Preservar a natureza pode render dinheiro? Estudo mostra como Mato Grosso do Sul aposta em um novo modelo de gestão pública

Pesquisa aponta que o pagamento por serviços ambientais transforma conservação em investimento, fortalece a economia rural e pode atrair recursos internacionais para o estado.

Durante décadas, a preservação ambiental foi tratada principalmente por meio de multas e restrições. Agora, um modelo que remunera quem protege a natureza começa a ganhar espaço na administração pública brasileira.

Um estudo desenvolvido por pesquisadores da Universidade Católica Dom Bosco (UCDB) mostra que o Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) está se consolidando em Mato Grosso do Sul como uma ferramenta estratégica de governança pública, sustentabilidade e desenvolvimento econômico, alinhada aos princípios internacionais de ESG (Environmental, Social and Governance).

Em vez de punir, o Estado passa a incentivar

O princípio do PSA é simples: proprietários rurais, comunidades tradicionais e outros agentes que preservam recursos naturais podem receber incentivos financeiros pelos benefícios ambientais que oferecem à sociedade.

Na prática, conservar nascentes, proteger áreas de vegetação nativa ou recuperar ecossistemas deixa de representar apenas um custo para o produtor e passa a gerar retorno econômico.

Segundo os autores, essa lógica substitui gradualmente políticas exclusivamente punitivas por mecanismos de incentivo capazes de produzir ganhos ambientais e econômicos ao mesmo tempo.

O Pantanal torna-se protagonista

O estudo destaca que Mato Grosso do Sul possui características que favorecem esse modelo.

Além da forte presença do agronegócio, o estado abriga parte significativa do Pantanal e do Cerrado, biomas estratégicos para a conservação da biodiversidade e dos recursos hídricos brasileiros.

Nos últimos anos, diversas leis estaduais passaram a fortalecer políticas ambientais voltadas à proteção desses ecossistemas, incluindo normas específicas para conservação do Pantanal, recuperação de nascentes e valorização econômica dos serviços ambientais.

ESG deixa de ser conceito empresarial

Embora normalmente associado às empresas, o conceito ESG também começa a orientar políticas públicas.

Segundo a pesquisa, o PSA fortalece simultaneamente os três pilares:

  • Ambiental: conservação da biodiversidade, recuperação de solos e proteção da água;
  • Social: geração de renda para pequenos produtores e comunidades locais;
  • Governança: criação de sistemas transparentes de monitoramento, auditoria e prestação de contas.

Essa integração aproxima a administração pública de padrões internacionais cada vez mais exigidos por investidores e organismos multilaterais.

Satélites ajudam a fiscalizar quem recebe

Outro aspecto destacado pelo estudo é o uso crescente de tecnologias de monitoramento.

Imagens de satélite, sensoriamento remoto e sistemas de informação geográfica permitem verificar se a área protegida continua preservada antes da liberação dos pagamentos.

Segundo os pesquisadores, isso reduz desperdícios de recursos públicos e fortalece a credibilidade do programa.

Sustentabilidade também pode atrair investimentos

A pesquisa afirma que políticas ambientais bem estruturadas produzem impactos que vão além da conservação.

Ao consolidar práticas de ESG na administração pública, Mato Grosso do Sul melhora sua capacidade de atrair investimentos verdes, financiamentos internacionais e parcerias público-privadas voltadas ao desenvolvimento sustentável.

Na avaliação dos autores, esse movimento posiciona o estado como uma referência nacional em governança ambiental.

Um modelo que pode inspirar outros estados

O estudo conclui que o Pagamento por Serviços Ambientais deixou de ser apenas uma política de preservação ecológica.

Hoje, ele representa uma estratégia de gestão pública capaz de integrar inovação, transparência, justiça social e desenvolvimento econômico.

Para os pesquisadores, ampliar a integração entre órgãos ambientais, fazendários e sistemas digitais será decisivo para consolidar Mato Grosso do Sul como referência brasileira em sustentabilidade e governança pública.


Fonte: MIQUILINO, Carmem Verônica Fanaia; GARCIA, Yara Lígia Bambil Daros; NOGUEIRA, Micaella Lima; COSTA, Reginaldo Brito. Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) como vetor de ESG na gestão pública: uma análise estratégica no Estado de Mato Grosso do Sul. Universidade Católica Dom Bosco (UCDB), 2026.

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