Mais de 90% dos pacientes pós-bariátricos querem cirurgia reparadora, mas acesso pelo SUS ainda é limitado

Estudo aponta desigualdade regional na oferta de procedimentos e defende que cirurgia plástica pós-bariátrica seja compreendida como parte do tratamento integral da obesidade

A cirurgia bariátrica pode representar uma mudança profunda na saúde de pessoas com obesidade grave, mas o tratamento nem sempre termina com a perda de peso. Excesso de pele, dificuldades de mobilidade e higiene, infecções cutâneas, desconforto físico e impactos sobre autoestima e imagem corporal podem permanecer depois do emagrecimento.

Nesse cenário, uma revisão científica publicada em 2026 chama atenção para um problema dentro do Sistema Único de Saúde (SUS): embora exista elevada procura pelas cirurgias plásticas reconstrutivas após a bariátrica, o acesso aos procedimentos continua limitado e desigual no Brasil.

O estudo “Acesso à cirurgia plástica reconstrutiva pós-bariátrica no Sistema Único de Saúde (SUS)” foi desenvolvido por Beatriz Elena Serrano Ayala, Carolina Santucci Queiroga, Isadora Pires Zacheu, Patrícia Giovana Archanjo, Giulia Luchetta Pexe, Rhayssa Moura Pertel, Wilker Maciel Sampaio e Yasmin Toledo de Carvalho Costa, vinculados à Universidade Anhembi Morumbi (UAM).

Publicado na revista Cuadernos de Educación y Desarrollo, o trabalho analisou estudos científicos sobre o acesso e os efeitos desses procedimentos entre pacientes submetidos à cirurgia bariátrica no sistema público brasileiro.

90,7% demonstraram interesse pela cirurgia reparadora

Um dos números destacados pela revisão vem de estudo publicado em 2025. Entre os pacientes pós-bariátricos avaliados, 90,7% demonstraram interesse em realizar cirurgia plástica reparadora, principalmente nas regiões do abdome e das mamas.

O resultado ajuda a dimensionar uma demanda que pode permanecer pouco visível depois da bariátrica.

A revisão explica que a perda acentuada de peso frequentemente deixa excesso de pele em regiões como abdome, mamas, braços e coxas. Além da questão estética, essas alterações podem estar relacionadas a dificuldade de higiene, dermatites e infecções recorrentes, limitações de mobilidade, desconforto físico e impactos psicológicos e sociais.

Por isso, os autores sustentam que a cirurgia reconstrutiva deve ser compreendida como parte da abordagem multidisciplinar do paciente pós-bariátrico.

Apenas 12.717 procedimentos entre 2007 e 2021

Outro dado dimensiona o gargalo existente no sistema público.

Segundo estudo analisado pelos pesquisadores, 12.717 procedimentos reconstrutivos pós-bariátricos foram realizados pelo SUS entre 2007 e 2021.

Os autores destacam que esse número é significativamente inferior à quantidade de cirurgias bariátricas realizadas no mesmo período. A análise também identificou concentração da assistência: a região Sudeste respondeu por quase metade dos procedimentos reparadores avaliados naquele estudo.

Essa distribuição reforça uma das principais conclusões da revisão: ter acesso à cirurgia bariátrica não significa necessariamente conseguir completar posteriormente todas as etapas do tratamento.

Abdômen concentra maior procura

Os procedimentos envolvendo o abdômen aparecem reiteradamente entre os mais realizados.

Um dos trabalhos revisados analisou 6.307 cirurgias plásticas pós-bariátricas realizadas pelo SUS entre 2015 e 2020. A dermolipectomia abdominal representou 53,7% dos procedimentos, seguida pela mamoplastia, com 22,3%.

Outro estudo, realizado com 316 pacientes atendidos em hospital público do Centro-Oeste, encontrou resultado ainda mais expressivo: 75,7% foram submetidos à abdominoplastia.

Segundo os pesquisadores, o predomínio das intervenções abdominais pode estar associado não apenas à aparência, mas aos efeitos funcionais e dermatológicos provocados pelo excesso de pele nessa região.

Cirurgia reparadora não é apenas questão estética

Esse talvez seja o ponto central levantado pelo artigo.

Os estudos analisados associam os procedimentos reconstrutivos a melhorias funcionais, psicológicas e na qualidade de vida. Os autores argumentam, portanto, que a cirurgia pós-bariátrica deve integrar o tratamento da obesidade e não ser reduzida a uma intervenção exclusivamente estética.

Isso não significa que os procedimentos sejam isentos de risco. A revisão aponta complicações como problemas de cicatrização, deiscência, infecção e necrose. Em um dos estudos, pacientes nos quais foram retirados 2 quilos ou mais de tecido abdominal apresentaram complicações em 46,7% dos casos, contra 19,4% entre aqueles com menor volume removido.

Os achados reforçam, segundo os pesquisadores, a importância da avaliação pré-operatória, acompanhamento nutricional e seleção adequada dos pacientes.

Estudo defende ampliação e descentralização no SUS

A revisão integrativa pesquisou as bases PubMed Central e SciELO e inicialmente encontrou 21 trabalhos. Após os critérios de seleção, seis estudos foram incluídos na análise final.

Os próprios autores reconhecem como limitações a escassez e a heterogeneidade das pesquisas disponíveis sobre o tema. Portanto, os números apresentados não devem ser interpretados como um levantamento nacional atualizado de toda a demanda reprimida do SUS, mas como evidências reunidas a partir da literatura científica selecionada.

Ainda assim, a conclusão é clara: a oferta de cirurgias plásticas pós-bariátricas pelo SUS não acompanha a demanda potencial e apresenta desigualdades regionais.

Os pesquisadores defendem a ampliação e descentralização dos serviços especializados como caminhos para aumentar a equidade no acesso e garantir continuidade ao cuidado das pessoas submetidas à cirurgia bariátrica.

Fonte: AYALA, Beatriz Elena Serrano et al. Acesso à cirurgia plástica reconstrutiva pós-bariátrica no Sistema Único de Saúde (SUS). Cuadernos de Educación y Desarrollo, v. 18, n. 7, p. 1–11, 2026. DOI: 10.55905/cuadv18n7-009.

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