Pesquisa da UFMS mostra que sistemas de inteligência artificial já evitam desperdícios em licitações, aceleram decisões judiciais e podem transformar a gestão pública — desde que haja supervisão humana e transparência.
Durante muito tempo, a inteligência artificial foi tratada como uma promessa para governos mais eficientes. Agora, ela começa a produzir resultados concretos.
Um estudo desenvolvido por pesquisadores da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) revela que ferramentas de IA já estão promovendo mudanças significativas na Administração Pública brasileira. Entre os resultados apresentados estão uma economia estimada de R$ 257 milhões em recursos públicos, a suspensão preventiva de R$ 9,7 bilhões em contratações com indícios de irregularidades e a redução do tempo de análise de processos judiciais de 40 minutos para apenas cinco segundos.
A pesquisa, intitulada “O uso da Inteligência Artificial como instrumento de promoção da eficiência na Administração Pública Brasileira”, analisa como a IA vem sendo utilizada para fortalecer o princípio constitucional da eficiência previsto no artigo 37 da Constituição Federal.
IA não substitui servidores — muda a forma como trabalham
Um dos aspectos mais interessantes do estudo é que os autores contestam uma percepção bastante difundida: a de que a inteligência artificial substituirá servidores públicos.
Segundo a pesquisa, o efeito observado é outro.
Ao automatizar atividades repetitivas, como análise documental, triagem de processos e identificação de padrões, a IA permite que os profissionais concentrem seu tempo em tarefas que exigem interpretação, análise crítica e tomada de decisão.
Em outras palavras, a tecnologia reduz trabalho mecânico para ampliar o trabalho intelectual.
O robô que encontrou bilhões em possíveis irregularidades
O estudo apresenta como principal exemplo o Sistema Alice, desenvolvido pela Controladoria-Geral da União (CGU).
A plataforma utiliza processamento de linguagem natural para analisar automaticamente editais e licitações públicas em busca de indícios de fraude, restrições à concorrência e sobrepreços.
Os números impressionam.
Somente em 2024, o Alice:
- analisou 118 mil processos licitatórios;
- originou 206 auditorias preventivas;
- suspendeu aproximadamente R$ 9,7 bilhões em contratações consideradas suspeitas;
- gerou uma economia estimada em R$ 257 milhões aos cofres públicos.
Para os pesquisadores, seria praticamente impossível realizar esse volume de análises exclusivamente por equipes humanas dentro das atuais limitações orçamentárias da administração pública.
No STF, inteligência artificial faz em segundos o que antes levava quase uma hora
Outro caso estudado foi o Sistema Victor, desenvolvido pelo Supremo Tribunal Federal.
A ferramenta auxilia na identificação de recursos relacionados à repercussão geral, etapa essencial para o funcionamento da Corte.
Segundo o artigo, tarefas que anteriormente consumiam cerca de 40 minutos passaram a ser executadas em aproximadamente cinco segundos, mantendo níveis de acurácia entre 80% e 90%, dependendo do tema analisado.
Na prática, isso significa que milhares de horas de trabalho podem ser redirecionadas para atividades jurídicas mais complexas, aumentando a capacidade decisória dos gabinetes.
O maior risco não está na tecnologia
Apesar dos ganhos, o estudo faz um alerta importante.
Os autores afirmam que a inteligência artificial não pode funcionar como uma “caixa-preta”, produzindo decisões sem possibilidade de explicação.
Entre os desafios destacados estão:
- vieses algorítmicos;
- transparência das decisões;
- proteção de dados pessoais;
- necessidade permanente de supervisão humana;
- mecanismos de auditoria e responsabilização institucional.
Para os pesquisadores, a IA deve atuar como ferramenta de apoio ao servidor público — nunca como substituta do julgamento humano.
Inclusão digital também faz parte da eficiência
Outro ponto pouco discutido, mas enfatizado pela pesquisa, diz respeito ao acesso da população aos serviços digitais.
Os autores alertam que idosos, pessoas com baixo letramento digital, povos indígenas e comunidades tradicionais podem enfrentar dificuldades caso toda a interação com o Estado passe a depender exclusivamente de plataformas automatizadas.
Nesse cenário, a eficiência administrativa deve caminhar junto com inclusão, acessibilidade e diversidade cultural, evitando que a inovação tecnológica amplie desigualdades já existentes.
O futuro do Estado passa pela IA — mas também pela governança
A conclusão do estudo é clara.
A inteligência artificial representa um dos maiores avanços recentes para a modernização da Administração Pública brasileira, mas seu sucesso dependerá menos da tecnologia em si e mais da qualidade da governança pública.
Sem transparência, prestação de contas (accountability), proteção de dados e supervisão humana, os ganhos de eficiência podem ser comprometidos por riscos éticos e jurídicos.
Para os autores, o desafio da próxima década será equilibrar inovação e controle democrático, garantindo que a inteligência artificial fortaleça — e não substitua — os princípios constitucionais que orientam a atuação do Estado brasileiro.
Fonte: RIOS, Tiago Abi; LOPES, José Carlos de Jesus; FIGUEIREDO, Jeovan de Carvalho. O uso da Inteligência Artificial como instrumento de promoção da eficiência na Administração Pública brasileira: uma revisão teórico-exploratória. Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), 2026.
