Pesquisa publicada em obra acadêmica de 2026 analisou 26 documentos científicos e aponta que a inovação tecnológica nas escolas depende de infraestrutura, formação de professores e políticas de inclusão digital.
Por Redação Portal Archa
A inteligência artificial (IA) promete transformar a educação, personalizando o ensino, auxiliando professores e ampliando as possibilidades de aprendizagem. Entretanto, sua introdução em sistemas educacionais marcados por desigualdades pode produzir um efeito contrário ao esperado: ampliar a distância entre estudantes que possuem acesso à tecnologia e aqueles que permanecem excluídos do ambiente digital.
Essa é uma das principais conclusões do estudo “A integração da Inteligência Artificial na educação em Moçambique: oportunidade de inovação pedagógica ou desafio para a inclusão digital?”, desenvolvido pelos pesquisadores Dionísio Ernesto Tomás e Bruno Miguel Ferreira Gonçalves.
O trabalho integra o livro Discussões Ibero-Latino-Americanas sobre Educação, Ensino e Tecnologia, publicado em 2026 pela Editora Unigranrio, e examina os desafios da incorporação da inteligência artificial ao sistema educacional moçambicano.
A investigação indica que a disponibilidade de ferramentas tecnológicas, isoladamente, não garante melhorias na aprendizagem. Para que a IA contribua efetivamente com a educação, são necessários investimentos em infraestrutura, conectividade, capacitação docente e políticas públicas capazes de reduzir desigualdades.
Pesquisa analisou 26 documentos científicos
Para compreender as oportunidades e os obstáculos da inteligência artificial na educação, os pesquisadores realizaram uma revisão narrativa da literatura científica, com abordagem qualitativa.
A investigação bibliográfica ocorreu entre 2 e 28 de junho de 2026 e consultou bases internacionais como Scopus, Web of Science, ERIC, ScienceDirect, SpringerLink e IEEE Xplore, além do Google Scholar.
Também foram considerados documentos institucionais da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e da União Africana.
Inicialmente, foram identificados 78 documentos. Após a exclusão de duplicatas e a análise dos critérios de seleção, 26 publicações compuseram o conjunto final da pesquisa.
A análise identificou três grandes dimensões: as aplicações da inteligência artificial na educação, seu potencial de inovação pedagógica e as condições necessárias para uma implementação inclusiva.
Personalização da aprendizagem é uma das principais oportunidades
Entre os benefícios identificados na literatura científica, destaca-se a possibilidade de adaptar conteúdos e estratégias de ensino às necessidades individuais dos estudantes.
Sistemas inteligentes de tutoria podem analisar informações sobre o desempenho acadêmico, identificar dificuldades específicas e recomendar atividades adequadas ao ritmo de aprendizagem de cada aluno.
Outras aplicações incluem a produção de materiais didáticos, a automatização de determinadas tarefas avaliativas e o acompanhamento do progresso escolar.
Para os pesquisadores, essas funcionalidades podem ser particularmente relevantes em Moçambique, onde o sistema educacional enfrenta desafios relacionados à quantidade de estudantes por professor, à heterogeneidade das turmas e à disponibilidade de recursos pedagógicos.
Entretanto, o estudo ressalta que o potencial tecnológico não deve ser confundido com resultados educacionais automaticamente positivos.
A eficácia dessas ferramentas depende de sua integração às práticas pedagógicas e da capacidade dos professores de utilizá-las criticamente.
Desigualdade digital ameaça ampliar diferenças entre estudantes
O principal alerta da pesquisa está relacionado às condições estruturais necessárias para incorporar a inteligência artificial ao cotidiano escolar.
Em Moçambique, persistem diferenças importantes entre regiões urbanas e rurais no acesso à internet, à eletricidade, a computadores e a outros equipamentos digitais.
Essas limitações podem comprometer a implementação de tecnologias educacionais avançadas, especialmente nas instituições que já enfrentam dificuldades para garantir condições básicas de funcionamento.
Nesse cenário, escolas com melhor infraestrutura tendem a apresentar maior capacidade de incorporar ferramentas de inteligência artificial, enquanto instituições com recursos limitados podem permanecer à margem dessas transformações.
O resultado potencial é um aprofundamento das desigualdades educacionais existentes.
A pesquisa enfatiza que a inclusão digital não consiste apenas em distribuir equipamentos ou disponibilizar conexão à internet. Ela envolve garantir que estudantes e professores desenvolvam competências para utilizar as tecnologias de maneira crítica, autônoma e pedagogicamente significativa.
Formação de professores é decisiva para o uso da IA
Outro resultado importante diz respeito ao papel dos profissionais da educação.
Os pesquisadores identificaram que a formação docente constitui uma das condições fundamentais para que a inteligência artificial produza benefícios educacionais.
Sem preparação adequada, ferramentas capazes de apoiar o planejamento de aulas, a avaliação e a personalização do ensino podem ser utilizadas de maneira superficial ou desconectada dos objetivos pedagógicos.
A investigação destaca que a integração tecnológica exige mais do que conhecimentos operacionais sobre plataformas digitais.
Os professores precisam compreender as possibilidades e limitações dessas ferramentas, avaliar criticamente os conteúdos produzidos e identificar situações em que a utilização da inteligência artificial pode comprometer a aprendizagem.
A perspectiva apresentada no estudo acompanha orientações internacionais que defendem a tecnologia como instrumento complementar ao trabalho docente, e não como substituta da interação humana no processo educativo.
Inovação tecnológica não significa, necessariamente, inclusão
Um dos argumentos centrais da pesquisa é que inovação pedagógica e inclusão digital não podem ser tratadas como processos independentes.
A introdução de tecnologias sofisticadas em escolas que ainda enfrentam problemas de conectividade, energia elétrica ou formação profissional pode criar novas formas de exclusão.
Por isso, os autores defendem que a expansão da inteligência artificial seja acompanhada de políticas educacionais orientadas pela equidade.
Essas políticas devem considerar as condições sociais, econômicas, institucionais e culturais das comunidades atendidas.
O estudo também destaca a necessidade de soluções adequadas aos diferentes contextos africanos, evitando a simples reprodução de modelos tecnológicos desenvolvidos para sistemas educacionais com infraestrutura mais avançada.
O que a pesquisa permite concluir?
Embora apresente uma análise relevante das oportunidades e dos riscos da inteligência artificial, o trabalho possui limitações metodológicas reconhecidas pelos próprios autores.
Por se tratar de uma revisão narrativa, a pesquisa não adotou um protocolo sistemático de seleção e avaliação dos estudos, o que restringe a reprodutibilidade e a abrangência das conclusões.
Além disso, não foram coletados dados diretamente em escolas moçambicanas.
Portanto, os resultados não demonstram que a inteligência artificial já tenha ampliado as desigualdades educacionais no país. Eles identificam um risco fundamentado nas condições estruturais existentes e nas evidências disponíveis na literatura científica.
Essa distinção é importante para compreender o alcance das conclusões.
Uma discussão que ultrapassa as fronteiras de Moçambique
Embora concentrada no contexto moçambicano, a investigação contribui para um debate internacional sobre o futuro da educação.
Países com grandes desigualdades sociais e educacionais enfrentam o desafio de incorporar novas tecnologias sem deixar para trás os estudantes que já encontram dificuldades de acesso ao conhecimento.
A experiência analisada demonstra que a transformação digital da educação não depende exclusivamente da evolução dos sistemas computacionais.
Ela exige decisões políticas, financiamento, planejamento institucional e valorização dos profissionais da educação.
O estudo reforça, assim, uma questão fundamental para gestores públicos e educadores: não basta perguntar o que a inteligência artificial pode fazer pela escola; é necessário perguntar quais escolas terão condições de utilizá-la e quem poderá se beneficiar dessa transformação.
Fonte científica: TOMÁS, Dionísio Ernesto; GONÇALVES, Bruno Miguel Ferreira. A integração da Inteligência Artificial na educação em Moçambique: oportunidade de inovação pedagógica ou desafio para a inclusão digital? In: CARVALHO, Felipe et al. (org.). Discussões Ibero-Latino-Americanas sobre Educação, Ensino e Tecnologia. Duque de Caxias: Editora Unigranrio, 2026, p. 172–183.
ISBN: 978-85-9549-508-1.
