IA pode personalizar ensino e ampliar inclusão, mas professor continua insubstituível, aponta estudo

Pesquisa publicada em 2026 analisa aplicações da inteligência artificial na educação e alerta que inovação sem formação docente, proteção de dados e acesso equitativo pode aprofundar desigualdades

A inteligência artificial pode identificar dificuldades individuais dos estudantes, personalizar atividades, ampliar recursos de acessibilidade e reduzir parte das tarefas repetitivas realizadas pelos professores. Mas isso não significa que a tecnologia possa assumir o lugar do docente.

Essa é uma das principais conclusões do estudo “Educação e Inteligência Artificial: novos caminhos para o ensino”, publicado como capítulo da obra Ensinar, Aprender e Transformar: Percursos da Educação. Para os autores, a IA deve funcionar como suporte ao trabalho pedagógico, preservando a mediação humana como elemento central da educação.

O trabalho é assinado por Romes Heriberto Pires de Araujo, Lucia Josefa Siqueira dos Santos, Aline Fortini Mateus, Tamires Rodrigues de Oliveira, Renata Freitas Siqueira, Maria Luciana Constantino e Fabio José Antonio da Silva.

IA pode criar percursos diferentes para cada estudante

Uma das possibilidades destacadas é romper parcialmente com o modelo em que todos os alunos recebem as mesmas atividades no mesmo ritmo.

Sistemas baseados em inteligência artificial podem analisar o desempenho dos estudantes, identificar dificuldades e sugerir conteúdos ou exercícios adequados a diferentes necessidades.

O estudo menciona ferramentas já utilizadas no contexto educacional brasileiro, como sistemas de análise de redações e plataformas que oferecem trilhas personalizadas de aprendizagem.

Na prática, um estudante com dificuldade em determinado conteúdo poderia receber atividades específicas enquanto outro, que já domina aquele conhecimento, avançaria para tarefas diferentes.

Para os pesquisadores, esse tipo de personalização pode aumentar o engajamento e favorecer uma educação mais centrada nas necessidades dos alunos.

Tecnologia também pode ampliar acessibilidade

Outro potencial está na educação inclusiva.

O artigo cita recursos de tradução para Libras, leitura automatizada de textos, descrição de imagens e outras ferramentas digitais voltadas a estudantes com deficiência.

Soluções como VLibras e Hand Talk aparecem como exemplos de tecnologias capazes de reduzir determinadas barreiras de comunicação e acesso aos conteúdos.

A pesquisa argumenta que a inteligência artificial pode contribuir para ampliar a autonomia dos estudantes, desde que acessibilidade e inclusão sejam incorporadas desde a concepção das políticas e ferramentas educacionais.

Professor não desaparece — muda a natureza do trabalho

Talvez o ponto mais relevante do estudo esteja na relação entre inteligência artificial e trabalho docente.

Os autores rejeitam a ideia de que a tecnologia deva substituir professores.

Em vez disso, defendem seu uso para automatizar atividades repetitivas, auxiliar na organização de informações, produzir relatórios e acompanhar padrões de aprendizagem.

Isso poderia liberar parte do tempo do professor para tarefas que exigem maior intervenção humana: acompanhamento individual, criação de estratégias pedagógicas, reflexão crítica, relações interpessoais e desenvolvimento de metodologias.

O estudo também discute o uso da IA em avaliações formativas. Sistemas capazes de acompanhar continuamente o desempenho poderiam fornecer informações ao professor antes da avaliação final, permitindo intervenções durante o processo de aprendizagem.

Mas há um risco: transformar alunos em dados

A incorporação da inteligência artificial às escolas também cria problemas que ultrapassam a sala de aula.

Para funcionar, muitas dessas ferramentas dependem da coleta e do processamento de grandes volumes de informações.

Em ambientes educacionais, isso pode envolver dados de crianças e adolescentes.

Por essa razão, o artigo destaca a necessidade de observar a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), além de princípios como transparência, segurança e finalidade no tratamento das informações.

Os autores defendem ainda que sistemas utilizados para apoiar decisões educacionais sejam compreensíveis. Professores e gestores não deveriam depender de algoritmos que apresentem recomendações sem permitir entender minimamente como chegaram a determinada conclusão.

IA pode diminuir desigualdades — ou aumentá-las

Há ainda uma contradição importante.

A mesma tecnologia apresentada como instrumento para ampliar oportunidades pode produzir uma nova camada de desigualdade.

Escolas com conexão rápida, equipamentos adequados e professores capacitados terão condições muito diferentes de instituições que ainda enfrentam problemas básicos de infraestrutura tecnológica.

Se a adoção da inteligência artificial avançar de maneira desigual, alertam os pesquisadores, a inovação poderá se transformar em privilégio de determinados estudantes e redes de ensino.

Por isso, políticas de inteligência artificial na educação não poderiam ser dissociadas de políticas de inclusão digital.

Formação dos professores será decisiva

O artigo coloca a formação continuada dos educadores entre as condições necessárias para uma adoção responsável da IA.

Não basta disponibilizar uma plataforma e esperar que ela transforme a aprendizagem.

Professores precisam compreender possibilidades, limitações e riscos das ferramentas, inclusive questões relacionadas a privacidade, ética, vieses e uso crítico da informação.

O trabalho também propõe que cidadania e ética digital sejam discutidas com os próprios estudantes.

Assim, aprender a utilizar inteligência artificial não significaria apenas dominar comandos ou ferramentas, mas compreender criticamente os impactos dessas tecnologias na sociedade.

Tecnologia sozinha não melhora a educação

O estudo possui caráter predominantemente analítico e propositivo. Portanto, suas conclusões não resultam de um experimento que tenha medido, por exemplo, se determinada ferramenta de IA aumentou a aprendizagem dos estudantes em um percentual específico.

Os autores discutem aplicações existentes e documentos relacionados à inteligência artificial e à educação para defender uma integração responsável dessas tecnologias.

Essa distinção é importante porque evita uma conclusão bastante comum no debate tecnológico: a ideia de que simplesmente colocar inteligência artificial dentro das escolas produzirá automaticamente melhores resultados.

A conclusão apresentada pelo estudo segue outra direção.

A IA pode ampliar possibilidades pedagógicas, personalizar experiências e favorecer inclusão, mas seus efeitos dependerão de professores preparados, projetos pedagógicos consistentes, infraestrutura, proteção de dados, acesso equitativo e supervisão humana.

Nesse cenário, o futuro apontado pelos pesquisadores não é o de uma escola sem professores. É o de uma escola em que professores precisarão aprender a trabalhar criticamente com máquinas cada vez mais capazes.

Fonte: ARAUJO, Romes Heriberto Pires de et al. Educação e Inteligência Artificial: novos caminhos para o ensino. In: Ensinar, Aprender e Transformar: Percursos da Educação. Cap. 18. ISBN 978-65-6223-025-3. DOI: 10.63330/aurumpub.067-018.

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