Estudo mostra como repositórios digitais, a plataforma Learning Passport e o projeto “Baú Nón” ampliam o contato de estudantes com autores santomenses; país também criou disciplina obrigatória de Literacia Digital
Em um país onde comprar um livro ainda pode estar fora do alcance de muitas famílias e onde, para parte dos estudantes, o manual de Língua Portuguesa representa praticamente o único contato regular com a literatura, a transformação digital começa a assumir uma função que vai muito além da tecnologia: fazer textos, autores e a própria memória literária nacional circularem.
É esse movimento que a pesquisadora Ana Albuquerque e Aguilar, da Universidade de Coimbra, analisa no artigo Leitura literária e literacia digital em São Tomé e Príncipe, publicado em setembro de 2026 na revista Texto Digital. O trabalho examina iniciativas recentes que procuram aproximar educação digital, formação de leitores e valorização da literatura santomense.
Quando o livro é difícil de encontrar
O ponto de partida ajuda a dimensionar o problema. São Tomé e Príncipe tem cerca de 220 mil habitantes e uma população particularmente jovem: aproximadamente 60% têm até 24 anos. Isso coloca pressão significativa sobre o sistema educacional e sobre a formação de professores.
Mas existe uma questão ainda mais elementar: o acesso material ao livro.
Segundo o estudo, manuais escolares são frequentemente obtidos por fotocópias ou impressões cujo preço pode ser proibitivo para muitas famílias. Para diversos estudantes, o manual de Língua Portuguesa acaba sendo o principal — e às vezes único — contato com literatura e educação literária.
A situação também aparece nos indicadores educacionais. Nas avaliações realizadas em 2017, que alcançaram 88% dos estudantes matriculados, o desempenho médio em Língua Portuguesa na 9ª classe foi de apenas 29,1%. O estudo destaca dificuldades de leitura, compreensão, interpretação, escrita e compreensão da linguagem literária.
Uma biblioteca que cabe na tela
Uma das respostas foi a criação do Repositório Digital do Ministério da Educação, impulsionada após a pandemia. Programas curriculares e manuais escolares foram digitalizados, enquanto a plataforma passou a reunir também legislação, estudos, propostas didáticas e bibliografia relacionada ao país.
O efeito é bastante concreto: estudantes que possuem celulares ou frequentam escolas equipadas passaram a ter acesso aos manuais em PDF. Em salas com eletricidade e projetor, professores também passaram a projetar obras para que os estudantes efetivamente lessem os textos, em vez de apenas ouvi-los.
Em 2022, outra frente foi aberta com o Programa Nacional de Aprendizagem Digital (PNAD), estruturado em cinco pilares: formação de professores, produção de conteúdos digitais, participação de jovens voluntários, equipamentos e conectividade.
“Baú Nón”: uma arca digital de histórias
Talvez a experiência mais interessante apresentada pelo estudo seja o Baú Nón.
A expressão significa “A nossa arca [de estórias]”, em crioulo forro. Hospedado na plataforma Learning Passport, o projeto foi criado para promover a literatura santomense e africana e reúne desde literatura infantil e narrativas de São Tomé e Príncipe até poesia santomense e lusófona.
A plataforma reúne autores consagrados como Alda Espírito Santo, Albertino Bragança, Conceição Lima, Francisco José Tenreiro, Marcelo da Veiga, Maria Manuela Margarido e Olinda Beja, ao lado de escritores de gerações mais recentes.
E existe um aspecto especialmente relevante: a digitalização não está sendo utilizada para apagar a diversidade linguística em nome de uma suposta universalização tecnológica. O acervo também disponibiliza obras em Forro, crioulo mais falado na ilha de São Tomé, e Lung’ié, língua crioula da ilha do Príncipe.
Nesse sentido, o digital assume simultaneamente funções educacional, cultural e de preservação.
Tecnologia não substitui o encontro
O “Baú Nón” também não foi concebido simplesmente como depósito de PDFs.
O projeto prevê atividades de leitura e discussão nas escolas e em espaços culturais, inclusive com a participação presencial de escritores e poetas santomenses. Nas apresentações realizadas em 2024, estudantes participaram de leituras e debates e chegaram a apresentar seus próprios textos.
A conclusão da pesquisadora é particularmente importante diante do entusiasmo contemporâneo com plataformas educacionais: tecnologia não substitui mediação.
O estudo sustenta que o encontro entre escritores, professores e estudantes continua sendo parte fundamental da experiência literária. O digital amplia o acesso; não elimina a dimensão humana da leitura.
Literacia Digital vira disciplina escolar
São Tomé e Príncipe avançou ainda em outra direção. No ano letivo 2025–2026, Literacia Digital passou a integrar o currículo da 9ª classe.
A mudança procura fazer com que o acesso às tecnologias deixe de significar simplesmente possuir um dispositivo ou saber navegar na internet e passe a envolver competências críticas, éticas e criativas.
O currículo trabalha navegação, pesquisa, leitura de fontes digitais, organização da informação, uso de plataformas e criação de conteúdos. Mais interessante ainda para a discussão apresentada no artigo: a literatura digital foi incorporada explicitamente à disciplina, aproximando leitura, escrita e produção artística mediada pela tecnologia.
O desafio continua sendo não confundir acesso com inclusão
Os avanços convivem, entretanto, com problemas estruturais importantes.
Conectividade, fornecimento de eletricidade, disponibilidade de equipamentos e formação digital de professores ainda limitam a expansão das iniciativas. Mesmo quando o Learning Passport pode funcionar offline, é necessário acesso inicial à internet para baixar os conteúdos.
Segundo os dados apresentados no artigo, 61,5% da população tinha acesso à internet e cerca de 63,9% possuía acesso a dispositivos móveis, indicadores que vinham crescendo. A Região Autónoma do Príncipe já apresentava uma situação particular, com computadores disponíveis para estudantes e professores para finalidades educacionais.
A experiência santomense, portanto, oferece uma lição que ultrapassa as fronteiras do pequeno arquipélago africano: digitalizar livros não é suficiente, assim como distribuir equipamentos não produz automaticamente leitores.
Para que a tecnologia se converta em educação, argumenta o estudo, são necessárias políticas contextualizadas, formação docente, mediação pedagógica e valorização das línguas e culturas locais. O objetivo final não deveria ser formar apenas usuários de plataformas, mas leitores, intérpretes e criadores capazes de participar criticamente dos ambientes culturais e digitais contemporâneos.
Fonte: ALBUQUERQUE E AGUILAR, Ana. Leitura literária e literacia digital em São Tomé e Príncipe. Texto Digital, Florianópolis, v. 22, n. 1, p. 11–36, 2026. Publicado em 4 de setembro de 2026.
