Estudo identifica ganhos de eficiência em alguns casos, mas alerta que resultados dependem da capacidade do Estado de fiscalizar, regular e cobrar desempenho
A adoção de Parcerias Público-Privadas (PPPs) e Organizações Sociais (OS) tornou-se uma das principais estratégias para modernizar a gestão hospitalar pública no Brasil nas últimas décadas. Mas esses modelos realmente entregam hospitais mais eficientes?
Uma revisão sistemática publicada na Revista Observatorio de la Economía Latinoamericana conclui que a resposta está longe de ser simples. Segundo os pesquisadores, não há evidências de que PPPs e Organizações Sociais produzam melhores resultados automaticamente. Os benefícios observados dependem, sobretudo, da qualidade da governança pública, da fiscalização estatal e do desenho dos contratos.
O estudo foi conduzido por pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), que analisaram criticamente a produção científica nacional e internacional sobre modelos alternativos de gestão hospitalar.
Eficiência existe, mas não é automática
Após revisar dezenas de pesquisas publicadas entre 2000 e 2025, os autores identificaram que PPPs e OS podem gerar ganhos importantes em áreas como:
- gestão administrativa;
- manutenção hospitalar;
- logística;
- contratação de profissionais;
- gestão financeira.
No entanto, os pesquisadores ressaltam que esses ganhos não são universais nem automaticamente replicáveis, dependendo da existência de metas claras, indicadores auditáveis e contratos bem estruturados.
Governança aparece como fator decisivo
Entre todas as variáveis analisadas, uma se destacou acima das demais: a capacidade do Estado de exercer controle.
Segundo a revisão, fragilidades na fiscalização, no monitoramento e na transparência comprometem diretamente o desempenho das PPPs e das Organizações Sociais. Em contratos complexos, a assimetria de informações entre gestores públicos e parceiros privados pode reduzir significativamente a capacidade do poder público de acompanhar resultados e corrigir problemas.
Qualidade do atendimento ainda carece de evidências
Outro achado importante diz respeito à qualidade assistencial.
A pesquisa conclui que boa parte dos estudos disponíveis utiliza indicadores indiretos, como produtividade, tempo de espera e custos operacionais. Em contrapartida, aspectos essenciais da assistência, como segurança do paciente, continuidade do cuidado e desfechos clínicos, ainda são pouco avaliados pela literatura científica.
Para os autores, essa lacuna impede afirmar que modelos alternativos produzam atendimento superior ao da administração direta.
Sustentabilidade financeira também gera preocupação
A revisão aponta ainda que contratos de longo prazo podem trazer estabilidade para investimentos, mas reduzem a flexibilidade do Estado diante de mudanças econômicas, epidemiológicas ou tecnológicas.
No caso das Organizações Sociais, os pesquisadores identificam maior agilidade administrativa, porém alertam para riscos relacionados à precarização das relações de trabalho e ao enfraquecimento dos mecanismos de controle público.
Revisão analisou milhares de estudos
Para produzir a revisão sistemática, os autores pesquisaram as bases SciELO, PubMed, Google Scholar e Portal de Periódicos CAPES.
O processo identificou 35.727 registros científicos. Após sucessivas etapas de filtragem, remoção de duplicidades e aplicação do protocolo internacional PRISMA, apenas 16 estudos atenderam aos critérios metodológicos e compuseram a análise final.
Debate precisa sair da ideologia
Um dos principais méritos da pesquisa é demonstrar que a discussão sobre PPPs e Organizações Sociais não pode ser reduzida à oposição entre “gestão pública” e “gestão privada”.
Segundo os autores, a literatura científica indica que eficiência, qualidade assistencial e sustentabilidade financeira dependem menos do modelo jurídico adotado e muito mais da capacidade institucional do Estado para regular contratos, monitorar indicadores e garantir transparência na aplicação dos recursos públicos.
Fonte da pesquisa
DANTAS, Arliandro Ramon da Fonseca Pereira et al. Eficiência, qualidade e governança na gestão hospitalar pública: uma revisão sistemática sobre parcerias público-privadas e organizações sociais. Revista Observatorio de la Economía Latinoamericana, Curitiba, v. 24, n. 4, p. 1-22, 2026. DOI: 10.55905/oelv24n4-035.
