Pesquisa da UFT mostra que diretoras de campus convivem com discriminação velada, dupla jornada e necessidade constante de provar sua capacidade para ocupar cargos de liderança.
As universidades públicas brasileiras são frequentemente associadas à produção do conhecimento, ao pensamento crítico e à defesa da igualdade. Mas, quando o assunto é liderança feminina, a realidade ainda está distante desse ideal.
Uma pesquisa realizada pela Universidade Federal do Tocantins (UFT) revela que mulheres que ocuparam diretorias de campus em uma instituição federal de ensino superior ainda enfrentam preconceitos, desvalorização profissional, discriminação velada e a necessidade permanente de provar que são capazes de liderar.
O estudo analisou as experiências de três ex-diretoras por meio de entrevistas em profundidade e identificou que os desafios ultrapassam questões administrativas, refletindo padrões culturais que continuam presentes até mesmo em ambientes universitários.
Liderança feminina ainda é vista com desconfiança
Um dos aspectos mais marcantes da pesquisa é a percepção compartilhada pelas entrevistadas de que estilos de liderança colaborativos e democráticos frequentemente são interpretados como sinal de fragilidade ou indecisão.
Enquanto homens costumam ser automaticamente reconhecidos como líderes, mulheres relatam que precisam demonstrar continuamente competência para conquistar o mesmo reconhecimento.
Uma das participantes resume essa percepção ao afirmar:
“O homem não precisa se impor, ele é respeitado de qualquer forma. A mulher pode aparentar fragilidade.”
Outra diretora contou que seu hábito de ouvir a equipe antes de decidir era frequentemente interpretado como falta de firmeza, quando, na verdade, fazia parte de um modelo de gestão baseado no diálogo e na participação coletiva.
A dupla jornada continua sendo um dos maiores obstáculos
O estudo também evidencia que a chamada “dupla jornada” permanece como um dos principais desafios para mulheres em cargos de liderança.
Além das responsabilidades administrativas, as entrevistadas relataram a necessidade de conciliar carreira, cuidados familiares, responsabilidades domésticas e autocuidado.
Segundo os pesquisadores, essa sobrecarga não representa apenas um problema individual, mas uma consequência de estruturas sociais que continuam atribuindo às mulheres a maior parte das atividades de cuidado.
Preconceito nem sempre aparece de forma explícita
Outro resultado chama atenção para a existência de discriminações sutis, difíceis de identificar formalmente, mas recorrentes no cotidiano institucional.
As participantes relataram episódios como:
- questionamentos sobre sua capacidade de liderança;
- demora ou menor atenção às suas solicitações;
- necessidade de reafirmar constantemente sua autoridade;
- comentários depreciativos sobre sua atuação;
- assédio moral e violência simbólica em situações específicas.
Para os autores, essas experiências ilustram o chamado “labirinto de barreiras”, conceito utilizado para explicar obstáculos invisíveis que dificultam a ascensão feminina a cargos de poder.
Mulheres tendem a liderar de forma mais colaborativa
Apesar dos desafios, a pesquisa identificou características comuns entre as diretoras entrevistadas.
As três afirmaram priorizar:
- decisões compartilhadas;
- diálogo permanente;
- escuta ativa;
- construção coletiva de soluções;
- sensibilidade para compreender diferentes demandas da comunidade acadêmica.
Segundo o estudo, essas competências fortalecem ambientes organizacionais mais inclusivos e favorecem processos decisórios mais participativos.
Falta política institucional para incentivar novas líderes
Embora as entrevistadas tenham reconhecido apoio individual de colegas e gestores durante suas trajetórias, todas apontaram uma lacuna importante: a inexistência de políticas institucionais estruturadas voltadas à formação e promoção de mulheres para cargos de liderança.
Na avaliação dos pesquisadores, o avanço da equidade de gênero depende não apenas da boa vontade das instituições, mas da criação de programas permanentes que incentivem o acesso, a permanência e o desenvolvimento de mulheres em funções estratégicas da administração pública.
Transformar a cultura institucional
A conclusão do estudo vai além da representatividade numérica.
Para os autores, ampliar a presença feminina em cargos de gestão significa promover mudanças culturais capazes de tornar as instituições públicas mais diversas, democráticas e preparadas para enfrentar desafios contemporâneos.
Mais do que ocupar espaços de poder, as mulheres entrevistadas demonstram que diferentes formas de exercer a liderança podem contribuir para uma administração pública mais participativa, inclusiva e eficiente.
Fonte: QUEIROZ, Samuel Gomes de; PACHECO, Flavio Augustus da Mota. Liderança, Gênero e Administração Pública: percepções e desafios de diretoras em uma instituição de ensino superior. Universidade Federal do Tocantins (UFT), 2026.
