Ensaio publicado na revista Motrivivência relaciona racismo estrutural ao apagamento das práticas corporais dos povos originários e defende mudanças profundas nos currículos e na formação de professores
Futebol, voleibol, ginástica e outros conteúdos associados à tradição esportiva ocidental ocupam lugar consolidado nas aulas de Educação Física. Mas onde estão os jogos, lutas, danças, brincadeiras, rituais e diferentes conhecimentos corporais produzidos pelos povos indígenas?
Para três pesquisadores brasileiros, essa ausência não é simplesmente uma lacuna curricular. Ela está relacionada à própria formação histórica da Educação Física brasileira e a um processo de colonialidade e apagamento de conhecimentos indígenas.
A discussão aparece no artigo “Colonialidade na cultura corporal de movimento: o racismo estrutural e o apagamento dos saberes indígenas na Educação Física”, de Arliene Stephanie Menezes Pereira Pinto, Gabriela Nobre Bins e Daniel Pinto Gomes, publicado em 2026 na revista Motrivivência, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).
Uma Educação Física construída sobre referências europeias
O ensaio parte da história da própria área. Segundo os autores, a Educação Física brasileira consolidou-se predominantemente sob referências da modernidade europeia, especialmente modelos biomédicos, militares e esportivizados.
Nesse processo, outras maneiras de compreender o corpo e o movimento foram sistematicamente colocadas à margem. Para os pesquisadores, as práticas corporais ancestrais indígenas acabaram frequentemente reduzidas a manifestações folclóricas ou curiosidades históricas, perdendo o reconhecimento de suas dimensões pedagógicas, culturais e filosóficas.
Essa hierarquia continua aparecendo no cotidiano escolar. O artigo observa que esportes como futebol e voleibol costumam ser reconhecidos como conteúdos legítimos da disciplina, enquanto práticas indígenas podem aparecer apenas como atividades recreativas associadas ao antigo “Dia do Índio”.
Lei existe desde 2008, mas implementação permanece superficial
A Lei nº 11.645/2008 tornou obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e indígena nos estabelecimentos de Ensino Fundamental e Médio.
Na Educação Física, isso significa que trabalhar jogos, lutas, danças e outras práticas corporais indígenas não deveria depender simplesmente da preferência de cada professor. Segundo o estudo, esses conhecimentos fazem parte do compromisso educacional estabelecido pela legislação.
O problema é que a presença formal da lei não garantiu uma transformação equivalente dos currículos.
Os pesquisadores criticam abordagens restritas a datas comemorativas e defendem que a simples inclusão episódica de uma brincadeira ou dança indígena não modifica uma estrutura curricular que continua considerando determinados conhecimentos mais legítimos que outros.
O apagamento também acontece dentro da universidade
O ensaio avança sobre um ponto menos visível: a produção científica da própria Educação Física.
Os autores identificam escassez de livros e artigos especializados sobre povos indígenas e Educação Física, além de baixa presença do tema em espaços acadêmicos importantes, como o Congresso Brasileiro de Ciências do Esporte (Conbrace).
Segundo o artigo, mesmo existindo pesquisadores dedicados à Educação Física decolonial e à interculturalidade, essa produção permanece frequentemente concentrada em determinados nichos e encontra dificuldades para alcançar o núcleo da formação dos futuros professores.
O trabalho chega a destacar que atualmente não haveria, na área da Educação Física, pesquisadores de produtividade dedicados especificamente à temática indígena. Os autores relacionam esse cenário às próprias estruturas de reconhecimento e avaliação acadêmica.
Sem formação, professor pode reproduzir o silêncio
A formação docente aparece como outra peça central do problema.
O artigo recupera pesquisas segundo as quais professores apontam justamente a falta de formação como uma das barreiras para trabalhar questões étnico-raciais e incorporar práticas corporais indígenas e africanas às aulas.
Quando universidades praticamente não abordam essas matrizes nas licenciaturas, argumentam os autores, professores podem chegar às escolas sem repertório para desenvolver o tema criticamente. O resultado pode ser a reprodução de estereótipos — ou simplesmente o silêncio.
É um ciclo difícil de quebrar: há pouca formação porque o assunto ocupa espaço reduzido nos currículos; poucos pesquisadores se dedicam ao campo; existe menor produção de materiais; e professores encontram dificuldades para acessar referências qualificadas.
“Indígena” não significa alguém preso ao passado
O estudo também questiona um estereótipo recorrente: a ideia de que pessoas indígenas deixariam de ser indígenas ao viverem nas cidades, utilizarem celulares ou frequentarem universidades.
Para os autores, esse imaginário aprisiona os povos originários em uma imagem estática do passado e contribui para negar sua contemporaneidade e diversidade.
Essa concepção tem consequências educacionais. Se a escola apresenta povos indígenas somente como personagens históricos ou figuras folclóricas, dificilmente reconhecerá sua produção intelectual, científica, artística e pedagógica contemporânea.
Jogos e danças são conhecimentos, não decoração curricular
A alternativa defendida pelo estudo é uma Educação Física intercultural e decolonial.
Isso significa reconhecer jogos, brincadeiras, lutas, danças, esportes, rituais e relações com o território não como elementos exóticos adicionados ocasionalmente às aulas, mas como conhecimentos dotados de lógicas, pedagogias e significados próprios.
A mudança, portanto, precisaria atingir duas estruturas simultaneamente: o currículo e a formação dos professores.
Para os pesquisadores, não basta inserir novos conteúdos mantendo intacta a hierarquia que determina quais conhecimentos são considerados centrais e quais permanecem periféricos. A proposta é transformar a escola de um “monólogo eurocêntrico” em espaço de diálogo entre diferentes formas de produzir conhecimento.
Combater o epistemicídio
Nas conclusões, os autores afirmam que o racismo na Educação Física pode assumir formas menos explícitas: aparece na folclorização dos povos indígenas no currículo e também no apagamento de sua autoria dentro da academia.
O estudo denomina esse processo de epistemicídio — o silenciamento e a deslegitimação sistemática dos conhecimentos produzidos por determinados povos.
Por isso, os pesquisadores defendem mudanças nos currículos das licenciaturas, ampliação das pesquisas sobre a temática, revisão de determinadas lógicas de produtividade acadêmica e maior diálogo com as próprias comunidades indígenas. Também reconhecem lacunas que exigem novas pesquisas, como levantamentos quantitativos sobre pesquisadores indígenas na pós-graduação e estudos sobre os impactos concretos da formação continuada nas escolas.
A provocação do artigo é particularmente poderosa para a Educação Física: se toda prática corporal carrega cultura, história e conhecimento, por que algumas entram no currículo como saber e outras permanecem tratadas como folclore?
Fonte: PINTO, Arliene Stephanie Menezes Pereira; BINS, Gabriela Nobre; GOMES, Daniel Pinto. Colonialidade na cultura corporal de movimento: o racismo estrutural e o apagamento dos saberes indígenas na Educação Física. Motrivivência, Florianópolis, v. 38, n. 69, p. 1–13, 2026. DOI 10.5007/2175-8042.2026.e114391. Recebido em 14 de junho, aprovado em 10 de julho e publicado em 1º de outubro de 2026.
