Pesquisa desenvolvida no GESTELD utiliza a autoetnografia crítica para analisar a experiência da Rede Camões e suas relações com autoria, formação dos sujeitos e produção discursiva no campo educacional
O doutorando Antonio Flavio Archangelo Junior defenderá, no próximo 31 de julho de 2026, às 10h, a tese “REDE CAMÕES: uma autoetnografia crítica do cuidado de si na produção de discursos”, desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Educação Escolar da Faculdade de Ciências e Letras da Universidade Estadual Paulista (FCLAr/UNESP).
A defesa será realizada por videoconferência e marca a conclusão de uma investigação construída no âmbito do Grupo de Estudos em Educação, Sexualidade, Tecnologias, Linguagens e Discursos (GESTELD), sob orientação da Profa. Dra. Maria Regina Momesso.
Mais do que tomar a Rede Camões como objeto externo de investigação, a tese coloca o próprio pesquisador e sua trajetória no interior do problema científico. Por meio de uma autoetnografia crítica, Archangelo revisita a experiência desenvolvida na Rede Camões entre 2021 e 2024, interrogando práticas, escolhas, tensões e transformações produzidas no percurso.
Nesse movimento, a pesquisa estabelece um diálogo central com o pensamento de Michel Foucault, especialmente a partir das noções de cuidado de si, articulando-as às discussões sobre formação, linguagem, discurso, autoria e constituição dos sujeitos.
Uma rede transformada em campo de investigação
A Rede Camões constituiu-se como uma experiência educacional baseada na produção e circulação de jornais escolares, mobilizando estudantes, professores e comunidades escolares em torno da escrita, da autoria e da participação.
Na tese, entretanto, a experiência não é apresentada simplesmente como uma metodologia educacional bem-sucedida a ser descrita ou replicada. O trabalho procura submetê-la à crítica — inclusive colocando sob análise as próprias decisões de quem a concebeu e desenvolveu.
É justamente aí que a autoetnografia assume papel fundamental: o pesquisador deixa de ocupar a posição confortável daquele que observa o fenômeno à distância e passa a examinar também como ele próprio foi constituído e transformado pelas práticas que ajudou a produzir.
Os registros digitais ajudam a dimensionar o universo no qual essa experiência se desenvolveu. No período analisado, a Rede acumulou milhares de publicações e interações, alcançando 93.361 visualizações, 36.333 visitantes, 5.193 publicações, 6.987 curtidas, 2.891 comentários e 9.227 assinantes.
Os números, contudo, funcionam na pesquisa como rastros de uma experiência muito mais ampla. O interesse central está nas práticas discursivas e nas possibilidades de produção de sujeitos que emergiram desse processo.
Cuidado de si, discurso e educação
Ao aproximar a experiência educacional das discussões foucaultianas sobre as tecnologias de si, a tese problematiza a educação para além da transmissão de conteúdos.
A pergunta desloca-se para outra dimensão: o que acontece com os sujeitos quando lhes são oferecidas condições para falar, escrever, produzir discursos, confrontar verdades e constituir modos próprios de relação consigo e com os outros?
É nesse território que a Rede Camões passa a ser examinada não somente como experiência de comunicação escolar, mas como espaço atravessado por relações de poder, autoria, escuta, formação e produção de subjetividades.
A pesquisa dialoga ainda com perspectivas críticas que permitem interrogar desigualdades e estruturas históricas presentes na educação, articulando o pensamento foucaultiano a debates contemporâneos sobre colonialidade, diferença e formação.
Banca reúne pesquisadores do Brasil e do México
A comissão examinadora será presidida pela orientadora, Profa. Dra. Maria Regina Momesso, da UNESP.
Participam como membros titulares o Prof. Dr. Paulo Rennes Marçal Ribeiro, do Departamento de Psicologia da Educação da FCLAr/UNESP; o Prof. Dr. João Adalberto Campato Jr., da Universidade Brasil; a Profa. Dra. Maria Eugênia Flores Treviño, da Universidad Autónoma de Nuevo León (UANL), no México; e a Profa. Dra. Rosangela Sanches da Silveira Gileno, do Departamento de Educação da FCLAr/UNESP.
A composição da banca também evidencia o caráter interdisciplinar do trabalho, reunindo interlocuções dos campos da Educação, Psicologia, Linguagens e estudos do discurso, além de ampliar o diálogo acadêmico internacional desenvolvido pelo grupo.
Como suplentes foram designados a Profa. Dra. Leny André Pimenta, o Prof. Dr. Sebastião de Souza Lemes e a Profa. Dra. Karin Elizabeth Kruger.
Pesquisa vinculada ao GESTELD
O trabalho integra as investigações desenvolvidas no GESTELD, grupo vinculado à UNESP e certificado pelo CNPq que reúne pesquisadores da graduação, pós-graduação e educação básica.
As pesquisas do grupo articulam Educação, sexualidade, tecnologias, linguagens e discursos, investigando diferentes processos de constituição dos sujeitos e das práticas sociais contemporâneas.
A defesa de Antonio Archangelo insere-se particularmente nesse território de encontro entre educação, linguagem, tecnologias e produção discursiva, tomando a própria experiência vivida como lugar de produção de conhecimento.
Ao transformar a trajetória da Rede Camões em objeto de uma autoetnografia crítica, a tese propõe também um exercício pouco confortável — e justamente por isso fecundo: não perguntar apenas o que uma prática educativa faz com os outros, mas o que ela faz conosco quando nos dispomos a examiná-la criticamente.
Serviço — Defesa de Doutorado
Doutorando: Antonio Flavio Archangelo Junior
Tese: “REDE CAMÕES: uma autoetnografia crítica do cuidado de si na produção de discursos”
Orientadora: Profa. Dra. Maria Regina Momesso
Data: 31 de julho de 2026
Horário: 10h (De Brasília)
Programa: Pós-Graduação em Educação Escolar — FCLAr/UNESP
Modalidade: videoconferência
O link para acesso é: meet.google.com/snn-huea-uws
Conheça mais sobre a Rede Camões em: https://metodocamoes.wordpress.com/
