Pesquisa da UFSC afirma que reduzir o yoga a posturas e exercícios físicos empobrece seu potencial terapêutico e limita sua contribuição à saúde coletiva
O yoga tornou-se uma das Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS) mais difundidas no Sistema Único de Saúde (SUS). Entretanto, um estudo publicado na revista Saúde e Sociedade sustenta que a forma como essa prática vem sendo incorporada aos serviços públicos pode estar afastando o yoga de sua tradição original.
Segundo os pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), a crescente medicalização e cientificização do yoga transformaram uma tradição filosófica voltada à compreensão do sofrimento humano em um conjunto de técnicas destinadas principalmente ao relaxamento, ao controle do estresse e à melhora de indicadores biomédicos.
Para os autores, essa mudança reduz significativamente o alcance terapêutico e pedagógico da prática.
Do caminho filosófico ao exercício físico
O artigo argumenta que, ao longo das últimas décadas, o yoga passou por um processo de adaptação aos parâmetros da medicina baseada em evidências.
Nesse movimento, práticas corporais, exercícios respiratórios e meditação ganharam protagonismo, enquanto elementos centrais da tradição védica — como reflexão ética, autoconhecimento, oralidade e investigação sobre a natureza do sofrimento — foram gradualmente deixados em segundo plano.
Segundo os autores, o resultado foi um “yoga de laboratório”, estruturado para produzir resultados mensuráveis, como redução da pressão arterial, frequência cardíaca e ansiedade, mas frequentemente desvinculado de seu contexto filosófico original.
A crítica não é à ciência
Os pesquisadores deixam claro que o artigo não questiona os benefícios clínicos do yoga.
Ao contrário, reconhecem a importância das pesquisas científicas que demonstram seus efeitos positivos sobre diversas condições de saúde.
A crítica dirige-se à redução da prática exclusivamente à linguagem biomédica, processo que, segundo o estudo, empobrece sua dimensão simbólica, ética e existencial.
O que muda para o SUS
A pesquisa propõe que as aulas de yoga nas unidades de saúde passem a incorporar momentos de diálogo entre os participantes.
Mais do que ensinar posturas, os autores sugerem que os grupos se tornem espaços para discutir experiências de sofrimento, desejos, relações sociais e questões culturais que influenciam diretamente a saúde física e mental.
Essa abordagem aproxima o yoga de uma perspectiva hermenêutica, em que a interpretação da experiência vivida passa a integrar o próprio processo terapêutico.
A experiência como evidência
Outro aspecto inovador do estudo é a defesa de que a experiência subjetiva também possui valor epistemológico.
Inspirados na tradição védica, os pesquisadores argumentam que determinadas formas de conhecimento não podem ser reduzidas apenas a exames laboratoriais ou indicadores fisiológicos.
Nesse contexto, a transformação interior do praticante, a compreensão de seus desejos e a mudança na forma de lidar com o sofrimento também constituem evidências relevantes do processo terapêutico.
Saúde coletiva e cuidado integral
Os autores defendem ainda que o yoga pode contribuir para fortalecer princípios históricos do SUS, especialmente aqueles relacionados à integralidade do cuidado.
Para isso, propõem uma prática menos centrada apenas no indivíduo e mais comprometida com aspectos éticos, comunitários e sociais da saúde, aproximando o yoga das discussões sobre determinantes sociais, promoção da saúde e educação popular.
Um debate que vai além do yoga
Embora trate especificamente da prática do yoga, o estudo lança uma reflexão mais ampla sobre a incorporação de saberes tradicionais aos sistemas públicos de saúde.
Segundo os autores, reconhecer diferentes formas de produção do conhecimento pode ampliar as possibilidades de cuidado sem abandonar o rigor científico, desde que essas tradições sejam compreendidas em seus próprios contextos culturais e filosóficos.
Fonte da pesquisa
PEREIRA, Léo Fernandes; TESSER, Charles Dalcanale. Potenciais da epistemologia védica para a prática de yoga no SUS. Saúde e Sociedade, São Paulo, v. 35, n. 1, e240712, 2026. DOI: 10.1590/S0104-12902026240712pt.
