Artigo publicado na revista Motrivivência analisa experiências no Espírito Santo e em Mato Grosso e defende formação docente, práticas antirracistas e revisão curricular para que a Lei 11.645/2008 saia do papel
Mais de 18 anos após a aprovação da Lei nº 11.645/2008, que tornou obrigatório o ensino das histórias e culturas afro-brasileiras e indígenas na educação básica, sua implementação ainda encontra obstáculos dentro das escolas. Na Educação Física, esses limites aparecem na formação dos professores, na seleção dos conteúdos e até na maneira como corpos, jogos, danças e outras práticas indígenas são apresentados aos estudantes.
É o que discutem Juliana Guimarães Saneto, doutora em Educação Física pela Unicamp, e Laís Cristina Barbosa Silva, doutoranda em Educação pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), no artigo “Educação Física e os povos indígenas: entre silenciamentos e práticas pedagógicas antirracistas”, publicado em 2026 na revista Motrivivência, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).
O estudo coloca lado a lado experiências desenvolvidas no Espírito Santo e em Mato Grosso para discutir uma questão incômoda: incluir ocasionalmente a temática indígena no currículo não significa, necessariamente, enfrentar o racismo.
O indígena que a escola ainda insiste em colocar no passado
Segundo as autoras, o racismo contra os povos indígenas continua presente nas instituições de ensino por meio de silenciamentos curriculares, estereótipos e representações que tratam esses povos como exóticos, atrasados, folclóricos ou pertencentes ao passado.
Na prática, isso pode transformar a própria inclusão da temática indígena em uma reprodução de estereótipos. Quando aparece apenas em datas comemorativas, como conteúdo lateral ou por meio de imagens genéricas, o currículo mantém justamente a invisibilização que a Lei 11.645 buscou combater.
O artigo destaca um dado capaz de desmontar rapidamente a ideia de um “indígena genérico”: o Censo de 2022 identificou no Brasil 391 povos ou etnias e 295 línguas indígenas. As autoras defendem que reconhecer essa diversidade é fundamental para superar representações homogeneizadoras ainda presentes desde a educação infantil.
Professores conhecem a lei, mas nem sempre sabem como colocá-la em prática
O problema não se resume à existência de uma legislação. Experiências analisadas em Mato Grosso e no Espírito Santo apontam um descompasso entre a obrigatoriedade legal e as condições oferecidas aos professores para desenvolver um trabalho crítico e intercultural.
Em Barra do Garças (MT), pesquisa anterior de Laís Cristina Barbosa Silva identificou que professores de Educação Física reconheciam a importância dos saberes indígenas, mas relatavam falta de formação inicial e continuada para transformar a Lei 11.645 em práticas pedagógicas concretas. Em Vila Velha (ES), levantamento com docentes também encontrou professores que, mesmo após anos de vigência da legislação, ainda desconheciam a lei.
Para as pesquisadoras, essa fragilidade formativa abre espaço tanto para a omissão quanto para abordagens generalistas, descontextualizadas e estereotipadas.
120 professores experimentaram outra possibilidade
Uma das experiências apresentadas pelo artigo ocorreu em Vila Velha durante 2025. Um ciclo de quatro encontros de formação continuada reuniu cerca de 120 professores da Educação Infantil e do Ensino Fundamental.
Em vez de trabalhar a temática indígena apenas teoricamente, a formação explorou jogos, brincadeiras, danças e lutas indígenas, articulando experiências corporais, reflexão e construção coletiva de possibilidades pedagógicas.
A Educação Física aparece, assim, como um campo particularmente importante para uma pedagogia antirracista porque trabalha diretamente com corpo, movimento, gestos e práticas corporais. Ela pode reproduzir uma visão colonial dos povos indígenas, mas também pode ser utilizada para questioná-la.
Em Mato Grosso, a língua também revelou a desigualdade
A experiência mato-grossense apresenta outra dimensão do problema. Uma das autoras relata sua atuação no Ensino Médio com estudantes Xavante em Barra do Garças.
Havia uma barreira concreta: muitos estudantes não dominavam plenamente o português, enquanto a professora não compreendia a língua Xavante. Apesar disso, a instituição operava como se todos os alunos compartilhassem o mesmo repertório linguístico e cultural.
Para as pesquisadoras, interpretar essa situação simplesmente como uma dificuldade individual do estudante ignora uma história de imposição linguística. A escola tanto pode contribuir para o enfraquecimento das línguas indígenas quanto participar de processos de preservação e revitalização.
E se o estudante indígena deixar de ser objeto e se tornar autor?
No Ensino Superior, uma experiência relatada pelas pesquisadoras aponta outra possibilidade pedagógica. Estudantes indígenas dos cursos de Educação Física e Pedagogia passaram a ser convidados a colaborar diretamente nas aulas, compartilhando práticas, costumes e experiências de suas comunidades.
A mudança parece simples, mas altera profundamente a relação pedagógica: o estudante deixa de aparecer apenas como alguém que precisa ser “incluído” e passa a ser reconhecido como sujeito produtor de conhecimento.
É justamente esse deslocamento que aproxima as experiências analisadas da chamada formação-ação intercultural: não basta acrescentar um conteúdo indígena a um currículo que continua funcionando segundo a mesma lógica. É necessário modificar relações, práticas e formas de reconhecer quem produz conhecimento.
Lei 11.645 precisa ir além do calendário escolar
Ao final, Saneto e Silva defendem que enfrentar o racismo contra os povos indígenas exige mais do que o cumprimento formal da legislação.
O estudo identifica manifestações do problema nas barreiras linguísticas, na formação insuficiente dos professores, na folclorização, na generalização dos povos indígenas, em materiais didáticos estereotipados e na permanência de uma organização educacional marcada por referências monoculturais e eurocentradas.
A saída proposta articula formação inicial, formação continuada e reorganização curricular, colocando a Educação Física como espaço estratégico para práticas interculturais, decoloniais e antirracistas.
A provocação deixada pelo estudo é especialmente pertinente para as escolas: ensinar sobre os povos indígenas não é fantasiar crianças em uma data comemorativa. É reconhecer povos contemporâneos, diversos e produtores de línguas, culturas, conhecimentos e práticas corporais próprias.
Fonte: SANETO, Juliana Guimarães; SILVA, Laís Cristina Barbosa. Educação Física e os povos indígenas: entre silenciamentos e práticas pedagógicas antirracistas. Motrivivência, Florianópolis, v. 38, n. 69, p. 1-19, 2026. O artigo foi recebido em 14 de junho, aprovado em 10 de julho e publicado em 1º de outubro de 2026.
