IA pode tornar a gestão pública mais eficiente, mas pesquisa alerta para desafios éticos e de governança

Estudo aponta que Inteligência Artificial fortalece decisões baseadas em evidências, otimiza processos administrativos e amplia a capacidade de planejamento do Estado, desde que sua adoção seja acompanhada de transparência, segurança de dados e capacitação dos servidores.

A Inteligência Artificial (IA) tem potencial para transformar a administração pública brasileira, tornando a tomada de decisões mais eficiente, estratégica e orientada por dados. Essa é a principal conclusão de um estudo publicado na Aposta: Revista de Ciencias Sociales, que analisa como tecnologias inteligentes podem contribuir para a modernização da gestão pública sem substituir o papel dos gestores humanos.

Assinado pelos pesquisadores Fred Klaus Batista de Oliveira Monteiro, Adriana da Costa Sousa, Luis Fernando Moreira e Luan Andrade de Queiroz, o trabalho mostra que a chamada Administração Pública Baseada em Dados (Data-Driven Public Administration) representa uma mudança de paradigma na forma como governos planejam políticas públicas, distribuem recursos e respondem às demandas da sociedade.

IA como ferramenta estratégica — e não substituta do gestor

O estudo reforça que a Inteligência Artificial deve ser compreendida como uma ferramenta de apoio às decisões governamentais, capaz de processar grandes volumes de informações, identificar padrões, realizar análises preditivas e transformar dados dispersos em conhecimento útil para gestores públicos.

Segundo os autores, isso permite reduzir incertezas, melhorar o planejamento governamental e tornar a administração mais preventiva e menos reativa. Entretanto, a decisão final continua dependendo da avaliação humana, já que políticas públicas envolvem fatores sociais, políticos e éticos que extrapolam a capacidade dos algoritmos.

Mais eficiência e menos burocracia

A revisão da literatura identificou diversas contribuições da IA para o setor público brasileiro.

Entre elas estão:

  • automação de atividades repetitivas;
  • processamento de grandes bases de dados;
  • apoio à formulação e avaliação de políticas públicas;
  • análises preditivas para antecipação de problemas;
  • otimização de recursos públicos;
  • fortalecimento da fiscalização e dos órgãos de controle;
  • melhoria da prestação de serviços à população.

Os autores destacam que essas aplicações permitem que servidores concentrem esforços em atividades estratégicas, reduzindo o tempo dedicado a tarefas burocráticas e aumentando a capacidade institucional do Estado.

Tribunais de Contas também entram no debate

Entre os estudos analisados na revisão, um dos destaques é a utilização da Inteligência Artificial pelos órgãos de controle da administração pública.

Segundo a pesquisa, ferramentas inteligentes podem identificar padrões de irregularidades, analisar grandes volumes de documentos e realizar monitoramento contínuo das contas públicas, permitindo uma atuação mais preventiva do que corretiva.

Essa mudança, segundo os pesquisadores, fortalece mecanismos de transparência, accountability e fiscalização governamental.

Os desafios ainda são grandes

Apesar do potencial, o estudo faz um alerta importante: a adoção da Inteligência Artificial não garante, por si só, uma administração pública melhor.

Os pesquisadores identificam desafios que precisam ser enfrentados, como:

  • governança e qualidade dos dados;
  • transparência dos algoritmos;
  • proteção de dados pessoais;
  • segurança da informação;
  • redução de vieses algorítmicos;
  • infraestrutura tecnológica adequada;
  • formação contínua dos servidores públicos.

Outro ponto ressaltado é que decisões produzidas com apoio de IA precisam permanecer alinhadas aos princípios constitucionais da administração pública, como legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência.

Um novo modelo de gestão pública

Para os autores, a administração pública baseada em dados representa uma transformação estrutural do Estado.

Nesse modelo, informações deixam de ser apenas registros administrativos e passam a ser ativos estratégicos para compreender problemas sociais, planejar políticas públicas e avaliar resultados.

A Inteligência Artificial torna-se, assim, um instrumento capaz de fortalecer uma gestão mais eficiente, transparente, inovadora e comprometida com a geração de valor público, desde que sua implementação ocorra de forma ética, responsável e integrada às capacidades institucionais.


Referência

MONTEIRO, Fred Klaus Batista de Oliveira et al. Administração pública baseada em dados: contribuições da Inteligência Artificial para a eficiência da tomada de decisões na gestão pública. Aposta: Revista de Ciencias Sociales, v. 24, n. 115, 2026. DOI: 10.23900/ra.v24i115.1300.

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