Google e Microsoft avançam sobre redes públicas de ensino e acendem alerta sobre dependência tecnológica

Estudo publicado em 2026 mapeia presença das Big Techs nas redes estaduais, identifica intermediários da expansão das plataformas e alerta para riscos envolvendo dados, autonomia tecnológica e participação dos professores

E-mail institucional, armazenamento em nuvem, videoconferência, sistemas operacionais, computadores, ambientes virtuais e ferramentas utilizadas diariamente por professores e estudantes.

Por trás da digitalização das escolas públicas brasileiras existe uma infraestrutura que, segundo novo estudo, está cada vez mais vinculada a duas das maiores empresas de tecnologia do planeta: Google e Microsoft.

Pesquisa publicada em 2026 na Revista Intersaberes identificou a presença de servidores dessas companhias em 23 redes estaduais de educação e do Distrito Federal listadas pelos autores.

O levantamento também revela que a entrada das plataformas nas escolas não ocorre necessariamente por uma relação direta entre governos e Big Techs. Empresas intermediárias e organizações participam desse ecossistema, fornecendo equipamentos, licenças, infraestrutura e formação para professores e estudantes.

O artigo “Do Monopólio Digital à Educação Pública: a plataformização da educação e seus atores” é assinado por Janaina do Rozário Diniz, Alan Cordeiro Fagundes, Antônio José Lopes Alves e Gustavo González-Calvo.

Google aparece na maioria das redes mapeadas

O Quadro 3 do artigo, apresentado na página 22, permite visualizar a dimensão do fenômeno.

Entre as 23 redes relacionadas, 16 aparecem associadas ao Google, cinco à Microsoft e duas — Bahia e São Paulo — às duas companhias simultaneamente.

Entre os estados relacionados ao ecossistema Google estão Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina, Pará, Pernambuco, Ceará, Amazonas e Tocantins.

Microsoft aparece, entre outros, em Mato Grosso, Goiás, Espírito Santo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul.

Os dados foram sistematizados pelos autores a partir do Observatório Educação Vigiada e de pesquisas anteriores. Por isso, não devem ser interpretados como auditoria independente realizada em 2026 sobre a situação contratual atual de cada secretaria.

Quem colocou as Big Techs dentro das escolas?

É justamente essa pergunta que diferencia o trabalho.

Os pesquisadores não buscaram apenas descobrir quais plataformas estavam sendo utilizadas. Procuraram identificar quem ajuda a criar a ponte entre as empresas globais de tecnologia e as redes públicas de ensino.

A lista inclui organizações e empresas como Consed, Brasoftware, Ensinar Tecnologia Educacional, Interceleri, MSTech, QI Network, DCloudware e outras.

Em alguns estados, o estudo não encontrou informações sobre intermediários. Em Maranhão, Mato Grosso e Rio de Janeiro, o quadro registra a Microsoft sem intermediário identificado naquele processo.

O Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed) recebe atenção especial dos pesquisadores.

Segundo o artigo, estudos anteriores sobre acordos envolvendo Google, Consed e secretarias estaduais identificaram atribuições relacionadas à disponibilização das plataformas, disseminação de softwares e formação de educadores para utilização de Chromebooks e ferramentas Google.

O problema pode começar justamente quando o serviço parece gratuito

Outro ponto levantado pelo trabalho é aparentemente contraditório: o serviço gratuito pode produzir custos que não aparecem imediatamente no orçamento.

Os pesquisadores recuperam estudos anteriores que analisaram acordos classificados como “não onerosos” ou doações.

Isso pode reduzir gastos imediatos com desenvolvimento e manutenção de infraestrutura própria, mas também criar dependência tecnológica.

Uma secretaria que estrutura comunicação, armazenamento, formação, equipamentos e processos administrativos em torno do ecossistema de uma empresa pode enfrentar dificuldades futuras para migrar para outra solução.

Na tecnologia, esse fenômeno é conhecido como lock-in: quanto mais profundamente uma organização depende de determinado ecossistema, maior pode ser o custo e a complexidade para abandoná-lo.

Dados de professores e alunos entram no debate

A preocupação mais sensível envolve os dados.

O artigo reúne pesquisas que questionam o que acontece quando informações produzidas cotidianamente dentro da educação pública passam a ser armazenadas e processadas em infraestruturas pertencentes a corporações privadas globais.

Não se trata somente de nomes e endereços.

Atividades educacionais digitalizadas podem produzir dados e metadados relacionados a interações, desempenho, comportamento, pesquisas, comunicações e utilização dos serviços.

Segundo a revisão, a adoção de plataformas corporativas pode reduzir o controle direto das instituições públicas sobre parte dessa infraestrutura informacional.

Os autores relacionam esse cenário também à discussão sobre soberania digital.

Brasil gastou R$ 23 bilhões com Big Techs, aponta pesquisa citada

Um número apresentado próximo à conclusão amplia o debate para além das escolas.

O artigo cita estudo realizado por pesquisadores vinculados à USP e à UnB segundo o qual o Estado brasileiro teria gasto pelo menos R$ 23 bilhões entre 2014 e 2025 com produtos e serviços de grandes empresas de tecnologia.

Desse total, aproximadamente R$ 10 bilhões teriam sido gastos somente entre junho de 2024 e junho de 2025.

Segundo a comparação reproduzida no artigo, os R$ 23 bilhões seriam suficientes para construir 83 data centers de alta performance.

É importante fazer uma distinção: esses R$ 23 bilhões não representam gastos exclusivamente da educação pública, nem foram calculados pelo novo artigo.

O dado pertence ao estudo “Contratos, Códigos e Controle: A Influência das Big Techs no Estado Brasileiro”, de Silva e colaboradores, publicado em 2025 e citado pelos autores.

Professores ficaram fora de decisões, apontam estudos revisados

Há ainda uma questão que vai além de dinheiro e tecnologia: quem decide quais plataformas serão usadas pelos professores?

A revisão recupera pesquisas realizadas em Salvador e Santa Catarina que apontaram problemas de participação das comunidades escolares nas decisões.

No caso catarinense, estudo de Cerny, Almeida e Espíndola, de 2023, não encontrou evidências de participação efetiva do conjunto dos professores na escolha dos recursos adotados pela Secretaria de Educação.

Os autores do novo artigo interpretam esse processo como parte de uma política tecnológica frequentemente construída de cima para baixo.

Isso cria uma situação peculiar: professores podem ser obrigados a incorporar determinada tecnologia ao cotidiano profissional sem terem participado da decisão sobre sua adoção.

A pandemia acelerou um processo que já existia

Google e Microsoft não chegaram à educação durante a Covid-19.

Mas a pandemia aparece como um divisor de águas.

Dos oito artigos selecionados pela revisão, seis foram publicados entre 2020 e 2022. Os pesquisadores relacionam esse crescimento do interesse acadêmico à expansão acelerada das plataformas durante o ensino remoto.

O artigo mais antigo selecionado é de 2018. Depois aparecem trabalhos de 2020, 2021, 2022, 2023 e 2024.

Para chegar a esse conjunto, os autores realizaram buscas no Portal de Periódicos da Capes e localizaram inicialmente 104 resultados por diferentes combinações de descritores. Depois da aplicação dos critérios de seleção, permaneceram oito artigos diretamente relacionados ao objeto da pesquisa.

Estudo adota perspectiva crítica da economia política

Há uma característica metodológica importante para compreender suas conclusões.

O artigo não é uma pesquisa neutra sobre vantagens e desvantagens comerciais de Google e Microsoft. Os autores deixam explícito que trabalham no campo da economia política da educação, utilizando referenciais marxistas e conceitos como privatização, relações de produção, monopólio digital e acumulação de capital.

A partir desse referencial, interpretam a plataformização como uma modalidade de privatização da educação pública.

Portanto, afirmações como a de que a plataformização “submete” a educação ao capital ou representa uma “tomada de controle” empresarial devem ser compreendidas como interpretações construídas dentro desse referencial teórico — e não como resultados de uma auditoria financeira ou jurídica das empresas analisadas.

Essa distinção é fundamental para a leitura científica do trabalho.

A alternativa proposta: tecnologia pública brasileira

Ao final, os pesquisadores defendem que o Brasil amplie pesquisas e investimentos em alternativas tecnológicas nacionais e públicas.

A preocupação é evitar que a modernização das escolas resulte, paradoxalmente, na perda da capacidade do próprio Estado de controlar sua infraestrutura digital.

O debate, portanto, não é simplesmente ser contra ou a favor de Google, Microsoft ou da tecnologia na educação.

A questão colocada pelo estudo é mais profunda:

quando uma escola pública entra na nuvem, quem passa a controlar o céu?

Fonte: DINIZ, Janaina do Rozário; FAGUNDES, Alan Cordeiro; ALVES, Antônio José Lopes; GONZÁLEZ-CALVO, Gustavo. Do Monopólio Digital à Educação Pública: a plataformização da educação e seus atores. Revista Intersaberes, v. 21, 2026. Recebido em 31 mar. 2026; aprovado em 15 ago. 2026. O artigo declara não ter utilizado inteligência artificial em sua elaboração.

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