Estudo publicado na Revista Ilustração propõe uma síntese entre autoridade docente, mediação pedagógica e uso crítico de algoritmos, reacendendo discussões sobre doutrinação, aprendizagem e futuro da educação digital
A transformação digital da educação voltou ao centro do debate acadêmico brasileiro. Um artigo publicado na edição de junho de 2026 da Revista Ilustração analisa as mudanças que vêm redefinindo o papel do professor diante do avanço das tecnologias digitais e da inteligência artificial, propondo uma reflexão crítica sobre os rumos da docência contemporânea.
Intitulado “De Freire aos Algoritmos: O Labirinto da Doutrinação e o Futuro da Educação Digital”, o estudo foi produzido por pesquisadores da Faculdade do Amazonas (FAM) e busca discutir três concepções que disputam espaço no cenário educacional atual: o professor como mediador da aprendizagem, como autoridade intelectual e como gestor de dados apoiado por tecnologias digitais.
Os autores argumentam que a docência vive um momento de transição acelerada. Se nas últimas décadas predominou a figura do professor-mediador, influenciada pelas pedagogias construtivistas e pelo pensamento de Paulo Freire, o avanço da inteligência artificial e das plataformas digitais estaria exigindo novas competências relacionadas à análise de dados, curadoria de informações e personalização do ensino.
Freire, mediação pedagógica e o debate sobre autoridade
Um dos pontos mais polêmicos do artigo está na crítica às interpretações consideradas radicais das pedagogias construtivistas e freirianas.
Os autores reconhecem a importância histórica de Paulo Freire na valorização do diálogo e da consciência crítica, mas argumentam que determinadas leituras contemporâneas teriam reduzido excessivamente o papel da autoridade docente, criando ambientes pedagógicos excessivamente centrados na autonomia do estudante.
Segundo o texto, embora o reconhecimento dos saberes prévios dos estudantes seja fundamental, parte significativa do conhecimento científico acumulado pela humanidade exige transmissão estruturada, orientação pedagógica e organização curricular. A aprendizagem de conteúdos complexos, afirmam os pesquisadores, dificilmente ocorre apenas por descoberta espontânea ou construção coletiva sem mediação especializada.
O estudo também aborda críticas à fragmentação curricular contemporânea, apontando que a multiplicidade de conteúdos e competências pode dificultar a construção de percursos de aprendizagem coerentes e significativos para os estudantes.
Evidências científicas e a retomada da autoridade docente
Na segunda parte da pesquisa, os autores recorrem a estudos da psicologia cognitiva e das ciências da aprendizagem para defender uma revalorização da autoridade intelectual do professor.
São citadas pesquisas do educador neozelandês John Hattie e da Teoria da Carga Cognitiva, desenvolvida por John Sweller e colaboradores, que indicam resultados positivos para metodologias que combinam instrução explícita, feedback frequente e orientação estruturada durante o processo de aprendizagem.
Nesse contexto, o professor é apresentado não como figura autoritária, mas como profissional que detém conhecimentos especializados capazes de orientar o estudante na construção de competências cognitivas complexas.
Os autores defendem que essa autoridade pedagógica não representa opressão, mas uma condição necessária para que os alunos desenvolvam autonomia intelectual baseada em conhecimento sólido e não apenas em percepções subjetivas.
Inteligência artificial e a ascensão da educação orientada por dados
Outro eixo central do artigo é a crescente influência da inteligência artificial sobre os sistemas educacionais.
A pesquisa analisa o avanço de plataformas adaptativas, sistemas tutores inteligentes e ferramentas de mineração de dados educacionais capazes de monitorar o desempenho dos estudantes em tempo real e sugerir percursos personalizados de aprendizagem.
Os autores reconhecem o potencial dessas tecnologias para ampliar o acompanhamento individualizado dos alunos, identificar dificuldades de aprendizagem e apoiar decisões pedagógicas. No entanto, alertam para riscos associados à excessiva dependência dos algoritmos.
Entre as preocupações levantadas estão a classificação automática dos estudantes em perfis padronizados, a redução da complexidade humana a indicadores estatísticos e a possibilidade de reforço de padrões preexistentes por meio das recomendações geradas pelos sistemas digitais.
Segundo o estudo, a chamada educação personalizada pode esconder processos de homogeneização invisíveis, nos quais a autonomia do estudante é limitada pelas próprias lógicas algorítmicas que orientam seu percurso formativo.
O professor do futuro
A principal conclusão do artigo é que nenhuma das três perspectivas analisadas é suficiente isoladamente.
Para os pesquisadores, o professor do futuro deverá reunir características de mediador, autoridade intelectual e usuário crítico das tecnologias digitais, articulando essas dimensões em torno de um projeto educacional centrado no desenvolvimento humano integral.
O modelo defendido pelos autores é o do “designer instrucional humanista”, profissional capaz de combinar conhecimentos pedagógicos, domínio disciplinar, sensibilidade social e compreensão crítica dos algoritmos que passam a influenciar os processos educativos.
O texto também destaca a necessidade de reformulação dos cursos de formação docente, incorporando conteúdos relacionados à inteligência artificial, análise de dados educacionais e ética digital, sem abandonar fundamentos históricos da pedagogia e das ciências humanas.
Educação digital, mas humana
Ao final, o estudo sustenta que o avanço tecnológico não elimina a centralidade do professor.
Embora a educação do século XXI seja inevitavelmente digital, os autores argumentam que ela continuará dependendo da capacidade humana de formar pensamento crítico, promover empatia, orientar escolhas éticas e construir vínculos significativos entre educadores e estudantes.
Em um cenário marcado pela expansão da inteligência artificial, da hiperconectividade e da disputa por narrativas sobre o papel da escola, o artigo reforça uma discussão que promete permanecer no centro das políticas educacionais nos próximos anos: afinal, quem educa na era dos algoritmos?
Fonte: ALVES, Marvyson Darley Albuquerque et al. De Freire aos Algoritmos: O Labirinto da Doutrinação e o Futuro da Educação Digital. Revista Ilustração, v. 7, n. 6, p. 207-219, 2026. DOI: https://doi.org/10.46550/ilustracao.v7i6.681.
