81% dos alunos de escola pública pesquisada não tinham computador em casa, mas 94% usavam celular

Estudo no Rio Grande do Sul mostra que estar conectado não significa dominar ferramentas digitais; intervenção com atividades desplugadas, eletrônica, Makey Makey e Arduino encontrou indícios de avanço no letramento digital e na autoria tecnológica

Ter um smartphone nas mãos não significa necessariamente estar incluído digitalmente. Uma pesquisa realizada com 100 estudantes de 11 a 14 anos de uma escola pública de Santo Ângelo, no Rio Grande do Sul, encontrou um contraste expressivo: 94% dos alunos utilizavam celulares, enquanto 81,1% não possuíam computador em casa.

O diagnóstico também mostrou que, apesar do contato com celulares e ferramentas de inteligência artificial, grande parte dos estudantes tinha pouca familiaridade com sistemas operacionais e programas tradicionais utilizados para produtividade. Windows, Linux, Word e LibreOffice, por exemplo, eram desconhecidos pela maioria do grupo pesquisado.

Os resultados fazem parte do estudo “Do Desplugado ao Arduino: Práticas de Ensino de Computação para Superação da Exclusão Digital em Escola Pública”, publicado nos anais do XXXII Workshop de Informática na Escola (WIE), realizado no XV Congresso Brasileiro de Informática na Educação (CBIE 2026).

A pesquisa foi desenvolvida por Samuel Muller Forrati, Leonardo Carvalho Velaski, Karlise Soares Nascimento, Andrea Pereira, Daniele Kipper Santiago, Anderson Daniel Stochero, David Alessandro Vidalis Machado e Paula Elizangela Soares Pereira, ligados ao Instituto Federal Farroupilha (IFFar) – Campus Santo Ângelo e à Escola Municipal de Ensino Fundamental José Alcebíades de Oliveira.

Conectados pelo celular, distantes do computador

O diagnóstico inicial envolveu estudantes do 6º ao 9º ano inseridos em contexto de vulnerabilidade socioeconômica.

O questionário avaliou o contato dos adolescentes com dispositivos, sistemas operacionais, ferramentas de produtividade, inteligência artificial e plataformas educacionais.

Os gráficos apresentados pelo estudo tornam visível o paradoxo. Na página 4, os pesquisadores mostram o amplo uso de celulares e, ao mesmo tempo, registram que somente 18,9% dos respondentes disseram possuir computador em casa.

Para os autores, os dados evidenciam uma forma de exclusão digital que não pode ser medida apenas perguntando se crianças e adolescentes acessam a internet.

É possível estar conectado diariamente e, ainda assim, possuir pouca familiaridade com ferramentas necessárias para produzir textos, programar, compreender sistemas computacionais ou utilizar computadores de maneira mais ampla.

Escola tinha poucos equipamentos e problemas na rede elétrica

O desafio não estava apenas nas casas dos estudantes.

Durante a observação da escola, os pesquisadores identificaram escassez de equipamentos de informática, episódios frequentes de sobrecarga elétrica e ausência de um profissional exclusivo de Atendimento Educacional Especializado (AEE).

Diante dessas limitações, a proposta abandonou a ideia de que ensinar Computação exige necessariamente disponibilizar um computador para cada aluno.

A intervenção combinou Computação Desplugada, Cultura Maker e Aprendizagem Baseada em Projetos, utilizando também materiais de baixo custo e recicláveis.

As atividades foram desenvolvidas ao longo de dois semestres de 2025, no contexto do PIBID e de estágios curriculares de licenciandos em Computação do IFFar.

Do fio e papelão ao robô com Arduino

A sequência começou com eletrônica básica.

Os estudantes aprenderam sobre eletricidade, multímetros, resistores e LEDs e utilizaram o Tinkercad para simular circuitos antes de construí-los fisicamente. Depois, participaram de atividades de soldagem de componentes eletrônicos.

O segundo projeto resultou em um tapete de dança interativo, inspirado em jogos como Dance Dance Revolution. Utilizando uma placa Makey Makey, papelão, papel-alumínio, fitas de cobre e outros materiais, os próprios alunos construíram sensores e a estrutura do equipamento.

Ao final, apresentaram o projeto para outras turmas e explicaram aos colegas como o corpo humano atuava no fechamento do circuito elétrico.

O nível de dificuldade aumentou posteriormente com a montagem de um robô sumô controlado por Arduino.

Quando os estudantes encontraram um defeito de fábrica no chassi do equipamento, o problema não encerrou a atividade. A turma modificou a estrutura e alterou o projeto original, acrescentando três sensores seguidores de linha.

Durante os testes, códigos abstratos passaram a produzir comportamentos concretos: identificar um obstáculo, avançar, perceber a borda da arena e recuar.

Alunos também desenvolveram tecnologia assistiva

A etapa final levou os estudantes a pensar em acessibilidade.

Os professores apresentaram uma pergunta: como um motorista surdo sabe que o sensor de ré está apitando?

A turma utilizou sensores ultrassônicos, LEDs e programação condicional para desenvolver um protótipo de “semáforo de garagem”, capaz de converter a distância de obstáculos em sinalização visual.

A intervenção também incluiu um estudante diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Os pesquisadores utilizaram trabalho em duplas e estratégias de previsibilidade sensorial. Nos testes, por exemplo, o estudante recebeu controle sobre a ativação do sistema.

Segundo os autores, a participação observada oferece um exemplo de como estratégias cooperativas podem favorecer práticas inclusivas no ensino de Computação.

Falta de computador não tornou o ensino impossível

Esse é um dos principais resultados pedagógicos apresentados pelo estudo.

Os pesquisadores concluem que a precariedade estrutural das escolas públicas periféricas representa uma limitação relevante, mas não inviabiliza necessariamente experiências significativas de ensino de Computação.

A passagem gradual de atividades analógicas e simulações virtuais para construções físicas ajudou a materializar conceitos abstratos.

As observações feitas durante as oficinas apontaram maior cooperação e envolvimento dos estudantes e forneceram indícios favoráveis ao fortalecimento do letramento digital e da autoria tecnológica.

Os autores são cautelosos, entretanto, quanto ao alcance dessa conclusão.

O trabalho é um relato de experiência e não apresenta uma avaliação experimental capaz de demonstrar causalmente que as oficinas produziram determinado ganho de aprendizagem. Os próprios pesquisadores apontam como etapa futura a utilização de instrumentos formais para investigar os efeitos das atividades sobre pensamento computacional, letramento digital e competências socioemocionais.

Acesso não é o mesmo que inclusão digital

Talvez a principal provocação do estudo esteja justamente nos dados obtidos antes das oficinas.

Em um grupo no qual 94% utilizavam celular, mais de oito em cada dez estudantes não tinham computador em casa.

Isso expõe uma dimensão menos visível da desigualdade tecnológica.

A exclusão digital contemporânea não ocorre somente entre quem está conectado e quem está desconectado. Ela também pode separar quem consegue consumir conteúdos por meio de dispositivos móveis daqueles que possuem condições, conhecimentos e ferramentas para produzir, programar, criar e modificar tecnologias.

E é justamente essa passagem — de consumidor para autor — que a experiência desenvolvida em Santo Ângelo buscou construir.

Referência: FORRATI, Samuel Muller et al. Do Desplugado ao Arduino: Práticas de Ensino de Computação para Superação da Exclusão Digital em Escola Pública. Anais do XXXII Workshop de Informática na Escola (WIE 2026), XV Congresso Brasileiro de Informática na Educação (CBIE 2026). DOI: 10.5753/wie.2026.28295.

Fonte: Anais do XXXII Workshop de Informática na Escola (WIE 2026) / Sociedade Brasileira de Computação.

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