Mas talvez a questão mais importante não seja quantas mulheres ocupam cargos públicos.

Talvez a questão seja o que acontece quando experiências historicamente excluídas passam a participar das decisões coletivas.

O que acontece quando mães ajudam a formular políticas para a primeira infância?

O que acontece quando professoras participam mais intensamente das decisões sobre educação?

O que acontece quando trabalhadoras ajudam a definir prioridades econômicas?

O que acontece quando cuidadoras ajudam a pensar a saúde pública?

O que acontece quando mulheres deixam de ser apenas destinatárias das políticas públicas e passam a ser protagonistas de sua construção?

Não acredito que mulheres sejam melhores que homens.

Seria uma simplificação tão equivocada quanto aquela que durante séculos tentou justificar sua exclusão.

Mas acredito que democracias se tornam mais inteligentes quando conseguem ouvir mais vozes.

E talvez seja exatamente esse o desafio do nosso tempo.

Durante décadas, o Brasil foi governado por parlamentos, assembleias e câmaras municipais que não refletiam a composição real da sociedade brasileira. A política foi construída por poucos, para muitos.

A consequência está diante de nós: desigualdades persistentes, dificuldades de diálogo e uma população que frequentemente não se reconhece em seus representantes.

Por isso continuo me perguntando.

Como seriam as ruas de Rio Claro se a cidade fosse governada por uma mulher?

Como seriam nossas prioridades?

Como seriam nossos debates?

Como seriam nossas políticas públicas?

E vou além.

Como seria o Brasil se os plenários do Congresso Nacional refletissem verdadeiramente a presença das mulheres brasileiras?

Mães.

Professoras.

Empresárias.

Servidoras públicas.

Pesquisadoras.

Trabalhadoras.

Lideranças comunitárias.

Talvez não mudasse tudo.

Mas talvez mudasse aquilo que realmente importa: a forma como enxergamos os problemas e as pessoas que vivem com eles todos os dias.

A democracia não se fortalece quando todos pensam igual.

Ela se fortalece quando mais pessoas podem participar da construção do futuro.

E talvez seja exatamente essa a pergunta que ainda precisamos ter coragem de responder.

Referências

BRASIL. Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Dados do eleitorado brasileiro de 2024. Mulheres representam 52,47% do eleitorado nacional.

CÂMARA DOS DEPUTADOS. Estudo sobre participação feminina nas eleições municipais de 2024. Mulheres representam 17,92% dos eleitos.

SENADO FEDERAL. Levantamento sobre prefeitas eleitas em 2024. Mulheres governarão aproximadamente 13% dos municípios brasileiros.

OBSERVATÓRIO NACIONAL DA MULHER NA POLÍTICA. Relatório sobre descumprimento das cotas de gênero em mais de 700 municípios brasileiros nas eleições de 2024.

*Rose Archangelo é vó, mãe e filha. Professora de Escola Pública e Doutora em Educação.

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