Deleuze e Guattari ajudam a explicar quem realmente cria o dinheiro? Estudo aproxima filosofia e economia em debate sobre soberania monetária

Pesquisa propõe um diálogo inédito entre a filosofia de Gilles Deleuze e Félix Guattari e a Teoria Monetária Moderna (MMT), defendendo que dinheiro, impostos e Estado são elementos centrais para compreender o capitalismo contemporâneo.

Quando se fala em dinheiro, a explicação mais comum é que ele surgiu para facilitar trocas comerciais. Mas e se essa narrativa estiver incompleta?

Um artigo publicado nos Cadernos Miroslav Milovic propõe uma aproximação inédita entre a filosofia de Gilles Deleuze e Félix Guattari e a tradição econômica conhecida como cartalismo, origem da atual Modern Monetary Theory (MMT). A pesquisa argumenta que o dinheiro não nasce principalmente do comércio, mas da relação entre Estado, impostos e poder político.

O dinheiro não seria apenas uma mercadoria

Segundo o autor Émerson Pirola, tanto Deleuze e Guattari quanto os economistas cartalistas rejeitam a visão tradicional de que o dinheiro surgiu espontaneamente para facilitar trocas.

A tese defendida é outra: o dinheiro adquire valor porque o Estado o aceita como pagamento de impostos e organiza sua circulação por meio das instituições financeiras. Dessa forma, moeda, sistema tributário e soberania estatal constituem um mesmo processo político e econômico.

O imposto cria o mercado?

Um dos pontos mais provocativos do estudo é a interpretação da teoria do “aparelho de captura”, desenvolvida por Deleuze e Guattari.

Segundo essa leitura, o Estado não apenas arrecada impostos: ele cria as condições para que terra, trabalho e dinheiro passem a funcionar como elementos comparáveis dentro de um mercado.

Nesse modelo, o imposto desempenha um papel decisivo porque estabelece uma equivalência entre bens, serviços e moeda, tornando possível a existência de mercados organizados.

Bancos criam dinheiro “do nada”?

Outro argumento central do artigo aproxima a filosofia francesa das teorias monetárias contemporâneas.

Para o autor, Deleuze e Guattari antecipam discussões hoje presentes na MMT ao defenderem que bancos não atuam apenas como intermediários entre poupadores e tomadores de empréstimos.

Na concessão de crédito, os bancos criariam moeda por meio de registros contábeis, emitindo dinheiro novo antes mesmo de existir poupança correspondente. Essa criação monetária seria um dos motores do capitalismo financeiro moderno.

Dois tipos de dinheiro convivem na economia

A pesquisa destaca outro conceito importante presente em O Anti-Édipo.

Os filósofos distinguem duas formas de circulação monetária:

  • o dinheiro utilizado nas compras cotidianas, destinado ao consumo;
  • o dinheiro do financiamento, criado principalmente pelo sistema bancário para investimentos, crédito e expansão econômica.

Segundo o artigo, compreender essa dualidade ajuda a explicar por que o sistema financeiro possui enorme capacidade de influenciar a economia muito além do dinheiro que circula entre consumidores.

O Banco Central ocupa uma posição estratégica

Na interpretação apresentada, o Banco Central exerce uma função muito mais ampla do que controlar a inflação.

Ele seria responsável por conectar a moeda emitida pelos bancos privados com a moeda oficial do Estado, regulando taxas de juros, convertibilidade e estabilidade do sistema financeiro.

Essa articulação revela, segundo o autor, que política monetária e organização do capitalismo são processos inseparáveis.

O que é soberania monetária?

A segunda parte do artigo aproxima essas ideias da Modern Monetary Theory, corrente econômica que ganhou notoriedade internacional após a crise financeira de 2008.

A MMT sustenta que países que emitem sua própria moeda não enfrentam limitações financeiras da mesma forma que famílias ou empresas. Seus limites principais seriam a capacidade produtiva da economia e o risco de inflação, e não a simples arrecadação tributária.

Segundo o estudo, essa perspectiva dialoga diretamente com conceitos desenvolvidos por Deleuze e Guattari sobre criação monetária, financiamento e papel do Estado na economia.

Uma filosofia para compreender o capitalismo atual

Ao final, o autor ressalta que não pretende afirmar que Deleuze e Guattari eram economistas nem que suas ideias coincidam integralmente com a MMT.

O objetivo é mostrar que ambas as abordagens podem se complementar.

Enquanto a filosofia oferece instrumentos para compreender as relações de poder que estruturam o dinheiro, o cartalismo fornece fundamentos econômicos para interpretar como bancos centrais, impostos, dívida pública e criação monetária operam nas economias contemporâneas. Essa aproximação, segundo o artigo, contribui para uma teoria mais ampla da soberania monetária e da disputa política em torno da emissão e do controle do dinheiro.


Fonte: PIROLA, Émerson. Deleuze & Guattari e a tradição cartalista: uma aproximação frutífera para a luta monetária. Cadernos Miroslav Milovic, v. 4, n. 1, p. 533–570, 2026. DOI: 10.46550/cadernosmilovic.v4i1.156.

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