Pesquisa da UFRN analisa a influência do antropólogo Arthur Ramos na transformação da imagem de Palmares e de Zumbi na historiografia brasileira, revelando como a escrita da história participa da construção da identidade nacional.
Por Redação Portal Archa
O Quilombo dos Palmares, hoje reconhecido como um dos principais símbolos da resistência negra à escravidão no Brasil, nem sempre ocupou esse lugar na narrativa histórica nacional. Durante o século XIX, setores das elites políticas e intelectuais brasileiras interpretavam Palmares como uma ameaça à ordem e ao projeto de civilização que pretendiam construir.
A transformação dessa imagem, de inimigo da nação a símbolo de liberdade e resistência, é investigada na dissertação “A epopeia do negro brasileiro: a produção da República dos Palmares na escrita de Arthur Ramos”, desenvolvida pelo historiador Thyago Ruzemberg Gonzaga de Souza, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).
Defendida em setembro de 2014, sob orientação do professor Renato Amado Peixoto, a pesquisa examina como a produção intelectual do médico e antropólogo alagoano Arthur Ramos contribuiu para modificar as interpretações sobre Palmares durante o século XX.
O trabalho evidencia que a história não é construída apenas pelos acontecimentos, mas também pelas disputas em torno de seus significados.
De ameaça à civilização a símbolo nacional
Um dos principais argumentos da dissertação é que a valorização histórica de Palmares não ocorreu de maneira espontânea.
No final do século XIX, parte da historiografia brasileira estava comprometida com concepções de progresso e civilização que frequentemente marginalizavam a participação da população negra na formação do país.
Nesse contexto, Palmares podia ser apresentado como obstáculo à expansão colonial e à ordem social.
Ao longo do século XX, entretanto, essa interpretação passou por mudanças. O quilombo e seu líder mais conhecido, Zumbi, ganharam progressivamente destaque como referências de liberdade, resistência e participação negra na história nacional.
A pesquisa mostra que essa transformação envolveu a atuação de intelectuais, historiadores e instituições que produziram novas narrativas sobre o passado brasileiro.
O papel de Arthur Ramos na construção de uma nova narrativa
Arthur Ramos ocupa posição central na investigação.
O antropólogo foi responsável por trabalhos que ajudaram a deslocar o foco das narrativas sobre Palmares. Em vez de privilegiar os agentes responsáveis pela repressão e destruição do quilombo, sua interpretação atribuiu maior protagonismo aos próprios habitantes de Palmares.
Entre os documentos analisados estão a conferência “O espírito associativo do negro”, apresentada em 1938, e o capítulo “A República de Palmares”, publicado em 1939 no livro The Negro in Brazil.
Segundo a dissertação, Ramos interpretou a experiência palmarina como demonstração da capacidade de organização, solidariedade e resistência da população negra.
Essa perspectiva contribuiu para apresentar Palmares não apenas como um episódio de conflito colonial, mas como acontecimento relevante para compreender a formação histórica e cultural do Brasil.
O estudo também demonstra que Arthur Ramos não elaborou essa interpretação isoladamente. Sua produção dialogou com pesquisadores anteriores, incluindo Nina Rodrigues, e com autores vinculados às tradições historiográficas de Alagoas e Pernambuco.
A contribuição de Ramos esteve, em parte, na ampliação dessas interpretações para uma narrativa de alcance nacional.
Uma mudança importante, mas marcada pelas ideias de seu tempo
A dissertação também permite compreender as contradições presentes na produção intelectual brasileira sobre as relações raciais.
Embora Arthur Ramos tenha se afastado de aspectos das interpretações racistas associadas a Nina Rodrigues, sua obra permaneceu influenciada por conceitos de aculturação e integração racial característicos dos debates antropológicos de sua época.
Isso significa que a valorização de Palmares como símbolo da resistência negra não corresponde necessariamente às interpretações contemporâneas sobre autonomia política, racismo estrutural e desigualdade racial.
Em determinados momentos, a leitura de Ramos relacionava a experiência histórica dos quilombolas a um projeto de integração da população negra à sociedade nacional.
A distinção é relevante: reconhecer o protagonismo negro na história não significa, automaticamente, superar todas as concepções hierárquicas ou assimilacionistas que marcaram a produção intelectual do período.
A escrita da história também constrói identidades
A pesquisa foi desenvolvida no diálogo entre a História Cultural dos Espaços e a História da Historiografia.
Para examinar a produção de Arthur Ramos, o pesquisador mobilizou referências teóricas como Edward Said, Jacques Derrida e Michel de Certeau.
A proposta não foi simplesmente reconstruir os acontecimentos históricos de Palmares, mas compreender como esse território foi representado, interpretado e transformado em símbolo por diferentes autores.
Essa abordagem evidencia uma questão fundamental: os acontecimentos do passado não mudam, mas as perguntas feitas sobre eles, as fontes valorizadas e as interpretações construídas podem se transformar profundamente.
Assim, a imagem de Palmares como uma epopeia da população negra brasileira também resulta de processos de produção e circulação do conhecimento histórico.
A importância da circulação das ideias
Outro aspecto destacado na dissertação é a maneira como as interpretações de Arthur Ramos alcançaram diferentes públicos.
Embora The Negro in Brazil tenha sido publicado nos Estados Unidos em 1939 e sua edição brasileira tenha aparecido apenas em 1956, argumentos semelhantes circularam anteriormente por meio de conferências, artigos e outros livros do antropólogo.
Essa circulação ajudou a ampliar o alcance de sua interpretação de Palmares.
O pesquisador também identifica relações entre a perspectiva de Arthur Ramos e produções posteriores, incluindo trabalhos de Edison Carneiro sobre o quilombo.
Dessa maneira, a dissertação apresenta a mudança na imagem histórica de Palmares como resultado de uma construção intelectual coletiva, na qual Arthur Ramos desempenhou papel relevante, mas não exclusivo.
Por que essa pesquisa continua importante?
Embora defendida em 2014, a investigação contribui para debates contemporâneos sobre memória histórica, identidade nacional e representação da população negra.
Seu principal mérito está em demonstrar que a presença de determinados personagens e acontecimentos na memória coletiva depende também de quem escreve a história, das interpretações legitimadas e dos interesses culturais e políticos de cada época.
A trajetória historiográfica de Palmares ilustra como uma sociedade pode modificar profundamente sua compreensão do próprio passado.
Mais do que explicar a transformação de Zumbi em herói nacional, a pesquisa convida a refletir sobre os mecanismos pelos quais determinadas experiências históricas são silenciadas, reinterpretadas ou reconhecidas.
A história de Palmares, portanto, não diz respeito apenas à resistência contra a escravidão. Também revela uma disputa permanente sobre quem tem o direito de representar a nação e de participar de sua memória.
Fonte: SOUZA, Thyago Ruzemberg Gonzaga de. A epopeia do negro brasileiro: a produção da República dos Palmares na escrita de Arthur Ramos. Dissertação (Mestrado em História) — Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, 2014. Orientador: Prof. Dr. Renato Amado Peixoto.
