Uma pesquisa desenvolvida na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas) concluiu que a autonomia conquistada pelo sistema municipal de educação de Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, não se traduziu plenamente em práticas educacionais capazes de fortalecer uma formação emancipatória dos estudantes.
A constatação faz parte da dissertação de mestrado da pesquisadora Adriene Aparecida Figueiredo Gomes, que analisou as políticas educacionais implementadas no município entre 2005 e 2020. O trabalho investigou a relação entre o chamado Projeto Político Representativo, adotado na rede municipal, e a construção de um sistema de ensino comprometido com a participação democrática, a valorização docente e a formação crítica dos cidadãos.
Segundo a pesquisa, a implantação do Sistema Municipal de Educação ampliou formalmente a autonomia administrativa da rede. Entretanto, ao longo do processo, políticas educacionais de caráter homogeneizador passaram a limitar a capacidade das escolas de responder às realidades específicas das diferentes comunidades do município.
A autora argumenta que essa dinâmica enfraqueceu a possibilidade de construção de políticas educacionais capazes de considerar as desigualdades territoriais existentes entre as regiões administrativas de Contagem. Como consequência, a rede municipal perdeu parte de sua capacidade de formular ações voltadas à equidade educacional.
O estudo também identificou fragilidades na elaboração e execução do Plano Municipal de Educação (PME). De acordo com a pesquisa, houve problemas relacionados ao diagnóstico inicial, ao planejamento das metas e ao comprometimento dos gestores públicos com sua implementação, gerando frustração entre profissionais da educação e comunidades escolares.
Outro ponto que chama atenção é a análise sobre a valorização do magistério. Embora a implantação do plano de carreira tenha representado avanços para os profissionais da educação, a dissertação conclui que a estrutura legal criada torna praticamente impossível que os professores alcancem os níveis máximos de progressão previstos. Pelos cálculos apresentados, seriam necessários aproximadamente 44 anos de exercício profissional para atingir o topo da carreira, enquanto o tempo de aposentadoria varia entre 25 e 30 anos de contribuição.
A pesquisa também revisita a história da educação brasileira e sustenta que a escola pública foi frequentemente utilizada como instrumento de manutenção de privilégios sociais ao longo da formação do país. A autora argumenta que mecanismos de exclusão baseados em renda, gênero, raça e escolarização ajudaram a restringir o acesso pleno à cidadania durante grande parte da história nacional.
Ao analisar o caso de Contagem, a dissertação sugere que os desafios contemporâneos da educação pública não se resumem ao financiamento ou à infraestrutura escolar. Questões relacionadas à participação democrática, à autonomia pedagógica e à efetiva escuta das comunidades escolares continuam sendo fatores decisivos para a construção de sistemas educacionais mais justos e inclusivos.
O trabalho também recupera episódios recentes das disputas políticas em torno da educação brasileira, incluindo debates sobre liberdade de ensinar, gestão democrática, diversidade e participação social na formulação das políticas públicas, demonstrando que a escola permanece como um dos principais espaços de disputa de projetos de sociedade no país.
Referência
GOMES, Adriene Aparecida Figueiredo. A educação como política de governo no município de Contagem-MG: o projeto político representativo como educação emancipatória. 2026. Dissertação (Mestrado em Educação) – Programa de Pós-Graduação em Educação, Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2026.
