Revisão científica baseada na pedagogia de Paulo Freire defende que alfabetização digital vai além do domínio da tecnologia e deve promover autonomia, pensamento crítico e participação cidadã entre jovens e adultos.
A alfabetização digital precisa deixar de ser entendida apenas como o aprendizado do uso de computadores e celulares. Para pesquisadores da Universidade de Pernambuco (UPE), ela deve ser compreendida como uma ferramenta de emancipação social capaz de fortalecer a cidadania, combater a desinformação e ampliar a participação democrática de estudantes da Educação de Jovens e Adultos (EJA). Essa é a principal conclusão de um estudo publicado na Revista Espacios.
Assinado por Jaqueline A. Calaça, Paulo M. Santos e Rosangela C. Castro, o trabalho apresenta uma revisão integrativa da literatura nacional e internacional e analisa como a alfabetização e o letramento digital podem contribuir para uma educação inspirada na perspectiva emancipatória de Paulo Freire.
Muito além de aprender a usar tecnologia
Segundo os pesquisadores, alfabetização digital não significa apenas aprender a operar dispositivos eletrônicos.
O conceito envolve desenvolver competências para interpretar criticamente informações, produzir conteúdos, compreender o funcionamento das plataformas digitais e participar de forma consciente da sociedade conectada.
Na EJA, essa dimensão torna-se ainda mais importante porque muitos estudantes convivem simultaneamente com exclusão educacional, econômica e digital.
Exclusão digital amplia desigualdades
O estudo aponta que a exclusão digital aprofunda desigualdades já existentes.
Mesmo vivendo em uma sociedade altamente conectada, milhares de jovens, adultos e idosos permanecem afastados do acesso qualificado às tecnologias, o que limita oportunidades de trabalho, acesso a serviços públicos e participação política.
Para os autores, a inclusão digital deve ser entendida como uma questão de justiça social e não apenas de inovação tecnológica.
Paulo Freire no centro da discussão
A pesquisa utiliza a pedagogia freireana como principal referência teórica.
Inspirados na ideia de que “a leitura do mundo antecede a leitura da palavra”, os pesquisadores defendem que o letramento digital deve partir das experiências concretas dos estudantes, valorizando seus conhecimentos prévios e suas práticas cotidianas com celulares, aplicativos e redes sociais.
Nesse contexto, aprender tecnologia significa também compreender relações de poder, identificar manipulações e ampliar a capacidade de intervenção na realidade.
Fake news entram na sala de aula
Entre os temas considerados prioritários está o enfrentamento da desinformação.
A revisão mostra que práticas pedagógicas voltadas à identificação de fake news, análise crítica de conteúdos digitais, produção colaborativa de informações e uso consciente das redes sociais fortalecem a autonomia dos estudantes e reduzem sua vulnerabilidade diante da circulação de notícias falsas e discursos de ódio.
Os autores também sugerem atividades envolvendo WhatsApp, Google Maps, produção de vídeos, quizzes digitais e análise de notícias como estratégias para integrar alfabetização convencional e letramento digital.
Formação de professores é desafio
Outro resultado importante da pesquisa é a necessidade de investir na formação docente.
Segundo o estudo, disponibilizar equipamentos tecnológicos não é suficiente para promover inclusão digital. Professores precisam estar preparados para utilizar as tecnologias de maneira crítica, contextualizada e articulada às experiências dos estudantes da EJA, evitando práticas meramente instrumentais.
Uma agenda para a educação do século XXI
Como conclusão, os pesquisadores afirmam que a inclusão digital na Educação de Jovens e Adultos só alcança seu potencial transformador quando deixa de ser uma política de acesso à tecnologia e passa a constituir uma política de formação cidadã.
A pesquisa também aponta lacunas importantes, como a escassez de estudos empíricos sobre letramento digital na EJA, a necessidade de políticas públicas específicas e a ampliação de pesquisas sobre práticas educativas em espaços não formais, como movimentos sociais, organizações comunitárias e projetos de educação popular.
Para os autores, educar na era digital continua sendo um ato político, e garantir que jovens e adultos desenvolvam pensamento crítico diante das tecnologias representa um passo essencial para reduzir desigualdades e fortalecer a democracia.
Referência
CALAÇA, Jaqueline A.; SANTOS, Paulo M.; CASTRO, Rosangela C. Alfabetização e Letramento Digital na Educação de Jovens e Adultos: uma revisão crítica sob a perspectiva da emancipação freireana e da inclusão digital. Revista Espacios, v. 47, n. 4, 2026.
