A execução do orçamento público no Brasil ainda enfrenta entraves estruturais e operacionais que comprometem a eficiência e a transparência na aplicação dos recursos. É o que aponta estudo publicado na revista Tópicos, que analisa o papel do Quadro Demonstrativo de Quotas Quadrimestrais (QDQQ) e propõe o mapeamento de riscos e processos como estratégia para aprimorar a gestão fiscal.
De acordo com o autor, o QDQQ funciona como instrumento interno de controle e previsibilidade, organizando a liberação de recursos ao longo do exercício financeiro. No entanto, sua efetividade é frequentemente limitada por fatores como fragmentação institucional, falhas de integração entre sistemas, carência tecnológica e resistência cultural dentro das organizações públicas.
O estudo destaca que esses gargalos não são apenas técnicos, mas também comportamentais, envolvendo problemas como baixa capacitação de servidores, alta rotatividade, comunicação deficiente e dependência de atores-chave para a tomada de decisão. Esse conjunto de fatores dificulta a articulação entre planejamento e execução orçamentária, gerando atrasos, retrabalho e perda de eficiência.
Nesse contexto, a pesquisa propõe a adoção do Mapeamento de Riscos e Processos (MRP) como ferramenta estratégica para integrar as etapas do ciclo orçamentário — da formulação à prestação de contas. A abordagem permite identificar falhas, priorizar problemas e redesenhar fluxos administrativos, com foco na simplificação, automação e melhoria da governança pública.
Segundo o estudo, a implementação do MRP pode contribuir para transformar o planejamento orçamentário em um fluxo contínuo, reduzindo incertezas e ampliando a capacidade de resposta da administração pública. A proposta inclui ainda o uso de metodologias de gestão, como modelagem de processos, definição clara de responsabilidades e monitoramento por indicadores de desempenho.
Outro ponto relevante é a necessidade de investimento em gestão de pessoas. O estudo aponta que a qualificação contínua dos servidores, aliada à melhoria das condições de trabalho e à valorização profissional, é fundamental para superar resistências internas e garantir a efetividade das mudanças.
A análise também ressalta que experiências internacionais utilizam mecanismos semelhantes ao QDQQ, como sistemas de liberação periódica de recursos e monitoramento contínuo de caixa, indicando que o desafio brasileiro não está na ausência de instrumentos, mas na sua implementação e integração.
O estudo conclui que a superação dos gargalos orçamentários exige uma abordagem sistêmica, que combine inovação tecnológica, capacitação institucional e mudança cultural. Sem isso, o planejamento público tende a permanecer desconectado da execução, comprometendo a entrega de políticas públicas e a confiança da sociedade nas instituições.
Referência
MAGNO, André Luis Corrêa. Mapeamento de riscos e processos orçamentários públicos: estratégias para mitigar gargalos no quadro demonstrativo de quotas quadrimestrais. Revista Tópicos, 2026. DOI: 10.70773/revistatopicos/773822197.
